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Cinema com ela
Cinema com ela

Belmonte transforma o maior sequestro bancário do Brasil em retrato bem-humorado

Assalto à Brasileira estreia nesta quinta-feira (05) e leva às telas o dia em que mais de 300 pessoas ficaram presas dentro do Banestado

Tamires Rodrigues

05/11/2026 5h00

Atualizada 04/11/2026 23h11

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Foto: Divulgação/Galeria Distribuidora

Em 10 de dezembro de 1987, uma tarde comum em Londrina virou capítulo único da crônica policial brasileira. Sete homens armados entraram numa agência do Banestado, pediram 30 milhões de cruzados e acabaram administrando uma multidão de mais de três centenas de reféns, número que até hoje nenhum outro assalto no país conseguiu superar. José Eduardo Belmonte pegou esse caso improvável e fez Assalto à Brasileira, um filme que respira tensão e graça na mesma proporção.

Antes mesmo de qualquer tiro ou grito, o que salta aos olhos é a reconstrução de época. Direção de arte e fotografia trabalham com um espaço quase único, o salão da agência, e ainda assim conseguem evocar a década inteira por meio de móveis, cores, figurinos e da luz amarelada dos escritórios daquele tempo. Quando a câmera escapa para a redação da Folha de Londrina ou para a aglomeração ruidosa na calçada, o efeito é o de abrir uma janela para uma cidade parada diante do inesperado.

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Foto: Divulgação/Galeria Distribuidora

A trama acompanha Paulo, jornalista recém demitido que foi ao banco apenas para acertar as contas da demissão e acaba preso no lugar errado e na hora errada. No comando da quadrilha está Moreno. A inflação galopante e o desespero econômico daquele Brasil aparecem como pano de fundo, sem sermão e sem didatismo, porque o interesse do diretor está no que acontece ali dentro, minuto a minuto.

O tom é o que mais pode surpreender o espectador desavisado. Suspense e humor caminham juntos o tempo todo, e boa parte das situações mais disparatadas aconteceu de fato naquela agência. Belmonte preserva os acontecimentos centrais e se permite liberdades pontuais na ordem e na dramaturgia, escolhas que dão fôlego ao ritmo sem trair o espírito do episódio.

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Foto: Divulgação/Galeria Distribuidora

Murilo Benício carrega boa parte do filme nas costas e o faz com uma leveza admirável. Seu Paulo oscila entre o pânico, a esperteza e uma malandragem quase involuntária, e o ator encontra o tom exato para cada uma dessas camadas, seja quando treme diante das armas, seja quando se vê empurrado para o papel de negociador improvisado. Christian Malheiros sustenta bem o contraponto, dando a Moreno uma autoridade que nunca chega a esconder a confusão do próprio plano.

O restante do elenco transforma o confinamento em uma espécie de repartição pública em pane, onde cada refém reage ao caos com seu próprio repertório de manias, reclamações e pequenas vaidades. Os assaltantes, por sua vez, parecem colegas de trabalho que nunca combinaram direito as tarefas, e é nesse desencontro que nascem algumas das melhores cenas.

A música é o elemento menos aproveitado. Canções de Rita Lee e outros sucessos do período surgem aqui e ali, mas raramente ganham peso dramático. Uma trilha mais presente poderia marcar melhor o tempo das piadas e apertar o nó das cenas de risco, lacuna que se nota justamente porque o restante da produção é tão bem cuidado.

Conclusão

Ao apagar das luzes, Assalto à Brasileira funciona também como documento de um país que aprendeu a rir para atravessar a crise. Entre cruzados que perdiam valor a cada semana e uma cidade inteira acompanhando o cerco pela rua e pelo rádio, Belmonte encontra a medida certa entre homenagem e deboche, e entrega um filme que diverte enquanto lembra de onde viemos.

Confira o trailer:

Ficha Técnica
Direção: José Eduardo Belmonte;
Roteiro: L.G. Bayão;
Elenco: Murilo Benício, Christian Malheiros, Robson Nunes, Paulo Miklos, Ariclenes Barroso, Fernanda de Freitas, Augusto Madeira, Fernando Mais;
Gênero: Comédia, Ação, Drama Policial;
Duração: 98 minutos;
Distribuição: Galeria Distribuidora;
Classificação indicativa: 14 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z

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