Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por André Pinheiro
O sonho que começou quando menina ganhou forma de medalha. Aos 56 anos, a servidora pública, Daniela Francescutti, ganou três medalhas representando o Brasil no Open Panamericano Desportivo Absoluto de Surdos 2026 em Guaiaquil, no Equador.
A competição que aconteceu em agosto desse ano, a atleta disputou três categorias e em todas garantiu medalhas no torneio. Duas de bronze nos 100 metros livres e 4×100 metros livre misto. Além da medalha de prata no 200 metros livre.

Emoção da última conquista
Assim, a competição no Equador para Daniela foi uma forma de representar o Brasil e o Distrito Federal, onde é moradora há mais de 30 anos. Ela nasceu no Rio de Janeiro.
Com isso, a nadadora relatou a importância pessoal dessas medalhas no Open Panamericano Desportivo Absoluto de Surdos.
“É um m sonho de menina, pois em 1982 participei do 2° Suderjogos of Coca-Cola Refresco S/A, quando ganhei medalha de ouro no 50 metro peite, e já na metade da prova deixei a galera do Flamengo, Fluminense, Botafogo e demais bem para trás” disse.

Trajetória no esporte
Daniela já conquistou dois títulos no Campeonato Brasileiro de Surdos e outros cinco vices campeonatos.
“Minha avó paterna Zaíra Martins era atleta de saltos ornamentais. Então água está no sangue. Comecei minhas aulas de natação nos Estados Unidos em 1972 com minha mãe durante o curso de Mestrado e Doutorado do meu pai”, disse
“Quando cheguei em Brasília em 1995, a primeira coisa que procurei era pensionato perto de uma academia de natação. Morei com as freiras no pensionato atrás da Paróquia São Judas Tadeu” relembrou.
Retorno as competições
Em 2007, voltou às piscinas para disputar Brasileiro de Masters de Natação .
“Retomei às competições em 2007, encarando logo 1.500 metros em um Brasileiro de Masters de Natação que foi realizado aqui em Brasília, na ocasião em que fiquei em sexto lugar na faixa 35 mais. Mas para mim foi meu ouro.” disse.
Deste modo, seguiu com os torneios, totalizando mais de vinte anos competindo. Ela disse como foi os primeiros contatos com a Federação Brasiliense Desportiva dos Surdos para representálos.
“Em 2021, a Federação Brasiliense Desportiva dos Surdos entrou em contato comigo perguntando se eu queria ser federada no desporto surdo. Eu falei gente não falo Libras e, na época, estava com 51 anos. A Federação (FBDS) falou o que nos importa é que vc comprove a perda auditiva, a idade não interessa, assim como aceitamos e valorizamos a diversidade surda (surdos oralizados, sinalizantes e bilingues). Essa frase me conquistou na hora”, contou
Ao lado de sua filha, hoje outros esportes apareceram em sua vida. “Esse ano eu e a Natalia, minha filha, estamos no basquete de surdos também. Em novembro, estaremos em Blumenau representando a associação de surdos do Gama (ASGDF) como “atletas emprestadas de uma associação a outra”, diz.

Acessibilidade dentro da natação
Além das conquistas, Daniela também falou das dificuldades encontradas por atletas surdos durante as competições. Um dos principais problemas está no início das provas que já fez ela começar atrás em algumas competições.
“Aos poucos, percebi a necessidade de uma melhor relação com a arbitragem, porque saía sempre depois dos atletas. Hoje em dia, a arbitragem abaixa a mão junto com o apito. Assim, tenho conseguido sair junto com todos”, explica.
Porém, para ela, ainda tem espaço para melhora na acessibilidade. Entre as alternativas, está o uso de equipamentos visuais que possam substituir ou complementar os sinais sonoros.
“O ideal é ter o semáforo de largada, mas sabemos que certas tecnologias ainda são caras. E, no lugar do sino, que não ouvimos, o ideal seria o uso de uma placa vermelha com o desenho de um sino, presa a um mastro, que fosse mergulhada na água quando estivesse faltando a última volta de uma prova longa, como os 400, 800 e 1.500 metros livre.”
Ela relata que alguns atletas ouvintes também têm dificuldade para identificar de qual raia vem o sinal sonoro durante uma prova longa.
“Os ouvintes já me confidenciaram que, muitas vezes, nem eles sabem se o sinal é da raia deles ou da raia ao lado. Será que esse jeitinho para surdos não seria bom para todos os nadadores? Menos para os cegos, é claro.”
Por André Pinheiro
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira