Raquel Martins Ribeiro
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Uma mulher forte, à frente do seu tempo, que faz doces e versos açucarados da sua velha Casa da Ponte. Em Cora Coralina – Todas as Vidas, longa-metragem de Renato Barbieri, que une documentário e ficção, a vida de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas é contada por ela mesma, por meio de seus famosos poemas e escritos. “A obra de Cora (Coralina) é autobiográfica. Cada poema narra uma parte de sua história. Foi necessário um intenso período de pesquisa para reunir e juntar os pedaços da história”, conta o diretor.
O filme foi lançado durante o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental – Fica, realizado na Cidade de Goiás, terra natal da poetisa. “É um momento de muita emoção para mim, estamos pagando uma dívida que tínhamos com essa cidade”, conta Paulo Bretas Salles, neto da escritora goiana. Paulo ressalta não ter se surpreendido com a reação positiva das pessoas que assistiram à sessão. “Já imaginava que o povo iria gostar. Ela amava o Goiás, e ver o filme e os versos dela, tocou os moradores”, comenta.
Cora foi tantas em uma só, que foram necessárias quatro atrizes para traduzir a sua multiplicidade. Camila Salles representa sua trisavó na primeira infância, aos cinco anos; a atriz brasiliense Maju Souza, em seus 14 anos; Camila Márdila – premiada em Sundance por Que Horas Ela Volta? –, a representou aos 21; e a veterana Walderez de Barros nos leva ao período em que a poetisa retorna, 45 anos depois, à Cidade de Goiás.
Além das quatro, a obra conta ainda com Teresa Seiblitz, Zezé Mota e Bete Goulart, responsáveis por narrar os acontecimentos. A narrativa se reveza entre cenas ficcionais, depoimentos e trechos de entrevistas da escritora. “É uma polifonia de Cora Coralina. São as várias vozes de Cora, por isso as várias mulheres, de todas as idades”, explica Barbieri.
“Acabei me encantando”
O contato do cineasta Renato Barbieri com os textos de Cora Coralina se deu muito antes do convite para dirigir o documentário. Foi quando Drummond publicou em sua coluna no Jornal do Brasil uma matéria sobre a poetisa, à época, com 91 anos. “Já trabalhava com cinema em um grupo chamado Olhar Eletrônico, que fez matéria especial para a TV com ela. Eu acabei me encantando, comprei seus três livros, e devorei. Eu tive uma aderência total aos pensamentos e à poética dela”, relembra o documentarista.
Saiba mais
Nascida e criada na cidade de Goiás, Cora Coralina – que viveu até os 95 anos – saiu de lá em 1911 para poder viver ao lado do advogado Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas, que era casado.
Criou quatro filhos trabalhando no interior de São Paulo, após a morte do marido. E, quase meio século depois, teve a coragem de voltar para buscar suas memórias e escrever sobre aquele espaço.
“Quando eu li o roteiro, a maneira como a minha personagem vinha descrita era ânima, que significa alma. Eu achei muito subjetivo. Depois, nós chegamos à conclusão que o meu papel é o eu-lírico da Cora Coralina. A parte em que ela enxerga o mundo poeticamente”, conta Teresa Seiblitz.
Segundo a atriz, o fato de não encarnar diretamente a Cora, fez com que ela tivesse mais liberdade e menos responsabilidade de criar uma identificação com a personagem retratada. “Foi interessante estar nesse lugar, descalça andando de camisola pelo mundo. A Cora é muito inspiradora”, considera.
“Além do senso comum”
O longa foi livremente inspirado na biografia Cora Coralina – Raízes de Aninha, escrita por Clóvis Carvalho Britto e Rita Elisa Seda, e que já vai para sua quarta reimpressão. “O livro nos permitiu entender Cora, numa dimensão muito além do senso comum. Isso foi fundamental para começarmos essa jornada”, finaliza Renato Barbieri, que contou também com o acervo documental do Museu Casa de Cora Coralina.
A repórter viajou a convite da organização do Fica