Raquel Martins Ribeiro
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Uma notícia triste abalou o mercado da dublagem no Brasil. Recentemente, morreu o dono da voz do bruxinho Harry Potter. Aos 27 anos, o dublador Caio Cesar Ignácio Cardoso de Melo, que também era policial militar, foi baleado durante um patrulhamento de rotina no Campo do Sargento, no Rio de Janeiro. A escritora J.K. Rowling, criadora do personagem, lamentou o ocorrido. “Meus pensamentos estão com a família”, escreveu ela em seu perfil no Twitter.
A morte prematura de Caio esquentou o debate sobre a valorização da profissão, que já havia sido aceso por outra polêmica: a possível mudança da voz brasileira de Ash Ketchum, principal personagem do desenho Pokémon, há 16 anos dublada por Fábio Lucindo. Os estúdios cogitaram mudar a voz assim que o dublador anunciou sua ida para Portugal. “Logo que decidi me mudar, entrei em contato com os estúdios e ofereci condições técnicas e artísticas satisfatórias para que o trabalho continuasse a ser realizado”, conta.
Ao saberem das intenções, os fãs do anime fizeram uma petição, que já chega a 10 mil assinaturas, para que o estúdio de dublagem mantivesse a voz de Lucindo. “Não esperava mesmo por essa reação dos fãs”, afirma o ator, que garante não haver dificuldade para continuar o trabalho em outro país.
Lucindo, que também dá voz a Kuririn (Dragon Ball) e outros personagens, ressalta que dubladores assinam contratos abusivos. Apesar disso, assegura que o mercado está em franco crescimento, e há espaço para quem realmente quiser fazer parte desse nicho.
Diferente de outros colegas, o Ash brasileiro não se intimida com as celebridades que, mesmo sem o DRT (registro profissional de ator), obrigatório para dublar, se aventuram na carreira. “Eles chamam atenção para o trabalho da dublagem em si. Se vai ficar bom ou não, é outra coisa”, considera.
O mercado em Brasília
Mesmo com uma instituição que forma dubladores desde 1998, a DJ Rádio – Oficina da Voz (Taguatinga) ainda serve apenas como exportador de talentos, que seguem para o eixo Rio–São Paulo em busca de oportunidades. Foi o que sentiu Diego Rastichong, quando chegou à capital. “Eu fazia muitos trabalhos até dois anos atrás, quando me mudei para Brasília. Aqui é bem parado, daí acabei me lançando em outras áreas”, conta o dublador, que atualmente dedica a maior parte do seu tempo a locução, e aos espetáculos de stand-up comedy.
Rastichong começou a dublar aos seis anos de idade, a convite de Nizo Neto, filho de Chico Anysio. De lá para cá, passou 21 anos comemprestando a voz para personagens como Max, da Turma do Pateta; o Ralph, em Os Simpsons; o Roliço, de 101 Dálmatas; e o Patolino, de Baby Looney Tunes. “Hoje eu estou mais presente no mercado de games, que valoriza muito mais o trabalho do dublador”, conta Diego.
Segundo ele, a baixa remuneração dos dubladores é o que leva tantos, como Caio, a buscarem por uma segunda maneira de complementar a renda. “É muito triste. Se em três horas de trabalho eu recebo cerca de R$ 5 mil com os games, num trabalho de dublagem normal eu tiro uns R$ 300. É muito discrepante. Não dá pra viver só disso”.
Saiba mais
O ator Danton Mello já dublou Leonardo DiCaprio em quatro longas, entre eles, Titanic.
Em Carros 2, a cantora Claudia Leitte emprestou a voz para a personagem Carla Veloso.
Luciano Huck foi convidado a dublar o protagonista Flynn Rider, na animação Enrolados.