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Crise na CBF e rombo nas finanças motivam clubes por liga independente

Segundo os dirigentes, a principal competição do país é um produto dos clubes, mas administrado exclusivamente pela entidade

Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Carlos Petrocilo
São Paulo, SP

Afetados financeiramente pela pandemia de Covid-19, os clubes tentam se aproveitar da briga pelo poder na CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para conseguir maior representatividade nas decisões sobre o futebol do país e também para garantir novas fontes de receita.

É diante desse contexto que está a ambição de construir uma liga independente com os times das séries A e B para organizar o Campeonato Brasileiro.

Segundo os dirigentes, a principal competição do país é um produto dos clubes, mas administrado exclusivamente pela entidade que está mais preocupada com seus interesses, como a seleção nacional.

Uma inspiração para as agremiações brasileiras seria a Premier League, versão moderna do Campeonato Inglês. Criada em 1992, a liga representou a ruptura dos clubes com a Football League, entidade que reunia os 92 times profissionais da Inglaterra. A união das equipes inglesas, responsáveis pela organização da disputa, resultou na competição nacional mais rica e invejada do planeta.

Não bastasse uma crise financeira estrutural, as consequências da pandemia deixaram a situação dos times do Brasil ainda mais dramática. Levantamento do Itaú/BBA, com base nos balanços contábeis das 25 principais equipes do país, de acordo no ranking da CBF, aponta que o endividamento total atingiu R$ 9,6 bilhões em 2020, um acréscimo de 20% ante 2018.

“Não tem segredo: menos receita, mais gastos e investimentos, o resultado é o aumento de dívidas”, comenta César Grafietti, economista e autor da análise econômica e financeira do banco.

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Na temporada de 2019, a última antes da pandemia, esse montante já havia sido de R$ 8 bilhões ante R$ 6,5 bilhões de 2018. “A pandemia apenas apertou um cenário que já era complicado”, completa Grafietti.

Os clubes faturaram 22% a menos no ano passado em comparação a 2019. Houve encolhimento em quase todas as fontes de recursos. A queda nos ganhos com direitos de televisionamento, a principal receita das equipes, foi de 28%.

Diante da impossibilidade de público nos estádios, os times embolsaram R$ 449 milhões em 2020, provenientes da soma da bilheteria -público até março- com ganhos dos programas de sócio-torcedores. Em 2019, faturaram R$ 878 milhões.

Com o recrudescimento da pandemia e o ritmo lento da vacinação no país, não há projeções animadoras para reverter o cenário no curto prazo. Após comunicar à CBF a intenção de criar a liga nesta terça-feira (15), os dirigentes da Série A do Brasileiro estão focados em formatar uma competição atraente e com estratégias comerciais.

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“O objetivo principal dessa liga é garantir novas receitas para que os clubes aumentem os seus recursos e tenham uma vida financeira mais saudável, com a possibilidade de organizar um calendário favorável aos interesses das instituições”, diz Alessandro Barcellos, presidente do Internacional.

Na carta de intenção da liga, os clubes assumem a responsabilidade para “organizar e desenvolver economicamente o Campeonato Brasileiro”.

O texto é assinado por 19 dirigentes da Série A, o único clube que não assinou o documento foi o Sport. O seu presidente, Milton Bivar, renunciou ao cargo, e uma nova eleição será convocada na agremiação.

“O nosso objetivo é dar um salto de melhoria no campeonato e implantar soluções para sanar esta alavancagem de dívidas”, diz Guilherme Bellintani, presidente do Bahia. “O futebol brasileiro vem avançado, mas numa velocidade menor do que precisa. O Brasil é o único país entre os principais do centro do futebol que não tem uma liga.”

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Além do interesse de administrar a competição, os cartolas também querem autonomia para montagem do calendário. Na visão dos dirigentes, a CBF pouco faz pelos clubes no atual momento de penúria.

Desfalcado no Brasileiro com seis jogadores convocados para a Copa América, o Flamengo apelou ao STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) para pedir a paralisação do Nacional até a conclusão do torneio de seleções. Rodrigo Dunshee, vice-presidente-geral do Flamengo, diz que fez o pedido à CBF, mas não obteve sucesso.

“Não pode o Flamengo, que investiu muito dinheiro e está sofrendo na pandemia, entrar nas competições sem seus melhores jogadores. São nove rodadas sem seus melhores atletas”, diz Dunshee.

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O Flamengo cedeu Gabriel e Everton Ribeiro para seleção de Tite, Arrascaeta ao Uruguai, Isla ao Chile e Piris da Motta ao Paraguai.

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O caminho para todas essas mudanças, no entanto, não é tão simples. A CBF precisaria mudar o seu estatuto, que hoje prevê a criação de uma nova liga desde que aprovada em assembleia geral administrativa na qual participam somente as 27 federações filiadas, mas não os clubes, parte interessada na organização do Campeonato Brasileiro.

A CBF diz, em nota, que irá analisar os pedidos.

As informações são da FolhaPress






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