Lúria Rezende
Especial para o Jornal de Brasília
A memória desafia o tempo com lembranças antigas e prova disso é a fotonovela. Sucesso no Brasil entre os anos 1950 e 1970, o formato foi símbolo da imprensa popular feminina. Com milhões de leitores e histórias publicadas em revistas de grande circulação, o produto possuía uma narrativa mista que reunia imagens fotográficas e texto.
Para entender melhor, pois trata-se de uma fase em que muitos não viveram, fotonovelas são quadrinhos que utilizavam fotografias no lugar dos desenhos, de forma a contar – sequencialmente – uma história com temas variados.
O professor de artes plásticas Vagner Baldasso, de 32 anos, se apaixonou pela fotonovela ao fazer um trabalho de conclusão de curso. “Virou um projeto que executo com meus alunos adolescentes todos os anos. Fazemos uma revista e, dessa forma, trabalho com eles a fotografia e as linguagens facial e corporal, além de manter viva uma cultura que nem eles, nem eu vivemos”, conta.
Vagner coleciona um acervo com aproximadamente 200 revistas. “Tenho exemplares das décadas de 1940 a 1970. Comecei minha coleção em 2010 e, hoje, fico buscando (fotonovelas) em sebos e lojas de livros antigos”, comenta.
Temática tupiniquim
Uma das principais características da narrativa é a intriga sentimental, geralmente simbolizada por uma heroína de origem humilde que luta por um amor difícil e complicado. E como quase todo folhetim, tem um final feliz.
“Mais ou menos em 1950, as editoras brasileiras começaram a adaptar as histórias para terem um ar mais tupiniquim, com narrativas na praia, de biquíni. Antes, as novelas vinham quase sempre de fora, com referências estrangeiras”, explica Baldasso.
Uma das publicações mais famosas era Sete Taças de Champanhe, que contava com a atriz Elisângela. Outras brasileiras que ganharam notoriedade com o gênero foram Rose Di Angelis e Marie Luise Indrik.
Da fotografia para as HQs
Hoje em dia, há quem diga que fotonovela é coisa de gente antiga, mas para o artista plástico e quadrinista brasiliense Lucas Gehre, 33 anos, ela está mais para um experimento divertido. Integrante do selo Samba, junto com os parceiros Gabriel Goes e Gabriel Mesquita, ele explica que a fotonovela já fez parte de algumas edições da revista do grupo, Samba.
“Chamamos uma fotógrafa amiga nossa e fizemos uma história chamada Corações Selvagens. Era tipo uma novela mexicana”, lembra.
Segundo Lucas, a fotonovela faz com que as pessoas pensem na utilização de outras formas de comunicação. “Para mim, é um experimento que traz a linguagem da fotografia para os quadrinhos”, destaca o quadrinista.
Raridade hoje em dia, o artigo é encontrado em poucos lugares. “Fotonovela sempre foi coisa de sebo, tanto que não vemos vendendo por aí”, avisa.
Hoje, quase esquecidas, as fotonovelas tiveram seu sucesso motivado pela popularização do cinema nas décadas de 1940 em diante. O sucesso cresceu a partir daí, facilitando o acesso para o público em geral.
Encanto
No Brasil, a primeira revista de fotonovela publicada foi Encanto – A Romântica Revista do Amor, a princípio chamada de foto-desenho. Exemplar número 1 data de 04/11/1949 e apresenta, em capítulos, a história Almas Torturadas, do romance de Albert Morris; e Os Dois Amores de Ana, de Ana Luce.
A primeira fotonovela com atores representando só foi publicada no exemplar nº 22, de 03/04/1950, com o título Invencível Amor, baseada no romance de W. Poliseno.
Embora a revista Grande Hotel circulasse desde 1947 com narrativas em foto-desenho, só em seu exemplar nº 210, de 31/07/1951, saiu a primeira fotonovela, intitulada O Primeiro Amor Não Morre.