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Pôquer muda a vida de Urea, que já deu até casa para a mãe

Pedro Marra

Publicado

em

Fotos: Carlos Monte
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De analfabeto e cuidador de animais no interior do Rio Grande do Norte a campeão de pôquer. Resumidamente, essa é a história de vida de Madson Moura, 28 anos, nascido em Umarizal (RN), interior do estado. A revelação do jogo da mente nos últimos anos vai estar aqui em Brasília para competir na primeira etapa da 15ª temporada da competição nacional do BSOP (Brazilian Series of Poker, organizadora do Brasileirão de Pôquer). O evento será realizado de hoje a terça-feira (4 de fevereiro), em Brasília, no Hotel Royal Tulip Alvorada.

O potiguar vem de ótimos resultados, tanto que foi campeão da sétima e última etapa do Campeonato Brasileiro de Pôquer de 2019, o torneio principal do BSOP Millions, que ocorreu em dezembro, na cidade de São Paulo, faturando nada menos do que R$ 1.244.790.

Mesmo com muito sucesso atualmente, a vida de Madson já foi muito humilde. Ele, apelidado de Urea por um amigo devido às grandes orelhas, deixou de lado os estudos para trabalhar e ajudar no sustento da família cuidando de animais em sítios.

“Com oito anos, eu já cuidava de animais, cavalo e ovelha. Com dez anos, o meu padrinho me levou para fazer o mesmo num sítio de Umarizal, onde eu ganhava R$ 60 na semana. No sítio, eu tinha que acordar 4h para cuidar dos animais, e 11h30 ir para a escola, a 5 quilômetros de lá. Passei três anos morando no sítio em Umarizal. Ajudei a minha mãe, Maricruz, a vender tapioca, pasteis e cocada”.

Em 2008, o umarizalense chegou a Mossoró, onde foi para lá porque a mãe conseguiu um serviço de empregada doméstica.

 

“Quando ela estava indo embora para Umarizal, eles me acolheram para morar com eles. Eu cuidava de animais em Mossoró, porque eram eles que criavam. Conheci a família toda, e o filho deles me apresentou o pôquer. Ele jogava na época e jogava toda segunda-feira. Lá, fiz uma boa amizade com o dono casa, que me mostrava todas as cartas. Ele dizia que era um jogo de habilidade e não de sorte. No meu primeiro cash, apostei R$ 20 que ganhei de um amigo, e levei R$ 600”.

O jogador cita o cash, um estilo de pôquer jogado em qualquer lugar e com qualquer um, onde dinheiro se torna ficha.

Analfabeto até os 22 anos, aprendeu a ler e a escrever praticamente sozinho, para estudar o pôquer e aprimorar seu jogo, já que em 2014, não havia mais cash em Mossoró. No ano seguinte, Madson decidiu começar a estudar a modalidade. O interesse pelo pôquer o fez comprar o livro Harrington No Hold’em (um guia sobre o jogo) no fim de 2015.

“Levei para a minha casa, e a minha mulher que lia para mim. Teve um mês que eu passei 20 dias viajando, e tivemos uma discussão. Então decidi aprender a ler e escrever sozinho para eu estudar o pôquer. Se você não estudar, você não vai vencer”, afirma.

O primeiro torneio profissional que o jogador disputou foi o Circuito Cearense de Pôquer, em Fortaleza, em 2016. “Um ano depois fui para o mesmo torneio, e diziam que eu era doido. Fui muito xingado porque eu era jogador do cash. ‘O doidinho de Mossoró estava com sorte e foi campeão.’ Mas o que me diziam entrava num ouvido e saía no outro. Até em um grupo de pôquer no celular, eu dava bom dia em áudio, e as pessoas ficavam irritadas”, declarou.

Ele foi muito ironizado antes do feito

O potiguar Madson recorda ainda de outras provocações feitas a ele. “Uma vez, dei bom dia escrevendo e ironizaram que o analfabeto aprendeu a escrever. Rachei o prêmio com o primeiro colocado, porque tínhamos as mesmas fichas. Aí disputamos apenas o troféu”, lembra.

Com o prêmio de R$ 1.244.790 conquistado no Brasileiro de Pôquer em São Paulo, em dezembro, Madson conta a quem ele ajudou com o dinheiro.

“Dei um carro ao meu irmão, e ajudei a minha mãe com a reforma na casa dela, em Umarizal.”

Mossoró, cidade em que chegou menino, com 12 anos, e onde fixou residência, o recebeu como herói depois da conquista em São Paulo.

“Participei de uma carreata incrível pela principal avenida da e tive linda recepção num restaurante, com minha família presente.”

O jogador de Umarizal já tem diversos títulos na carreira. Em 2016, Madson foi campeão de uma das etapas do Circuito Cearense de Poker (CCP) e do Circuito RN/PB de Poker; no ano seguinte, ele teve bons resultados no Nordeste Poker Series (NPS), como o 2º lugar no High Roller. Ainda em 2017, o jogador foi campeão no 6Max.

Saiba Mais 

O pôquer já é um dos maiores esportes individuais do Brasil. A temporada de 2019 foi recheada de conquistas importantes e a Temporada 2020 de pôquer promete grandes prêmios e muitas emoções.

A principal competição nacional é o Brazilian Series of Poker (BSOP). Criada há mais de uma década, essa série consiste em sete etapas disputadas por todos os principais pontos turísticos do país e reúne milhares de competidores em cada uma de suas edições.

Segundo a Confederação Brasileira de Texas Hold’em (CBTH), o Brasil já conta com mais de 10 milhões de competidores e o nível do BSOP é equivalente à Série A do Campeonato Brasileiro de Futebol.

Sendo assim, conquistar a primeira colocação geral dessa competição em um país com tantos entusiastas e atletas profissionais de qualidade é uma das maiores conquistas.


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