A banda curitibana Jovem Dionísio apresenta em Brasília, neste sábado (3), a turnê do álbum “Migalhas”, lançado em abril deste ano. O show acontece na Infinu Comunidade Criativa, na SQS 506, e marca a chegada à capital de uma nova fase do grupo, que aposta em uma experiência mais imersiva e em um processo de criação cada vez mais coletivo. Em entrevista, o vocalista Bernardo Pasquali fala sobre as descobertas feitas durante a produção do disco, as possibilidades abertas pelo ônibus-estúdio Aquiles e as memórias construídas pela banda com o público brasiliense.
“A gente percebeu que a coisa mais valiosa que a gente tem para oferecer é o encontro nosso de um com o outro”, afirma. Segundo o cantor, a diferença em relação aos trabalhos anteriores não está na ausência de participação dos integrantes, mas na maneira como as ideias passaram a surgir e se transformar simultaneamente dentro do estúdio.
A construção de uma nova sonoridade
“Todo mundo sempre botava ideia nas músicas, mas dessa vez a gente colidia as ideias simultaneamente. Estava todo mundo botando ideia ao mesmo tempo nas músicas”, explica Bernardo. Para ele, essa dinâmica fez com que algumas certezas construídas durante o processo fossem naturalmente substituídas por novas possibilidades. “Muitas vezes duas ideias novas entravam e elas anulavam outras ideias antigas que antes eram ditas como certeza.”

O processo também levou a banda a repensar a própria forma de construir uma música. Bernardo conta que o grupo passou a observar com mais atenção quais elementos realmente precisavam permanecer nas composições e quais estavam ali apenas por terem sido incorporados durante o caminho. “A gente caminha dentro das músicas criando pedaços, ideias que às vezes estão ali porque precisam estar ali ou às vezes estão ali só porque estão ali”, diz. A experiência, segundo ele, ajudou a banda a “entender melhor o que significam certezas dentro de estúdio”.
A experimentação, aliás, não parece estar perto de terminar. Com o ônibus-estúdio Aquiles, utilizado pela banda durante as viagens, novas possibilidades de composição passaram a surgir também na estrada. Para Bernardo, a ferramenta tem potencial para acompanhar a Jovem Dionísio por muito tempo. “Um disco, ou dois, ou cinco, talvez”, brinca.
O vocalista destaca que a experiência ainda está no começo, mas já mostrou resultados expressivos. “A gente sabe que o Aquiles é uma ferramenta muito poderosa. Do pouco tempo que a gente já está usando ele, a gente já entendeu isso.” Em uma viagem de aproximadamente uma semana, o grupo conseguiu desenvolver mais de 20 ideias de músicas. “Coisa que não acontece em outros lugares”, conta. Para Bernardo, o diferencial está justamente no ambiente criado pelo veículo: “Ele tem algo a mais”.
Essa disposição para testar novas possibilidades também aparece quando o assunto é o futuro da banda. Depois de uma trajetória marcada pelo sucesso de músicas como “Acorda Pedrinho”, a Jovem Dionísio não pretende se prender a uma fórmula. “A gente quer experimentar absolutamente tudo que a gente puder experimentar”, afirma Bernardo.

O cantor relaciona esse desejo ao próprio amadurecimento musical dos integrantes. “Quanto mais a gente sabe, mais a gente descobre o quanto não sabe. E aí dá vontade de saber mais.” A ideia, segundo ele, é continuar procurando combinações que tragam algum elemento novo. “A gente vai seguir fazendo música enquanto a gente encontrar combinações que a gente acha que ainda não fizeram, ou se fizeram, não fizeram da forma que a gente faria”, explica.
A busca por uma sonoridade própria também está relacionada ao surgimento de “Acorda Pedrinho”, música que projetou a banda para um público muito maior. Bernardo lembra que a composição nasceu justamente de uma tentativa de experimentar algo diferente. “O que nos fez fazer Acorda Pedrinho foi justamente a experimentação de uma nova sonoridade.”
Para o vocalista, o sucesso da faixa também mostrou que não existe uma fórmula exata capaz de determinar o impacto de uma música. “A gente percebeu que não é um ritmo específico ou uma progressão de acordes ou uma cadência melódica exata que faz com que uma música tenha um grande impacto.” Ele define esse elemento como “uma magia que ninguém consegue ensinar, mas todo mundo consegue sentir”.
Depois de anos de carreira, Bernardo afirma que a banda aprendeu a reconhecer esse momento durante o processo de criação. “A gente sabe reconhecer essa sensação de magia e a gente acaba trabalhando mesmo como alquimistas para invocar mais dessa magia.”
Relação com o público brasiliense
É dentro dessa fase de experimentação que a Jovem Dionísio chega a Brasília com a turnê de “Migalhas”. O show acontece neste sábado (3), na Infinu, e representa mais um reencontro com um público que, segundo Bernardo, ocupa um lugar especial na trajetória da banda. A apresentação terá uma atmosfera mais intimista, favorecida pela estrutura da casa e pelo sistema fechado de som e iluminação.
“Não teve nenhuma vez que a gente foi mal recebido em Brasília”, afirma o vocalista. “A gente sempre tem encontros muito marcantes e os shows são sempre, sempre, sempre muito quentes. Então a gente fica empolgado pra voltar.”
Entre as lembranças que a banda guarda da capital está a participação na abertura do show do The Killers, no Mané Garrincha, em 2022, experiência também mencionada no material de divulgação do espetáculo. Bernardo recorda, inclusive, um episódio curioso dos bastidores daquela apresentação, envolvendo integrantes dos Raimundos.
“Quando a gente abriu esse show do The Killers, a gente tava no mesmo hotel dos Raimundos”, conta. No dia da apresentação, os integrantes da Jovem Dionísio encontraram Canisso na sauna do hotel e começaram a conversar. “A gente entrou na sauna e começou a bater um papo com ele, trocar ideia sobre várias coisas.”
A conversa se estendeu por cerca de meia hora até que veio a constatação de que todos já estavam há bastante tempo no local. “Ele falou: ‘Nossa, quando vocês chegaram eu já tava aqui dentro há uma hora quase’.” A história ainda terminou com outro momento inusitado: “Daí a gente foi entrar numa piscina que não podia entrar. Daí a gente entrou junto com ele pra esfriar da sauna.”
Agora, de volta à capital, a banda leva ao palco uma fase mais madura e experimental, mas sem deixar de lado a espontaneidade que acompanha sua trajetória. Em “Migalhas”, esse espírito aparece tanto nas músicas quanto na maneira como os integrantes passaram a construir o trabalho juntos e, para Bernardo, é justamente nesse encontro que continuam encontrando espaço para descobrir o que vem depois.
Serviço
Jovem Dionísio Migalhas Tour em Brasília
Sábado (3/10) na Infinu Comunidade Criativa (SQS 506)
Ingressos: a partir de R$ 60 (meia-entrada solidária) disponíveis na plataforma
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