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Música

Madonna faz da pista de dança trincheira contra a caretice em ‘Confessions II’

e esperavam dela silêncio e reclusão ao chegar à velhice, Madonna reafirma a sua presença ruidosa e insolente na pista de dança neste trabalho que é uma continuação do aclamado “Confessions on the Dance Floor”, de 2005

Redação Jornal de Brasília

02/07/2026 13h56

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Após quase duas décadas, Madonna retorna à Warner Records. (Foto: Ricardo Gomes)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Os críticos eram implacáveis com Madonna naquele início de carreira. Em 1985, o jornalista Greil Marcus considerava que a artista não tinha qualquer interesse por música. “Ela vai acabar virando uma grande estrela de cinema”, disse ele, em entrevista à revista Time. Na mesma reportagem, o editor Paul Grein era enfático. “Ela vai estar fora do mercado em seis meses.”

Mais de quatro décadas após essas previsões, a cantora não apenas se manteve no mercado como construiu uma carreira superlativa, colecionando hits, prêmios e recordes. Com o lançamento do disco “Confessions II”, nesta sexta-feira (3), a rainha do pop volta a frustrar expectativas. Se esperavam dela silêncio e reclusão ao chegar à velhice, Madonna reafirma a sua presença ruidosa e insolente na pista de dança neste trabalho que é uma continuação do aclamado “Confessions on the Dance Floor”, de 2005.

Isso já estava evidente no curta, lançado no mês passado como uma prévia do álbum, e também nos primeiros minutos do disco, com 16 faixas. Em “I Feel So Free”, faixa de abertura do álbum, ela nos convida a conhecer a força libertária da pista de dança. Enquanto em “Danceteria”, a cantora promove uma espécie de arqueologia da vida noturna de Nova York.

O título da faixa faz referência à lendária balada frequentada por nomes como Jean-Michel Basquiat e Keith Haring. Em 1982, Madonna convenceu o DJ Mark Kamins a tocar nesse espaço “Everybody”, a sua música de estreia. A partir daí, ela viu a carreira decolar. Parte dessa história é narrada em “Danceteria”, canção de letra atmosférica sobre as noitadas fervilhantes naquela boate.

Canções como essas parecem conduzir o ouvinte a uma viagem hedonista pelos prazeres da vida noturna. É uma jornada regada a altas doses de house, dance e música eletrônica, gêneros que dominam baladas mundo afora.

“Madonna está mostrando que uma mulher de 67 anos ainda pode se divertir e gerar entusiasmo”, afirma a americana Mary Gabriel, autora da biografia “Uma Vida Rebelde”, livro que repassa a carreira da artista. A escritora diz que a dança é um elemento formador. “Ela é dançarina desde menina. Essa é a sua raíz artística.”

Por isso mesmo, a cantora não considera a pista de dança um lugar anódino. “As pessoas acham que a música dançante é superficial, mas estão completamente enganadas”, diz ela, na introdução de “One Step Away”, a terceira música do novo disco. “A pista de dança não é apenas um lugar, é um limiar. É um espaço ritualístico onde o movimento substitui a linguagem.”

Gabriel diz que mexer o corpo ao som trepidante da música de fato transmite mensagens sem precisar de palavras. “É uma forma de as pessoas se expressarem politicamente quando sabem que se disserem algo abertamente serão censuradas. Madonna usa a dança dessa forma. É política até a medula.”

Esse potencial político da música dançante se torna ainda mais evidente em tempos de crise. Foi o que aconteceu nos anos 1980, em meio à epidemia de Aids, período em que a comunidade LGBTQIA+ fez das boates uma trincheira contra a dor e o preconceito.

“Madonna disse naquele momento para quem estava sofrendo: ‘Vamos nos reunir e dançar’. Lidaremos com isso na pista de dança, porque somos uma comunidade.”

Para ajudar a dissipar os estigmas em torno da doença, a artista incluiu uma cartilha com informações no encarte do álbum “Like a Prayer”, lançado em 1989, no auge da epidemia. O material dizia que o vírus poderia infectar qualquer pessoa, independentemente da sexualidade. Em um período no qual a doença era conhecida como câncer gay, essa informação não era trivial.

Décadas mais tarde, ela volta a usar a dança para confrontar outro momento limítrofe. Dessa vez, o mundo lida com as incertezas provocadas pelas mudanças climáticas e pelo avanço do autoritarismo. “Mais uma vez, ela está dizendo para nos reunirmos e dançarmos”, afirma Gabriel. “Sim, o sofrimento existe, mas também sempre existirá alegria.”

Madonna fez da boate não apenas uma forma de lidar com crises coletivas, mas também de enfrentar turbulências pessoais, como quando fez o primeiro “Confessions”, há duas décadas.

Esse trabalho foi lançado depois do desempenho desastroso de “American Life”, de 2003. O disco não foi bem recebido em razão das críticas à invasão ao Iraque e ao então presidente George W. Bush.

Após o fracasso comercial, ela se refugiou na pista de dança com “Confessions on the Dance Floor”. Graças a ele, Madonna não só recuperou a popularidade, mas ajudou a trazer de volta a disco music ao mercado fonográfico.

Embora “Confessions II” seja uma sequência desse trabalho, o álbum está longe de ser uma repetição do que ela já fez. As canções reverenciam o passado, mas têm raízes fincadas no presente e olhos voltados ao futuro. Prova disso são os artistas com os quais a popstar escolheu trabalhar.

Nova queridinha da música pop, Sabrina Carpenter empresta seus vocais angelicais a “Bring Your Love” —o primeiro single do álbum, lançado no final de abril. Já “Bizarre” foi feita em parceria com DJ Martin Garrix, um dos nomes mais quentes da cena eletrônica hoje.

A julgar pelas críticas, a mistura entre o novo e o antigo deu certo. Veículos como BBC, The Guardian e Financial Times consideram esse o seu trabalho mais sólido em pelo menos duas décadas.

“Nesse disco, ela ocupa um lugar duplo, em que se aproxima das pessoas mais velhas, mas sinaliza uma certa pedagogia da pista de dança para os mais novos”, diz Thiago Soares, professor de comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, a UFPE, na qual ele pesquisa sobre cultura pop.

Madonna exalta a vida noturna num momento em que pesquisas indicam uma inclinação da geração Z por lazeres domésticos. A artista parece fazer alusão a esse fenômeno em “Everything”, sétima faixa do novo disco. “Ninguém quer sair de casa/ Isso não está certo/ Eu fico chocada.”

Para o especialista, o trabalho mostra uma alternativa a essa realidade. “É uma pedagogia para os gays novinhos sobre como a boate é um lugar de luta e de encontro.”

No caso da cantora, esse espaço se torna também uma arma contra o etarismo problema que não é novidade em sua carreira. Em 1993, a artista estampou as páginas de uma revista inglesa por ocasião da turnê “The Girlie Show”, considerada um manifesto ao prazer e à liberdade sexual.

Os editores da revista, no entanto, queriam que ela pegasse mais leve. “Vai com calma, vovó”, dizia o título da matéria. À época, Madonna tinha 35 anos.

“Quando as pessoas imaginam o envelhecimento, elas pensam em se recolher e ficar em casa, como um certo ostracismo”, diz Soares, acrescentando que a cantora vai no caminho inverso e reivindica envelhecer na pista de dança. “A grande revolução da Madonna é continuar.”

A própria artista deixou isso bem claro, em 2016, quando foi homenageada no prêmio Billboard Women in Music. “As pessoas dizem que eu sou muito controversa, mas a coisa mais controversa que eu já fiz foi ter continuado por aí.”
CONFESSIONS II

  • Quando Sex. (3)
  • Onde Plataformas digitais
  • Autoria Madonna
  • Gravadora Warner Music

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