Raquel Martins Ribeiro
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O terceiro dia do 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro começa com uma programação intensa, que vai desde mostras paralelas, debates e fórum sobre coprodução internacional até o grande momento da mostra competitiva, que começa a partir das 20h30, no Cine Brasília (106/107 Sul). Dois diretores conhecidos do público brasiliense voltam às telonas esta noite.
Aly Muritba, que já conquistou mais de cem prêmios em festivais de cinema e que concorre também na categoria melhor longa-metragem com Minha Amada Morta amanhã, apresenta hoje seu sétimo curta, Tarântula. Já Gabriel Martins teve duas passagens pelo Festival de Brasília em anos anteriores, primeiro com o filme Contagem (2010) e, mais recentemente, com Ela Volta na Quinta (2014). Neste ano, a aposta do diretor é o curta Rapsódia para o Homem Negro.
Contudo, a noite promete ser do estreante nas telas de Brasília Cristiano Burlan, que encerra o dia com o longa-metragem Fome. “Eu sempre admirei o Festival de Brasília. Possui uma curadoria muito democrática, e percebo uma consciência em tentar contemplar a diversidade que é a produção nacional”, acredita Cristiano.
A narrativa da obra aborda a invisibilidade dos moradores de rua, por quem passamos despercebidos diariamente. Cristiano conta que passou uma experiência semelhante à vivida pelo personagem. “Morei na Europa, cheguei a passar fome e a morar na rua por um tempo”, revela. Apesar disso, o diretor faz questão de ressaltar que o filme não é autobiográfico. “Não tem um elemento pessoal, mas uma busca por entender essa sensação”, garante.
Na vontade de contar a história, Burlan encontrou o ator Jean-Claude Bernardet, parceiro antigo com quem já trabalhou em outros três filmes, Amador (2013), Hamlet (2014) e No Vazio da Noite (2015). “A performance de Bernardet é muito forte. Eu não trabalho com um roteiro escrito. Tenho a ideia de onde quero chegar, e vamos criando no set. Os atores são coautores. Por isso, a parceria com o Jean foi imprescindível”, afirma.
Burlam revela que tem tido pesadelos, tamanha a expectativa para ver a resposta do criterioso, e temido, público do FBCB. “Eu tenho sonhado com isso (risos). Dá um frio na barriga, já que ouvi muitas histórias. Mas estou tranquilo em relação a obra em si. O mais importante é o filme, que foi feito com poucos recursos, em seis dias de set, em São Paulo”, conclui.
Racismo e outras questões
O enredo de Rapsódia para o Homem Negro começou a ser desenhado em meados de 2012, quando o diretor Gabriel Martins começou a ter mais contato com os mitos dos Orixás. “Ao ler um pouco sobre Ogum e Oxóssi, tive vontade de traçar um paralelo com os conflitos atuais, pensando a questão da ancestralidade, da disputa de terras e da história negra no Brasil”, revela.
O filme utiliza alegorias e simbolismos para contextualizar as relações políticas, raciais, de ancestralidade e urbanização no mais recente cenário social brasileiro. “Sem dúvida alguma, a questão da violência policial nas periferias sempre foi algo forte e, ao ver essa repressão no contexto das ocupações, me pareceu importante e urgente falar sobre esse tema”, diz Gabriel.
Com nomes como Sérgio Pererê, Carlos Francisco e Rejane Faria no elenco, o diretor ressalta que os ensaios transformaram-se em conversas informais. “Todos sempre tinham histórias para contar, uma experiência dentro do universo do filme. Considero que, em vez de o elenco ter sido preparado, eles que me prepararam pra dirigir o filme”.
Segundo Gabriel, a repercussão de ser exibido no festival é importante. “Ganhamos prêmio de melhor direção por Contagem e, pela repercussão, conseguimos abrir muitas portas. Vejo o festival como uma janela importante”, completa.