Há treinadores que vencem porque estudam mais. Outros porque têm grandes jogadores. E há Carlo Ancelotti, um técnico que parece enxergar partidas que ninguém mais está vendo. Ao longo da carreira, suas decisões frequentemente desafiam o senso comum, provocam críticas imediatas e, poucos minutos depois, transformam-se em genialidade. A recente classificação do Brasil foi apenas mais um capítulo de uma história que se repete há décadas.
A reação do presidente Lula depois da vitória sobre o Japão ilustra perfeitamente esse fenômeno. Ele admitiu que também teria tirado Casemiro quando o volante fazia um primeiro tempo ruim. Ancelotti pensou diferente. Manteve o jogador em campo, viu Casemiro marcar o gol de empate e, mais tarde, apostou em Gabriel Martinelli, autor do gol da vitória nos acréscimos.
O curioso é que Lula, naquele momento, não falava apenas por ele. Falava por uma espécie de inconsciente coletivo do futebol brasileiro. Em dias de Seleção, o país vira uma imensa comissão técnica. São mais de 200 milhões de técnicos de ocasião, todos convictos de que sabem exatamente quem deve sair, quem deve entrar e em que minuto a mudança precisa acontecer.
Ancelotti, porém, parece funcionar em outra frequência. Ele não treina para agradar a arquibancada, as redes sociais ou a pressa do palpite. Sua marca é a calma. É a leitura silenciosa de quem entende que uma partida de futebol muda não apenas com substituições, mas também com confiança, paciência e controle emocional.
Histórias na Champions
Foi assim também em noites inesquecíveis no Real Madrid. Na semifinal da Liga dos Campeões de 2022, contra o Manchester City, o time espanhol parecia eliminado. Havia perdido o primeiro jogo por 4 a 3 e, no Santiago Bernabéu, voltou a sofrer um gol na etapa final. A classificação inglesa parecia encaminhada até os minutos finais.
Então apareceu o brasileiro Rodrygo. Aos 45 e aos 46 minutos do segundo tempo, o brasileiro marcou duas vezes, levou o confronto para a prorrogação e abriu caminho para Benzema decretar uma das viradas mais impressionantes da história recente da Champions. Não foi apenas uma reação. Foi mais um daqueles episódios em que o time de Ancelotti parecia se recusar a aceitar o fim do jogo.
Dois anos depois, o roteiro voltou a se repetir. Em maio de 2024, também pela semifinal da Liga dos Campeões, o Real Madrid perdia para o Bayern de Munique até os 43 minutos do segundo tempo. O Bayern estava com a vaga nas mãos. Mas Ancelotti tinha Joselu no banco e uma última carta para jogar.
Joselu entrou para virar herói. Marcou aos 43 e aos 46 minutos, virou o jogo e levou o Real Madrid a mais uma final europeia. Era outro personagem improvável, outro gol no limite do tempo, outra decisão que parecia contrariar a lógica até se transformar em história.
É claro que há método nisso. Ancelotti não é um aventureiro iluminado pelo acaso. Ele conhece profundamente o jogo, sabe administrar grupos, entende o peso psicológico de cada momento e tem uma virtude rara em técnicos pressionados: não se desespera quando todo mundo ao redor já perdeu a calma.
Mas também é verdade que, depois de tantas cenas parecidas, fica difícil não enxergar uma camada de mistério. Por que tantos jogadores improváveis decidem sob seu comando? Por que tantas viradas nascem quando a eliminação parece inevitável? Por que ele insiste onde quase todos mudariam?
Talvez seja experiência. Talvez seja intuição. Talvez seja apenas a grande sabedoria de quem sabe que o futebol não cabe inteiro nas planilhas, nas estatísticas e nos palpites apressados. Ou talvez Ancelotti carregue consigo aquele ingrediente que os grandes vencedores têm e que ninguém consegue explicar direito.
Na dúvida, o futebol escolheu uma palavra mais simples: bruxaria.