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Cinema com ela
Cinema com ela

“Michael” celebra o Rei do Pop com espetáculo visual e trilha impecável

Cinebiografia do Rei do Pop entrega tributo visual deslumbrante e interpretação impressionante de Jaafar Jackson, mas recua diante das sombras que tornam a história realmente humana, longa chega com sessões antecipadas a partir desta quinta-feira (21)

Tamires Rodrigues

21/04/2026 15h28

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

Há filmes que existem para fazer você sentir, e há filmes que existem para fazer você lembrar. Michael, cinebiografia dirigida por Antoine Fuqua, pertence com convicção à primeira categoria. Em pouco mais de duas horas, a obra mergulha na trajetória do astro desde a infância em Gary, Indiana, nos anos 1960, atravessa a formação do Jackson 5, o estouro de Off The Wall e o impacto civilizatório de Thriller, e chega até a Victory Tour e a decisão de Michael de seguir solo. É um percurso generoso, construído com cuidado e com olhos voltados quase exclusivamente para o palco.

O roteiro de John Logan escolhe a arte como fio condutor, e essa escolha não é trivial: significa que o filme se organiza como espetáculo antes de se organizar como narrativa. Cada cena parece calculada para convergir na próxima performance, na próxima música, no próximo momento em que a sala de cinema vira uma extensão do palco. O efeito funciona. Há uma força cinética nas sequências musicais que dificilmente deixa alguém imóvel na cadeira, e reconhecer isso é reconhecer o que o filme faz de melhor.

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

Jaafar Jackson, sobrinho do cantor na vida real e estreante na atuação, entrega uma das performances mais surpreendentes de uma cinebiografia em anos. Não se trata apenas de uma imitação competente: Jaafar captura uma qualidade interior, uma fragilidade latente que convive com o magnetismo absoluto em cena. Quando dança, quando canta, quando simplesmente ocupa o quadro, a identificação é física. É o tipo de interpretação que sustenta um filme inteiro mesmo quando o roteiro falha em sustentá-la.

E o roteiro falha, não por incompetência, mas por recuo. Colman Domingo vive Joe Jackson com a intensidade esperada, e a relação abusiva entre pai e filho é o pivô dramático mais honesto do filme. Joe quer capitalizar o filho; Michael quer ser livre. Esse conflito tem carne, tem ritmo, tem consequência emocional. Mas os demais membros do Jackson 5 habitam o filme como figurantes com nome, sem opinião, sem contradição, sem vida própria. A família que moldou Michael Jackson, que o sufocou e o formou ao mesmo tempo, é reduzida a cenário.

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

O retrato de Michael como homem é construído em camadas de vulnerabilidade cuidadosamente controladas. Há o vitiligo, a insegurança com o nariz, as visitas a crianças com câncer, o amor pelos animais, a solidão de quem carrega um dom que ninguém consegue ignorar. Cada um desses elementos é introduzido com emoção e encerrado sem desdobramento. O filme pincela sem pintar, toca sem pressionar. A sensação é a de um documentário que conhece bem o assunto e decide, conscientemente, não aprofundá-lo.

A referência recorrente a Peter Pan é o símbolo mais honesto do que o filme quer dizer sobre seu personagem: um homem que não quer crescer, que constrói um mundo à parte do mundo real, que encontra nas crianças uma pureza que a fama adulterou nele. Essa leitura tem potencial, e o roteiro sabe disso. Mas como o Rancho Neverland pertence ao segundo filme prometido, o símbolo fica suspenso, apontando para algo que ainda não existe na tela.

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

Há uma cena emblemática em que Michael declara que a música pode mudar o mundo, espalhar amor e paz, fazer o mundo sentir magia. A frase poderia soar grandiosa demais se o filme não a tratasse com tanta seriedade e convicção. É exatamente isso que o longa acredita: que Michael Jackson foi, acima de qualquer controvérsia, um fenômeno de bondade e talento. Essa crença, levada às últimas consequências, transforma o protagonista em ícone e apaga o homem.

O problema das cinebiografias que idealizam seu sujeito não é apenas ético, é dramatúrgico. Um personagem sem contradições reais não tem arco verdadeiro, tem trajetória. Michael sobe, sofre obstáculos externos, supera, sobe mais. Os conflitos internos existem em esboço, mas nunca em profundidade. E quando a própria filha do cantor, Paris Jackson, diz publicamente que o filme agrada a quem vive numa fantasia e que há imprecisões e mentiras descaradas na narrativa, o espectador que sabe disso assiste com uma camada a mais de desconforto que o filme não foi feito para absorver.

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

A decisão de não retratar nem mesmo as polêmicas menores do período retratado, como a resistência religiosa de Michael ao clipe de Thriller, revela a medida do recuo. Se até os conflitos documentados e relativamente seguros foram suavizados, a segunda parte, que precisará lidar com as acusações de abuso infantil que definiram e destruíram parte da imagem pública do cantor, carrega uma promessa difícil de cumprir com integridade dentro da lógica estabelecida por este primeiro filme.

Conclusão

Michael é, no fim, um espetáculo que funciona plenamente no tempo em que dura. Faz chorar, faz cantar por dentro, faz sentir a dimensão cultural de um artista que redefiniu o que um show pode ser. Para os fãs, é um tributo sólido e emocionalmente generoso. Para quem chega sem devoção prévia, é cinema bem executado que evita as perguntas que tornariam a história realmente inesquecível. Sai da sala com você como uma música que não sai da cabeça, mas que, quando termina de tocar, deixa menos do que prometia.

Confira o trailer:

Ficha Técnica
Direção:
Antoine Fuqua;
Roteiro: John Logan;
Elenco: Jaafar Jackson, Juliano Krue Valdi, Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller;
Gênero: Biografia, Drama, Musical;
Duração: 128 minutos;
Distribuição: Universal Pictures;
Classificação indicativa: 12 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z

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