BRUNO GHETTI
FOLHAPRESS
Quem não conhece a obra de Colleen Hoover terá dificuldades de ter uma noção do seu estilo literário apenas assistindo a “Verity”, longa baseado em seu famoso livro homônimo. Porque não dá para entender muito bem se o filme de Michael Showalter é um soft porn rocambolesco de segunda linha, porque o diretor está tentando aludir ao estilo da escritora, ou se o que vemos na tela é apenas um thriller sem maior interesse de um cineasta que distorceu o material mais elevado em que se inspirou.
Seja como for, o filme é a aguardada adaptação da trama sobre uma romancista bem-sucedida chamada Verity Crawford, vivida por Anne Hathaway, que sofre um acidente e precisa que uma “ghostwriter” termine seu novo livro. O marido da escritora, Jeremy, interpretado por Josh Hartnett, é quem capitaneia a seleção da substituta, e a escolhida acaba sendo a talentosa Lowen, vivida por Dakota Johnson.
Lowen, ao que parece, tem uma escrita mais sofisticada que a de Verity, cuja literatura tem um apelo mais popular devido, sobretudo, à alta carga de erotismo de seus livros, narrados pelo ponto de vista dos vilões. Para mergulhar no universo da escritora que vai substituir e, quem sabe, para absorver melhor seu estilo, Lowen vai passar uns dias na casa dela, convivendo com Jeremy, o filho do casal, e a própria Verity, que se encontra catatônica.
A maior parte do longa se concentra nessa temporada de Lowen na mansão da romancista, onde ela lê o manuscrito de um romance que seria biográfico de Verity. Nas páginas, Lowen descobre fatos imprevistos e assustadores.
No começo do filme, ainda na cidade grande, a personagem de Dakota Johnson nos revela, por narração em off, que gosta de metrópoles porque, ali, se sente invisível. Pouco depois, testemunha a terrível morte de um ciclista no trânsito. Ensanguentada, ela é socorrida justamente por Jeremy, que a ajuda a se limpar. Após observá-la por alguns minutos, ele lhe diz: “Pelo seu rosto, não tenho ideia se você está calma ou se está em choque”.
Jeremy não é o único: o espectador também não tem, e, embora a rigor a dificuldade de ler a feição de Lowen seja algo que faz parte da personagem, essa mulher que quer passar despercebida, Dakota talvez tenha levado essa noção a sério demais. A ponto de tornar um rosto que deveria ser indecifrável em algo unicamente apático ou, na melhor das hipóteses, que só transita entre o melancólico e o assustado.
A atriz não tem tanta culpa assim, já que Showalter não parece dos mais empenhados em extrair algo de quem quer que seja do elenco. Sorte a dele que a personagem de Hathaway também, por definição, precisa ser difícil de desvendar, tarefa que a atriz cumpre muito bem, talvez por não ter ideia de como compor sua Verity deve ter se ocupado demais com a função de produtora do filme.
E como Josh Hartnett nunca foi lá um ator naturalmente conhecido pela elasticidade facial, o trio compõe uma notável coleção de rostos inexpressivos.
Mas isso ajuda o filme a funcionar enquanto uma narrativa que preserva mistérios até a reta final. Há um acúmulo de elementos assustadores que, obviamente, vão eclodir nos momentos de clímax. E existe uma eficiente progressão em termos de elaboração de uma atmosfera de suspense.
Podemos até não gostar das surpresas que o filme nos guarda, mas ao menos elas cumprem o papel de manter a atenção. E, no final, a sucessão de reviravoltas há de agradar ao público que acha que isso é tudo o que um thriller tem a oferecer.
Sim, porque talvez seja mesmo isso a única coisa que, no fim das contas, “Verity” tenha a ofertar, já que em termos de conteúdo, nunca passa do campo da sugestão. Não há uma reflexão verdadeira sobre a natureza humana os personagens são misteriosos não por uma eventual ambiguidade; é puramente que, se não fossem, o filme não teria sentido de existir.
O que “Verity” tem de melhor, a interessante questão da autoconfissão na literatura sobre até que ponto o que lemos em um livro biográfico é uma fabricação ou algo próximo do que de fato aconteceu ao retratado, é infelizmente tratado de modo muito tangencial. Mais uma vez, um conceito é instrumentalizado para gerar efeitos e manter o interesse do espectador.
Enquanto thriller de carga sexual, o filme tem seus momentos mais baixos que, dependendo da disposição do espectador, podem até ser divertidos. Talvez na folha de papel, a descrição de uma personagem atingindo o orgasmo enquanto morde a cabeceira da cama tenha alguma força erótica, mas quando colocada em imagem ao menos por Showalter, o resultado é de semipornografia de gosto discutível.
VERITY
- Avaliacão Bom
- Onde Cinemas
- Classificação 16 anos
- Elenco Anne Hathaway, Dakota Johnson e Josh Hartnett
- Produção Estados Unidos, 2026
- Direção Michael Showalter