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Literatura

Abusador pode ser qualquer um, do vizinho ao ‘feministo’, diz Cristina Fibe em livro

“Você Não Está Sozinha”, livro que será lançado em São Paulo nesta quinta (5)

Redação Jornal de Brasília

05/11/2026 10h42

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Foto: Divulgação

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Uma mulher está sozinha numa floresta e tem duas opções: cruzar com um urso ou com um homem. O que você acha que ela vai preferir?
O dilema, posto por uma tiktoker, teve uma reação feminina em peso: o bicho, óbvio. As justificativas iam de “o máximo que o urso pode fazer é me matar” a “pelo menos as pessoas iam acreditar em mim se eu dissesse que fui atacada por um urso”.

Não é à toa que a jornalista Cristina Fibe resgata esse debate viral de 2024 em “Você Não Está Sozinha”, livro que será lançado em São Paulo nesta quinta (5). “Os homens não entendem que a maioria de nós prefere ser morta e dilacerada por um urso, ou ter alguma chance de correr para escapar dele, do que lidar com o inegociável, que é ser dominada, estuprada e dilacerada por um ser humano.”

É um exemplo drástico? É. Mas reflete com precisão um mundo que não dá trégua às mulheres, expostas a uma engrenagem de violências em suas formas mais variadas, da física à psicológica, e que tantas vezes se justapõem.

Isso a autora descreve bem ao elencar um ciclo noticioso que, só de 2018 para cá, relatou casos como o do homem que carrega uma mulher desacordada por três quilômetros, para estuprá-la, o médico anestesista que violenta uma mãe que acabou de parir, o ex-jogador Robinho debochando do estupro coletivo do qual participou, e uma recém-nascida morta aos 27 dias de vida, com lesões nas partes íntimas. O pai foi preso no enterro.

Verdadeiros monstros? Aí é que está. Para Fibe, tratá-los como aberrações isoladas mascara o fato de que são homens comuns criados por uma cultura patriarcal que naturaliza o domínio sobre os corpos femininos. Vê-los como monstros, inclusive, acaba enfraquecendo a voz da mulher nos casos em que a violência é velada e o agressor não veste a carapuça do algoz evidente.

“Há uma resistência enorme em dar crédito à palavra da vítima quando o abusador não se encaixa no estereótipo do homem violento. Ai de quem tentar denunciar um sujeito carismático, célebre, intelectual respeitado”, diz. Mais provável é que “a mulher seja atacada sem piedade e que o homem seja defendido”.

Temos, como sociedade, um bloqueio em aceitar o que as estatísticas escancaram, afirma a autora. “O abusador não tem endereço nem cara.”

Pode ser qualquer um. Um parente, o advogado respeitado, o autodeclarado “feministo”. “Quando ele vem com simpatia e carisma, ninguém quer acreditar. O mesmo serve para a denunciante. Se ela não atender aos requisitos da ‘vítima ideal’, é muito provável que a sua palavra seja colocada em dúvida e que ela seja culpabilizada.”

Fibe resgata uma sugestão da primeira-dama Janja de criar abrigos exclusivos para homens solteiros nas enchentes que arrasaram o Rio Grande do Sul em 2024. A proposta, porém, desconsidera que o perigo mora dentro de casa: os primeiros presos por abusos nesses espaços eram homens “de família”, que já violentavam suas parceiras e crianças. São dados que refletem um padrão da violência de gênero.

O livro é estruturado a partir de colunas semanais que Fibe manteve de 2023 a 2026, primeiro no UOL, depois no canal Amado Mundo, costurado por reflexões inéditas.
A autora foi uma das primeiras jornalistas a revelar os abusos sexuais cometidos por João de Deus e, em seus textos, aponta como o espírita cumpre pena em sua mansão e segue faturando com suas fazendas, seu centro espiritual ainda aberto e a venda internacional de “camas de cristal” a R$ 15.600 cada —elas vêm com luzes coloridas e, segundo a crença divulgada, servem para “alinhar as energias” de quem se deita nelas.

Fibe fala bastante de abuso da fé e impunidade institucional. Outros temas que ela perpassa são aborto legal e violências várias: médica, doméstica, sexual e também judicial, tão bem ilustrada por um episódio na Irlanda em 2018. Uma advogada argumentou no tribunal que a vítima usava uma “calcinha fio dental com frente de renda”, como se isso invalidasse a acusação de estupro.

O livro dedica uma seção inteira à “misoginia na cultura e na mídia”, apontando uma rede de conivência midiática e cultural que normaliza abusos e protege agressores. Ela contesta o mito de que homens acusados de violência sofreriam um “cancelamento” definitivo, por exemplo. O que opera, na prática, é a “cultura da vista grossa”, diz.

Enquanto quem denuncia enfrenta linchamento digital e desgaste psicológico, homens violentos mantêm prestígio, contratos e seguidores. Vide Cauã Reymond, cujos contratos de publicidade milionários e papéis de destaque na TV seguiram intactos após denúncias de violência psicológica e queixas de machismo nos bastidores.

Fibe alerta que os mecanismos misóginos vão se sofisticando para se perpetuar.

“Precisamos nos preparar para isso: quais são e serão as novas formas de violência, depois que as praticadas hoje não forem mais toleradas?”

Ela gosta de frisar que a violência de gênero não vê espectro político. Se o debate público associa abusadores à extrema direita, “já que a legitimação da misoginia é uma característica desses líderes”, a experiência recomenda ficarmos alerta “a abusadores que fogem desse estereótipo, têm letramento de gênero e podem fazer uso nocivo dele, para nos manipular e não para nos dar a mão nessa batalha”.

A mesma autora que investiga a radicalização da machosfera digital é mãe de um menino de 11 anos. Talvez esse livro não existisse de outra forma. “Mudou completamente a minha trajetória profissional, porque fui me letrar também para aprender a criar um homem que não seja violento.”

Fibe percebe um inchaço do ressentimento masculino “conforme eles perdem os espaços de privilégio e poder”. Mas acha que essa onda tem um teto.

“Não é possível que os homens entrem em ‘crise de masculinidade’ porque estamos dizendo a eles que não podem mais nos subjugar e violentar. Os homens que não são violentos tendem a se adaptar melhor à nossa luta: é muito mais confortável construir um espaço em que não precisem ser a única fonte de força, ficar se provando o tempo inteiro.”

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA

  • Quando Lançamento nesta quinta (5), na livraria Bibla, às 19h
  • Onde Praça Professora Emília Barbosa Lima, 58 – Vila Madalena, São Paulo – SP
  • Preço 78,40
  • Autoria Cristina Fibe
  • Editora Bazar do Tempo (304 págs.)

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