Até onde o corpo pode resistir? É a partir dessa pergunta que a artista circense Aisha Britto constrói Pelle: A Maripoza, espetáculo que estreia hoje (7) com apresentações no Galpoa, na Vila Planalto, e no Espaço Pé Direito, na Vila Telebrasília entre os dias 14 e 16 deste mês. Unindo circo contemporâneo, dança e experimentações sonoras e visuais, a montagem utiliza o corpo feminino como linguagem para abordar memória, violência, permanência e liberdade, sem recorrer à representação explícita das agressões.
Inspirado em experiências vividas pela artista, o trabalho começou a ser desenvolvido durante sua formação na Scuola di Circo FLIC, na Itália. A percepção de que sua pele suportava impactos considerados incomuns despertou uma investigação sobre as expectativas impostas aos corpos femininos e sobre o estranhamento provocado por mulheres que não correspondem à ideia de fragilidade.
“Pelle nasceu da pergunta sobre o que permanece em nós depois da violência e de como a arte pode reorganizar aquilo que parecia impossível de reconstruir”, afirma Aisha Britto.
A pesquisa, inicialmente centrada em sua trajetória pessoal, foi ampliada com relatos de outras mulheres, incorporados ao processo criativo. O resultado é uma dramaturgia sensorial que utiliza técnicas como o Mastro Chinês e o Mastro Pendular para explorar a relação entre corpo, memória e transformação, propondo uma reflexão sobre as marcas visíveis e invisíveis deixadas pela violência.

Ao longo da montagem, o corpo é levado ao limite físico como recurso poético, fazendo do esforço, do risco e da resistência elementos centrais da narrativa. A construção cênica aposta em metáforas corporais, sonoras e visuais para traduzir experiências que muitas vezes não encontram espaço na linguagem cotidiana.
“Pensamos em fazer um espetáculo muito forte na fisicalidade dele. Então, pensamos em partituras corporais e em elementos cênicos que ajudassem a trazer as marcas e que colocassem o meu corpo no limite. Foi muito treino e ensaio”, explica a artista.
“Eu acho que chega um momento na vida em que toda mulher se sente agredida de alguma forma. Seja no trabalho, na escola, em casa ou em algum relacionamento. No meu caso, isso ficou muito evidente depois dos abusos que sofri nos relacionamentos amorosos. Então percebi que a questão era ainda mais profunda e que eu não estava sozinha nisso”, relata Aisha.
Essa perspectiva também orienta a linguagem circense escolhida para a montagem. Tradicionalmente associadas ao risco, as técnicas do circo são utilizadas para construir uma narrativa simbólica sobre vulnerabilidade, permanência e reconstrução. “O espetáculo não é sobre violência, é sobre o que fazemos com o que nos acontece. É sobre reorganizar a memória a partir do movimento e reconhecer que, embora as cicatrizes permaneçam, elas também podem se tornar matéria de criação”, destaca.
Segundo a artista, o uso de recursos físicos, sonoros e visuais permite abordar o tema sem recorrer à reprodução direta das agressões, privilegiando uma experiência sensorial para o público.
Temporada aposta em acessibilidade e diálogo com o público
A circulação de Pelle: A Maripoza começa no Galpoa, onde permanece entre os dias até 9 de agosto. A sessão de estreia será destinada exclusivamente a mulheres cis e trans, proposta que busca criar um ambiente de acolhimento, escuta e compartilhamento de experiências. Em seguida, entre 14 e 16 de agosto, o espetáculo será apresentado no Espaço Pé Direito.
Todas as sessões acontecem às 20h e serão seguidas por conversas entre a artista e o público sobre os processos de criação e os temas abordados na obra.
A temporada também foi concebida com foco na acessibilidade. Todas as apresentações contarão com intérprete de Libras, enquanto duas sessões terão audiodescrição voltada a pessoas com deficiência visual. O projeto ainda inclui uma Oficina de Consciência Corporal e Mobilidade, marcada para o dia 29 de agosto, no Galpoa. A atividade é direcionada prioritariamente a pessoas com deficiência física, deficiência motora e pessoas com mobilidade reduzida, reforçando o compromisso da iniciativa com a democratização do acesso às artes.
Programação
Galpoa – Centro de Pesquisa e Difusão das Artes Circenses (Vila Planalto)
- 7 de agosto, às 20h — sessão exclusiva para mulheres (cis e trans), com Libras
- 8 de agosto, às 20h — com Libras e audiodescrição
- 9 de agosto, às 20h — com Libras
Espaço Pé Direito (Vila Telebrasília)
- 14 de agosto, às 20h — com Libras e audiodescrição
- 15 de agosto, às 20h — com Libras
- 16 de agosto, às 20h — com Libras
Oficina de Consciência Corporal e Mobilidade
Quando: 29 de agosto, das 14h às 17h
Onde: Galpoa – Vila Planalto.
Serviço
Pelle – A Maripoza
Quando: 7 a 16 de agosto, de sexta a domingo, às 20h
Onde: Galpoa (Vila Planalto) e Espaço Pé Direito (Vila Telebrasília)
Entrada: gratuita, mediante retirada de ingressos