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Sarriá, 5 de julho

Seleção Brasileira caminhava para conquistar a Copa do Mundo, até encontrar Paulo Rossi pelo caminho

Por Gustavo Mariani 05/07/2022 9h50

Em 1982, a principal cantora “brazuca” – Elias Regina – partia para a eternidade, enquanto Dalton chegava às paradas de sucesso, cantando “Muito Estranho”. Tempos em que o presidente da república, João Figueiredo, gostava mais “do cheiro dos cavalos do que do cheiro do povo”, quando o povo começava a sentir o cheiro da ditadura militar começando a pegar outros ventos. Por ali, o cineasta Roberto Farias já podia fazer filmes – “Pra Frente Brasil” – levando para as telonas a repressão e a tortura praticada por um regime que já durava 18 temporadas.

Foi um tempo, também, em que retirante nordestino – Luís Inácio Lula da Silva – já disputava eleição ao governo do mais desenvolvido Estado do país, São Paulo, e que o capitão Jair Bolsonaro começava a desenvolver ideias direitistas radicais. Mas o que pegou forte mesmo foi a eliminação da Seleção Brasileira às semifinais da Copa do Mundo promovida pela Espanha.

Montado pelo treinador mineiro Telê Santana, o escrete nacional jogava o mais técnico, belo futebol do planeta. A única “desunanimidade”, como brincava a torcida, era o centroavante Serginho Chulapa – o titular Careca contundira-se às vésperas da competição e o convocado às pressas Roberto Dinamite não chegou a tempo de treinar e se entrosar com o grupo. Mesmo sem o melhor centroavante do país, o time de Telê fez uma primeira fase do Mundial irretocável, vencendo União Soviética (2 x 1); Escócia (4 x 1) e Nova Zelândia (4 x 0). Resultados que não deixavam dúvida sobre quem colocaria as mãos na taça do mundo, ainda mais depois que o time canarinho despachou a Argentina (3 x 1), de Diego Maradona.

Faltavam só dois jogos para o Brasil repetir as glórias das Copas de 1958, 1962 e 1970. Nas apostas da rapaziada, todos aguardavam que o adversário nas semifinais fosse a Polônia e que a final seria contra os então alemães ocidentais. Tudo indicava! Até que o calendário marcou 5 de julho de 1982, quando, 44 mil desportistas se espremeram dentro de um pequeno estádio da cidade de Barcelona (já demolido), enquanto do outro lado do Atlântico uma população de 127 milhões de brazucas pintavam ruas, paredes e viadutos, e desfraldavam bandeiras, comemorando, antecipadamente, mais uma vitória do time de Telê Santana.

E “rolou a maricota”. Com cinco minutos de pugna, um tremendo susto para a torcida “brazuqueira”. Sem prestar atenção em um lance sem o menor perigo para o time canarinho, recuada de bola, para os seus zagueiros, pelo craque Toninho Cerezzo, colocou a “redondinha” nos pés de Paolo Rossi, que não o perdoou: Itália 1 x 0. Sem problemas: mesmo com o incidente cerezzeiroe, ninguém acreditava que o Brasil não virasse o placar e fosse o classificado no Grupo 3. Afinal, o time italiano era muito esculhambado, vivia em constantes conflitos e só chegara à segunda fase do Mundial por ter marcado um golzinho a mais do que o “só participante” Camarões – empatara os três compromissos disputados até ali.

Cinco minutos após Paolo Rossi ter assustado os brasileiros, o corintiano Sócrates empatou o prélio: 1 x 1. A “telespectância”, como brincava o comediante Renato Aragão (Os Trapalhões) era tão grande que, pouco depois do empate, a TV Globo (detentora da exclusividade nas transmissões da Copa para o Brasil), fez uma cortesia ao Governo Figueiredo e passou a distribuir imagens para as TVs públicas do Rio de Janeiro e de São Paulo. A alegria pelo empate, no entanto, durou só dez minutos. Novamente, Polo Rossi, colocou a Azzurra na frente do marcador e, com 2 x 1 para eles, terminou o primeiro tempo.

A segunda etapa era muito disputada, duríssima, quando o então considerado melhor atleta daquele Mundial, o catarinense Paulo Roberto Falcão, aos 23 minutos, voltou a igualar a conta: 2 x 2. Imediatamente, a Globo colocou no ar o “hino da ditadura”, a marchinha “Pra Frente Brasil”, que o Governo Médici havia se utilizado durante o tri, em 1970, para promover “um país que vai pra frente” e dizer que “ninguém segura este Brasil”.

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Não seria preciso mais nada para o time de Telê Santana ir às semifinais. O empate bastava, pelo seu saldo de gols em relação ao adversário. Mas Telê só fechou, um pouco, o meio-de-campo, trocando o “nulo” Serginho, por Paulo Isidoro, que sabia marcar e ajudaria Batista, que estavas em péssimas condições físicas, albarroado pelos argentinos. Resultado: aos 29 minutos, Antognoni atacou, pela esquerda, eToninho Cerezzo (não era o dia dele) cedeu escanteio, o único até então dos italianos. Bruno Conti o cobrou, vendo na área canarinha 11 defensores, contra cinco italianos. Mas quem estava no lugar certo? Ele, Paolo Rossi, que mandou o time “brazqueiro” embora, por 3 x 2. Uma tragédia, só não pior do que a de 1950, quando perdemos o caneco em casa.

O time brasileiro do dia 5 de julho de 1982 foi: Valdir Peres; Leandro, Oscar, Luizinho e Junior; Cerezzo e Falcão, Sócrates e Zico; Serginho (Paulo Isidoro) e Éder. Os italianos, comandados pelo técnico Enzo Bearzort, alinharam: Dino Zoff; Gentille, Collovati (Bergomi), Scirea e Cabrini; Oriali, Tardelli (Marini) e Antognoni; Conti, Paolo Rossi e Graziani.








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