Raquel Martins Ribeiro
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Olhar cinematográfico sobre as inquietações adolescentes e o não-lugar entre o céu e o inferno marcam a primeira noite da mostra competitiva do 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que começa hoje, com a exibição dos curtas-metragens Command Action e À Parte do Inferno, além do longa-metragem A Família Dionti, a partir das 20h30, no Cine Brasília (106/107 Sul).
A poesia e o realismo fantástico dão o tom que narram as inquietações do primeiro amor em A Família Dionti. Com direção e roteiro de Alan Minas (A Morte Inventada – Alienação Parental), o filme narra a história de um pai e seus dois filhos, Kelton, de 13 anos, e Serino, de 15, que vivem em um sítio no interior de Minas Gerais. “Eu tinha uma imagem na cabeça, de um homem vendo uma cidade do alto. Daí eu escrevi um conto, e desse conto fiz um roteiro em três semanas”, explica Alan.
Na trama, a vida dos três Dionti, que moram nos rincões mineiros, segue uma rotina (quase) normal. A mãe derreteu de amor, evaporou e partiu da vida deles; Serino é seco e chora grãos de areia; e Kelton, se apaixona pela primeira vez por uma garota de circo e, literalmente, se liquefaz de amor. “Apesar das alegorias do realismo fantástico, a gente está falando de tudo o que é mais humano, da transformação por meio do amor”, ressalta o diretor.
Prata da casa
Filmado no polo de cinema da zona da mata do município mineiro de Cataguases, a obra de Alan, que conta com atores consagrados como Gero Camilo e Fernando Bohrer, buscou parte do elenco na própria região. “Os adolescentes foram selecionados a partir de testes que fizemos na própria cidade. Queria que eles trouxessem uma naturalidade no sotaque, nos modos locais”, relata o roteirista, que passou por seis meses de preparação com os novatos no set.
“O caminho foi inverso. Os meninos só tiveram o roteiro no último dia de filmagem. Precisava que primeiro eles criassem uma matiz de sentimentos, pela idade eles provavelmente não teriam”, considera o cineasta.
Passado o momento de surpresa e alegria com a seleção para a mostra competitiva do festival brasiliense, Alan diz que está ansioso para ver qual vai ser a reação do público da capital federal. “Nós admiramos muito o festival, principalmente pela curadoria. Me sinto lisonjeado. Já é um privilégio apenas estar no evento. No fundo a gente não tem muita noção de como as pessoas vão reagir assistindo ao filme, e isso dá um frio na barriga”, conclui.