O que começa como um diário de infância, repleto de medos, sonhos e segredos, ganha novas formas nas paredes da Galeria Risofloras. Em sua primeira exposição individual, a artista visual Manu Dib apresenta “No furor da tua víscera”, mostra que reúne pinturas, desenhos e colagens produzidos em diferentes momentos de sua trajetória e que tem como ponto de partida a própria experiência de vida.
Mais do que uma sequência de obras, a exposição funciona como um percurso pelas memórias e pelos afetos da artista. O público encontra autorretratos, personagens fantásticos, criaturas e cenários simbólicos que abordam temas como desejo, luto, sexualidade, violência e solidão.

Segundo Manu, a relação entre arte e intimidade surgiu muito antes de ela pensar em expor seu trabalho. Ainda criança, mantinha diários onde escrevia sobre sentimentos e acontecimentos do cotidiano. Com receio de que alguém lesse aqueles textos, passou a desenhar sobre as páginas, hábito que, anos depois, acabou influenciando sua produção artística.
“Eu sempre fico dividida entre querer me expressar e ser vista, mas também querer guardar coisas só para mim. Por isso muitas obras tem várias camadas e elementos paralelos. É uma forma de esconder pequenas verdades no meio da bagunça”, explica.
A artista acredita que justamente essa sinceridade faz com que suas obras encontrem identificação com o público. Ela cita escritoras como Clarice Lispector e Hilda Hilst como referências por transformarem experiências profundamente pessoais em narrativas capazes de dialogar com diferentes pessoas.
O universo visual da exposição mistura elementos fantásticos, monstruosos e eróticos, símbolos que, segundo Manu, surgem de maneira espontânea ao longo do processo criativo. Ela conta que muitas imagens permanecem em sua imaginação por longos períodos e acabam reaparecendo em diferentes trabalhos.
Uma dessas imagens é a das “Casinhas”, série iniciada após a morte do pai, em 2021. Durante o período de luto, quando não conseguia produzir artisticamente, começou a desenhar pequenas casas de boneca preenchidas por cenas surreais. “Eu fazia aquelas casinhas sem nenhuma intenção de transformá-las em obra. Era quase um jogo, uma maneira de atravessar aquele momento. Elas me ajudaram a elaborar o luto e nunca mais saíram do meu trabalho”, relembra.
Além das experiências pessoais, a artista afirma que seu repertório também é alimentado por filmes, livros, sonhos e histórias compartilhadas por amigos. O erotismo, presente em diversas obras, aparece como uma forma de refletir sobre o corpo humano e as diferentes relações entre amor, desejo e violência.
A exposição também representa um marco na trajetória profissional de Manu Dib. Trabalhando em uma quitinete, onde produz suas obras na sala de casa, ela conta que nunca havia conseguido visualizar tantos trabalhos reunidos ao mesmo tempo. “Foi a primeira vez que consegui olhar para o meu corpo de trabalho inteiro. Ver obras de diferentes fases lado a lado me fez perceber como elas foram crescendo umas a partir das outras e como eu cresci junto delas”, afirma.
Sem estabelecer uma única interpretação para a mostra, Manu diz esperar que cada visitante encontre seu próprio caminho dentro das obras. Para ela, um dos momentos mais interessantes acontece justamente após a visita, quando as pessoas compartilham detalhes que chamaram sua atenção. “Cada pessoa repara em uma coisa diferente. Na abertura, uma amiga veio comentar sobre uma pequena piada envolvendo uma privada em uma das obras. Eu nem lembrava mais daquele detalhe. É muito bonito redescobrir meus trabalhos pelos olhos dos visitantes”.
SERVIÇO
Exposição: No furor da tua víscera
Artista: Manu Dib
Local: Galeria Risofloras – Jovem de Expressão, Ceilândia Norte (DF)
Período: Até 4 de setembro
Visitação: Terça a sábado, das 12h às 17h
Entrada: Gratuita