O cineasta britânico Ken Loach continua fiel a seu cinema de denúncia e desta vez fala da “ilegal” e “monstruosa” guerra do Iraque através do filme “Route Irish”, apresentado hoje na competição de Cannes.
O filme foca nos mercenários que atuam no Iraque com total impunidade, uma desculpa para Loach criticar duramente a guerra. Para o diretor, o conflito começou a partir das mentiras dos governantes da época, que não pagaram por isso, como ele faz questão de ressaltar.
Protagonizada por Mark Womack, um conhecido ator de televisão que faz sua estreia na telona, o filme conta como o personagem Fergus enfrenta a morte de seu melhor amigo Frankie enquanto ele trabalhava como segurança privado no Iraque.
Fergus inicia uma investigação que permite a Loach reconstruir o conflito do Iraque, especialmente a forma como ele afetou os iraquianos e como o lado mais terrível da guerra é ocultado.
Como sempre, Loach trata de buscar “a verdade no personagem, na situação” e se concentra no processo crescente de privatização do Exército como exemplo do que está ocorrendo na sociedade atual.
“Está se privatizando tudo hoje em dia: as prisões, os hospitais…. qualquer coisa de que se possa tirar dinheiro”, lamentou o diretor na coletiva de apresentação do filme.
No caso, o longa trata das empresas privadas que se ocupam da segurança de certas personalidades no Iraque, um negócio crescente que opera em quase total impunidade, explicou Loach.
Um aspecto da guerra do Iraque que o diretor de “Agenda Secreta” (1990) e “Terra e Liberdade” (1995) usou para falar de um tema que sempre o preocupou e sobre o qual fazia tempo que queria fazer um filme.
O diretor e seu roteirista habitual, Paul Laverty, buscaram uma história para fazer o filme e a encontraram nos mercenários que trabalham no Iraque e, concretamente, nos que se dedicam a proteger aqueles que devem percorrer a chamada “rota irlandesa”.
Uma das mais áreas mais perigosas do Iraque, a rota une o aeroporto de Bagdá a chamada “zona verde”, uma área altamente fortificada da cidade na qual estes mercenários atiram antes de perguntar, mesmo que o objeto dos disparos seja uma criança.
A história inclui cenas muito violentas, como o interrogatório e a tortura de um dos suspeitos da morte de Frankie. Uma cena chave no filme, segundo Loach, porque demonstra que sob tortura se dizem as verdades que o torturador quer ouvir, o que demonstra que é muito difícil dizer a verdade.
Tortura é habitual na guerra do Iraque, apesar de países como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha serem signatários da Convenção das Nações Unidas contra a Tortura, lembra o diretor.
Com este filme, Loach tenta repetir o sucesso que teve em Cannes em 2006, quando ganhou a Palma de Ouro por “Ventos da Liberdade”.
Após o filme de Loach faltam apenas dois longas-metragens na competição oficial de Cannes: a esperada e já polêmica segunda parte de “Burn by The Sun 2”, do russo Nikita Mijalkov, e o húngaro “Szelid Teremtés. A Frankenstein Terv”, de Kornél Mundruczo.