Vivemos conectados o tempo inteiro, recebendo avisos, opiniões e certezas prontas na palma da mão. O cinema de horror sempre soube traduzir as angústias de cada época, e Zona Zero faz isso com uma ideia simples e perturbadora. E se a ameaça não fosse um monstro isolado, mas uma rede inteira de criaturas compartilhando o mesmo pensamento? O novo trabalho de Yeon Sang-ho, chamado originalmente de Colônia, pega essa inquietação contemporânea e a transforma em matéria de pesadelo.
O sul-coreano já havia provado seu talento para o gênero em Invasão Zumbi, um dos filmes de terror asiático mais celebrados da última década. Desde então, seu cinema parece movido por uma mesma pergunta. O que acontece com as pessoas quando não há para onde correr? Se antes o perigo viajava sobre trilhos, agora ele se instala num prédio isolado do mundo exterior, onde um pequeno grupo precisa encontrar sozinho uma maneira de sobreviver.

A grande novidade está na natureza dos infectados. Eles não tropeçam pelos corredores nem avançam de forma desordenada. Ligados entre si por um fluido repulsivo, enxergam o que os outros enxergam e aprendem a cada investida. Na tela, isso resulta numa espécie de orquestra regida por um maestro invisível, em que dezenas de corpos respondem ao mesmo comando no mesmo instante. É uma imagem nova num gênero que parecia ter esgotado suas possibilidades.
Yeon Sang-ho sabe explorar visualmente essa invenção. A câmera prefere planos que revelam a massa de criaturas em perfeita sincronia, e o silêncio que antecede cada movimento coletivo cria uma tensão quase insuportável. O susto aqui nasce menos do grito repentino e mais da percepção de que o inimigo está sempre um passo à frente, calculando, observando, aprendendo com cada erro dos vivos.

Koo Kyo-hwan dá vida ao cérebro por trás da catástrofe, um bioterrorista que extrai da tecnologia cotidiana o alimento para sua criação. O ator compõe um vilão de frieza assustadora, e sua presença transforma o filme numa alegoria sobre o poder da informação manipulada. Difícil não pensar nas correntes de mensagens falsas e nos discursos inflamados que circulam pelas redes, capazes de unir multidões em torno do ódio com a mesma eficiência dos monstros na tela.
Entre uma fuga e outra, o roteiro empurra os personagens para encruzilhadas éticas. Salvar quem está ao lado ou pensar no bem de toda uma população? Até onde vai o direito de proteger a própria vida à custa dos outros? Essas questões dão densidade a alguns momentos, mas o filme não se demora nelas. Elas surgem principalmente para acender conflitos internos no grupo e acelerar a ação, sem a pretensão de oferecer respostas complexas.
É nesse ponto que Zona Zero revela suas limitações. Os sobreviventes funcionam mais como tipos do que como pessoas, cada um representando uma virtude ou um defeito bem demarcado, o que deixa pouco espaço para surpresas. Jun Ji-hyun, protagonista da história, segura o filme com presença e intensidade, mas o texto a cerca de coincidências convenientes demais. Em vários momentos, a sorte do grupo parece obra de um roteirista generoso, e não fruto da lógica da situação.


Conclusão
Mesmo com esses tropeços, o longa entrega uma experiência marcante para quem gosta de horror com ideias. A inversão proposta por Yeon Sang-ho permanece na cabeça depois da sessão, pois os humanos se dividem, desconfiam e se traem, enquanto as criaturas atuam com união absoluta. Num mundo em que a conexão permanente nem sempre aproxima as pessoas, Zona Zero soa menos como fantasia e mais como um alerta embalado em sangue e suspense.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: Yeon Sang-ho;
Roteiro: Yeon Sang-ho e Choi Gyu-seok;
Elenco: Jun Ji-hyun, Ji Chang-wook, Koo Kyo-hwan, Shin Hyun-been, Kim Shin-rok;
Gênero: Terror, Ação, Ficção Científica, Suspense;
Duração: 122 minutos;
Distribuição: Paris Filmes;
Classificação indicativa: 16 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z