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Teatro e Dança

Quasar Cia de Dança celebra reencontros e trajetória de mais de 35 anos com espetáculo

Fundada em Goiânia, em 1988, por Vera Bicalho e Henrique Rodovalho, a companhia se consolidou como uma das referências da dança contemporânea brasileira

Milena Dias

23/10/2026 5h00

instagram @satojorge

Foto: Sato Jorge

Com mais de 35 anos de trajetória na dança contemporânea, a Quasar Cia de Dança chega a Brasília com o espetáculo Céu de Pêssego, uma produção que reúne artistas de diferentes gerações em uma celebração de reencontros, memórias e experiências construídas ao longo dos anos. As apresentações acontecem nesta sexta-feira (23) e sábado (24), às 20h, na Sala Martins Penna do Teatro Nacional Claudio Santoro.

Fundada em Goiânia, em 1988, por Vera Bicalho e Henrique Rodovalho, a companhia se consolidou como uma das referências da dança contemporânea brasileira, conquistando reconhecimento nacional e internacional por sua linguagem própria, marcada pela inventividade dos movimentos, pelo humor e pela expressividade dos bailarinos.

A nova produção, primeira obra da Quasar concebida em São Paulo, nasceu do desejo de reunir novamente artistas que, em diferentes momentos, fizeram parte da história da companhia ou tiveram contato com sua linguagem artística. Sob a direção coreográfica de Henrique Rodovalho, o espetáculo reúne oito intérpretes com carreiras consolidadas, trazendo para o palco experiências individuais que se encontram por meio da dança.

O título Céu de Pêssego faz referência ao breve instante em que o céu assume tons semelhantes aos da fruta, uma imagem que representa a beleza e a efemeridade dos momentos. Essa ideia também orienta a construção do espetáculo, que transforma o reencontro dos artistas em uma experiência cênica marcada pela contemplação e pela passagem do tempo.

Segundo Henrique Rodovalho, diretor artístico e coreógrafo da Quasar, a proposta surgiu da vontade de reunir pessoas que compartilharam experiências na companhia e que, após seguirem caminhos diferentes, voltaram a se encontrar por meio da dança.

“Esse reencontro foi construído e traduzido através desse espetáculo Céu de Pêssego”, conta o coreógrafo, ao explicar que cada artista leva para o palco sua própria trajetória, construída antes e depois de sua passagem pela companhia.

Uma trajetória construída entre movimentos e reconhecimento

A história da Quasar começou em 1988, quando um grupo de jovens decidiu se desvincular de uma escola de dança para construir sua própria identidade artística e buscar a profissionalização. Na época, segundo Rodovalho, a companhia ainda não tinha plena consciência da linguagem que desenvolveria nos anos seguintes.

O espetáculo Não Perturbe, apresentado em 1989, marcou os primeiros passos dessa construção. Com uma proposta que aproximava a dança de situações cotidianas, a companhia começou a conquistar o público ao colocar em cena movimentos e comportamentos com os quais as pessoas conseguiam se identificar.

Para Rodovalho, uma das principais características desse período era justamente a presença de artistas que não se encaixavam necessariamente na imagem tradicional de bailarinos profissionais. “Hoje eu vejo que no começo a maioria absoluta não eram bailarinos, nós não éramos bailarinos, eram pessoas dançantes, pessoas que dançavam, pessoas que se moviam e se expressavam através do nosso movimento, através do nosso corpo”, relembra.

O humor também teve um papel importante nessa aproximação com o público. Presente desde as primeiras produções, o recurso ajudou a construir uma relação de identificação com a plateia, que encontrava nas apresentações situações comuns do cotidiano representadas de maneira criativa.

Ao longo dos anos, a companhia passou por transformações que contribuíram para a consolidação de sua identidade. Um dos principais momentos aconteceu em 1998, com o espetáculo Divíduo, quando Rodovalho começou a desenvolver de maneira mais definida sua assinatura coreográfica.

Inspirado por diferentes referências, como Michael Jackson, danças de rua, jazz e técnicas de dança clássica e moderna, o coreógrafo passou a explorar a fragmentação dos movimentos do corpo, criando sequências em que diferentes partes se movimentam de maneira independente e, posteriormente, se conectam.

Essa combinação entre expressividade, humor e uma movimentação detalhada contribuiu para ampliar o reconhecimento da Quasar, especialmente no exterior. Segundo Rodovalho, a companhia começou a ganhar projeção na Europa, principalmente na Alemanha, a partir de 1996, antes de alcançar maior reconhecimento em outras regiões do Brasil.

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Foto: @satojorge

Céu de Pêssego: um reencontro através da dança

Mais do que reunir artistas experientes em um mesmo palco, o espetáculo Céu de Pêssego representa um reencontro com a própria linguagem que marcou a trajetória da companhia. A produção nasceu da vontade de revisitar experiências compartilhadas e transformar as vivências individuais dos intérpretes em uma criação coletiva.

Segundo Rodovalho, durante os primeiros encontros de preparação, ficou evidente o desejo dos bailarinos de voltar a experimentar o estilo de movimento desenvolvido por ele ao longo dos anos.

A ideia inicial era que cada artista também trouxesse elementos de sua trajetória individual para a construção da coreografia. No entanto, o processo acabou valorizando principalmente a assinatura de movimentos que tornou a Quasar reconhecida dentro e fora do Brasil.

Em cena, essa linguagem aparece em sequências de alta exigência física, com movimentos detalhados e diferentes formações entre os intérpretes. A coreografia também preserva uma característica presente desde os primeiros trabalhos da companhia: o humor, que desta vez aparece de maneira mais sutil e delicada.

Para o coreógrafo, o espetáculo representa um instante especial, que, assim como o fenômeno que inspira seu título, não foi pensado para permanecer por muito tempo. “O Céu de Pêssego é um instante que acontece através de vários fatores da natureza, e é um instante muito breve”, explica Rodovalho, ao relacionar a imagem do céu à experiência de reencontro dos artistas.

A montagem também valoriza a maturidade dos intérpretes. Com um elenco que o próprio coreógrafo descreve como “40+”, a produção reúne profissionais que continuam explorando a vitalidade e a expressividade do corpo, mesmo após décadas de atuação na dança.

Entre eles está Jorge Garcia, de 54 anos, citado por Rodovalho como exemplo da energia e da disposição dos artistas que participam da produção.

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Foto: @satojorge

Uma experiência para além dos movimentos

Para quem não está habituado a acompanhar espetáculos de dança contemporânea, Céu de Pêssego também se apresenta como uma oportunidade de conhecer a linguagem artística desenvolvida pela Quasar ao longo de sua trajetória.

A montagem combina movimentos elaborados, trilha sonora original, figurinos e iluminação para construir uma experiência visual que valoriza tanto a técnica quanto a personalidade dos artistas.

A trilha sonora foi criada por Lívia Nestrovski e Fred Ferreira, enquanto os figurinos são assinados por Cássio Brasil, colaborador histórico da companhia. O profissional também participou da criação do cenário ao lado de Rodovalho.

Um dos elementos visuais da produção é o piso coberto por veludo cinza, que registra marcas e rastros dos movimentos dos bailarinos ao longo da apresentação, transformando a própria superfície do palco em parte da composição artística.

Segundo o coreógrafo, a qualidade dos movimentos e a integração entre os diferentes elementos da montagem são aspectos que podem despertar o interesse de novos públicos pela dança contemporânea.

Para além da técnica, Rodovalho acredita que a apresentação pode provocar diferentes sensações e reflexões, especialmente por reunir artistas que carregam histórias e experiências construídas ao longo de décadas.

A proposta não é estabelecer uma interpretação única, mas permitir que cada espectador construa sua própria relação com aquilo que acontece em cena.

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Foto: @satojorge

Brasília e uma relação construída ao longo de décadas

A chegada de Céu de Pêssego a Brasília também representa a continuidade de uma relação antiga entre a Quasar e o público da capital federal.

Segundo Henrique Rodovalho, a companhia se apresentou pela primeira vez na cidade em 1989, ainda nos primeiros anos de sua trajetória. Desde então, as visitas frequentes ajudaram a construir uma relação de proximidade com os espectadores brasilienses.

Ao longo das décadas, Brasília se tornou um dos lugares que acompanharam o desenvolvimento artístico da Quasar, recebendo diferentes espetáculos e contribuindo para a formação de um público interessado na produção de dança contemporânea desenvolvida em Goiás.

Para o coreógrafo, retornar à capital com uma obra que reúne tantas experiências da companhia tem um significado especial. “A gente tem uma relação muito forte de acolhimento com Brasília, sempre tivemos um bom público”, afirma Rodovalho, que destaca a proximidade entre Goiânia e a capital federal como um dos fatores dessa conexão.

O artista também conta que as duas sessões de Céu de Pêssego já estavam lotadas uma semana antes das apresentações, reforçando, segundo ele, o vínculo construído com o público ao longo dos anos. “É quase uma segunda casa nossa, até pela proximidade de Goiânia. Céu de Pêssego em Brasília é isso, é quase como se estivéssemos apresentando na nossa casa”, destaca.

Com uma trajetória que atravessa diferentes gerações e transformações da dança brasileira, a Quasar retorna a Brasília com uma produção que revisita sua própria história, ao mesmo tempo em que valoriza a experiência e a maturidade dos artistas.

Em Céu de Pêssego, o reencontro se transforma em movimento, e a passagem do tempo ganha espaço em uma apresentação que convida o público a observar a beleza dos instantes que, mesmo breves, permanecem na memória.

Serviço: Céu de Pêssego, da Quasar Cia de Dança
Local: Sala Martins Pena do Teatro Nacional Claudio Santoro
Endereço: Via N2 do Eixo Monumental, no Setor Cultural Norte Dias e horários: 23 e 24 de outubro, sexta e sábado, às 20h
Ingressos: R$ 80,00 e R$ 40,00 (meia)
Duração: 50 minutos
Classificação indicativa: livre para todos os públicos

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