Feriado de Finados, minhas criaturas! Enquanto metade do Rio de Janeiro resolveu descansar, eu continuo no batente. Estou aqui no, no Cosme Velho, tomando um suco de pera geladinho e tentando digerir duas coisas: o café da manhã e a coragem de Flávio Bolsonaro de comprar uma briga pública com a maior emissora do país. Assisti à reportagem do Fantástico deste domingo (1º) e, logo depois, fui conferir a nota publicada pelo senador. Meus amores, o homem não gostou nadinha do que viu. E resolveu transformar uma discussão sobre entrevista em um verdadeiro confronto com a Globo.
A reportagem do Fantástico mostrou os bastidores da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil rumo aos Estados Unidos, após a derrota na eleição presidencial de 25 de outubro. O programa abordou os acontecimentos que antecederam a viagem e apresentou, ao final, um posicionamento de Frederick Wassef, advogado do senador. Mas Flávio queria mais. Segundo ele, a Globo o convidou para uma entrevista exclusiva, que só seria concedida mediante uma condição: exibição integral, sem cortes e sem assuntos proibidos. A emissora não aceitou seguir nesses termos, conforme o relato do próprio político.
E foi aí que o suco de pera quase desceu atravessado. Flávio publicou uma nota nas redes sociais acusando a Globo de tentar destruir sua reputação e disparou: “Se o maior grupo de comunicação do Brasil está com MEDO, não tem a menor condição moral de me julgar ou tentar destruir minha reputação.” Medo, meus amores? É uma palavra e tanto para definir uma negociação editorial que não terminou como o entrevistado desejava. Uma coisa é pedir espaço para apresentar sua versão. Outra, bastante diferente, é querer estabelecer previamente como uma emissora deve editar e exibir uma entrevista.
Mas Flávio não parou na televisão. Na mesma manifestação, afirmou que deixou o Brasil por causa de uma suposta perseguição judicial. Disse que, apenas sete minutos depois do anúncio do resultado eleitoral, já existia uma decisão com medidas cautelares contra ele. Também mencionou a condenação do pai, Jair Bolsonaro, a mais de 27 anos de prisão e classificou o processo judicial como injusto e parcial. São acusações graves, apresentadas pelo senador em sua defesa, e que não podem ser confundidas com fatos comprovados apenas porque foram publicadas em uma rede social.
O detalhe que mais me chamou a atenção, entretanto, veio no encerramento da nota. Flávio anunciou que pretende conversar com grandes veículos nacionais e internacionais nos próximos dias, prometendo entrevistas sem cortes e sem filtros. Ou seja, depois de acusar a Globo de medo, o senador decidiu transformar sua próxima aparição na imprensa em mais um capítulo da disputa política. A estratégia é evidente: levar o embate com o Fantástico para além da televisão e manter sua versão dos acontecimentos circulando nas redes sociais.
Agora, aqui entre nós, existe uma diferença fundamental entre direito de resposta e exigência de controle editorial. O primeiro tem previsão legal, observados seus requisitos. O segundo não constitui uma obrigação automática para qualquer veículo de comunicação. A Globo apresentou o posicionamento do advogado de Flávio na reportagem, enquanto o senador sustenta que isso não foi suficiente. E é justamente nessa diferença que mora a discussão. Vou terminar meu suco de pera porque, pelo visto, o feriado será de descanso para muita gente, menos para esta jornalista. Flávio quer falar sem cortes. A Globo quer preservar seus critérios editoriais. E o público tem o direito de conhecer os fatos, não apenas a versão mais conveniente de cada lado.