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No fundo, foi o mesmo Jair Bolsonaro de sempre. Mas embalado para presente. Retirada a camisa pirata do Palmeiras e o chinelo de dedo, trocados por um terno de corte mais bem feito e uma gravata colorida, o discurso do presidente ontem na Cúpula do Clima revela exatamente o mesmo tipo de posicionamento de sempre. Um tipo de posicionamento que ignora que a preservação ambiental do planeta a esta altura é um esforço conjunto. E todo esforço conjunto, para dar certo, precisa seguir as mesmas premissas e ir na mesma direção.

Bolsonaro começa seu discurso apresentando dados percentuais da responsabilidade brasileira na emissão de gases poluentes. Pequena, de fato, comparada com a responsabilidade das grandes potências do Primeiro Mundo. E aí cobra desses países um ressarcimento financeiro, uma “justa remuneração” pelos serviços ambientais prestados até aqui pelo Brasil.

Bem, em 2019, quando Bolsonaro imaginava que teria sucesso no papel de ajudante do xerife no faroeste que era então protagonizado por Donald Trump, o Brasil perdeu em apenas dois dias R$ 287,6 milhões de recursos internacionais de ajuda ambiental que então vinham da Alemanha e da Noruega para o Fundo de Preservação da Amazônia.

Na ocasião, o país recebia os alertas vindos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de aumento do desmatamento na Amazônia. Em vez de levar em conta os alertas, a decisão na ocasião do governo foi demitir o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, por estar fazendo o seu trabalho e chamando a atenção para a necessidade de intervenção para evitar um problema maior.

Como Bolsonaro insistia em minimizar o problema, perdeu os recursos primeiro da Alemanha e depois da Noruega. Quando o governo alemão cortou a sua ajuda, de R$ 155 milhões, Bolsonaro respondeu dizendo na ocasião que o Brasil não precisava do dinheiro. “Pode fazer bom uso da grana. O Brasil não precisa disso”, respondeu Bolsonaro à época, acrescentando que a intenção da Alemanha então, era ir comprando o Brasil à prestação.

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Voltando a 2021 e à Cúpula do Clima, trocaram o xerife do filme de faroeste. E ele mandou embora da delegacia o antigo ajudante. O bandido que baixou na cidade, o mortal Coronavírus Kid, dizimou boa parte das pessoas. E nem o xerife nem seu ajudante se prepararam minimamente para ele. Pelo contrário, minimizaram o seu potencial de letalidade. Estados Unidos e Brasil viraram os dois maiores palcos da tragédia. Os americanos mudaram o roteiro do seu filme e defenestraram o antigo xerife.

Agora, Bolsonaro corre em busca do caraminguá milionário que antes desprezou. Mas há ainda um problema na sua postura e no seu discurso. E ele provavelmente não passará despercebido das demais nações. O que o mundo deseja hoje de cada um dos seus países não é o reconhecimento quanto ao que foi feito no passado. É a certeza quanto ao que será feito no futuro.

Os atuais representantes do governo brasileiro estão inseridos na linha predominante no planeta de que a Terra está próxima do seu esgotamento? Reconhecem os riscos do aquecimento global e que é preciso contê-lo? Que precisam mais e mais passar a agir de forma sustentável e menos agressiva para evitar a aceleração desse esgotamento?

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Entendem que a pandemia da covid-19 nada mais é que um veemente recado da natureza de que ou paramos com esses abusos ou pereceremos? Estão dispostos a se pautar pela ciência ou continuarão seguindo os tios e tias do Zap?

Na véspera da cúpula do clima, Bolsonaro reuniu amigos e colaboradores em torno de um costelão assado para desagravar o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, figura contestada mundialmente desde que deixou escapar naquela famosa reunião que acabou de completar um ano que sua intenção era passar “uma boiada” de flexibilizações ambientais. Ministro que também pouco antes do início da cúpula virou alvo de uma notícia crime sob a acusação de impedir investigações na Amazônia para ajudar madeireiros. Em volta do costelão, ninguém de máscara, nenhum cuidado com o distanciamento.

De nada adianta o terno bem cortado, a gravata colorida e os modos mais comedidos se toda hora todo mundo é lembrado que a camiseta pirata do Palmeiras e o chinelão seguem bem guardados no armário do presidente, prontos para o uso.

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Coluna Informação #073 – O de sempre, embalado para presente
JBr News
JBr News #153 – Bolsonaro de pires na mão
JBr Saúde

Muitos corações hoje estão partidos. E não é por amor. A atual situação provocada pela pandemia da covid-19 vem fazendo surgir com mais frequência um tipo de cardiopatia que os especialistas chamam de Síndrome do Coração Partido.

Trata-se de uma situação provocada por fortes situações de estresse. A pessoa sente dores no peito. Mal estar. Sudorese. Características semelhantes às de um infarto. Mas o incidente não atinge as coronárias, como ocorre no caso do infarto. Atinge microartérias do coração, o que não permite a possibilidade de uma intervenção cirúrgica. Muitas vezes, o coração se recupera. Mas em outras situações, há um comprometimento das pontas do músculo, uma espécie de abaulamento.

O fenômeno não é novo, nem foi descoberto agora quando o planeta convive com as novas situações que decorrem em paralelo da pandemia da covid-19. Mas é uma das situações que vêm provocando preocupações entre os especialistas. “Diante da pandemia a gente tem ouvido às vezes questionamentos do tipo: ‘mas só se morre de covid hoje em dia’. Não, não se morre só de covid. Há diversos outros fatores de saúde que decorrem da situação em que hoje vivemos. E que não podem ser negligenciados”, alerta a cardiologista e diretora técnica do Hospital Águas Claras, Núbia Welerson Vieira. Ela é a entrevistada da edição desta quinta-feira do JBrSaúde, programa feito em parceria entre o Jornal de Brasília e o grupo Imagem&Credibilidade, com apresentação de Estevão Damázio.

O aumento da observação dos casos de Síndrome do Coração Partido é apenas uma das situações que hoje chamam a atenção dos especialistas. A covid-19 trouxe como consequência a necessidade de uma série de novas rotinas e cuidados que a população viu-se obrigada a tomar para evitar a contaminação pelo novo coronavírus.

As pessoas isolaram-se em casa. Em casa, reduziram suas atividades físicas. Não mais passeiam. Não mais viajam. Não frequentam mais as academias. Têm medo da contaminação. Sofrem com as situações de parentes e amigos atingidos pela doença. Sofrem com maiores problemas financeiros decorrentes da crise econômica. Isolados, negligenciaram exames preventivos e visitas aos seus médicos.

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“Há todo um caldeirão que hoje propicia um risco maior de cardiopatias”, alerta Núbia. “É preciso estar alerta a isso”.
“Muita gente deixou de fazer seus exames preventivos. Isso inclui o grupo dos pacientes que são cardiopatas. Para muitos que estavam à espera de um procedimento, se definiu que poderiam esperar, que não era o melhor momento, acreditando que a pandemia tivesse uma duração mais curta”, enumera a cardiologista. “Ficamos nesse meio de caminho. Não fizemos os exames preventivos, adiamos situações de quem já estava numa situação mais borderline. Um ano sem olhar para si, sem se cuidar”.

O isolamento aumentou também a ociosidade. “Muita gente disse: ‘Já que não vou à academia, não vou a lugar nenhum’”. Depois que se para, alerta Núbia, torna-se mais difícil sair da inércia e retomar a atividade.

E a situação aumentou a angústia e o estresse. A mistura das rotinas domésticas com as profissionais também virou fator de ansiedade. Ansiedade que também atinge as crianças e os mais jovens, privados do convívio com os amigos, com novos desafios a partir da educação on-line. Os casos de hipertensão arterial aumentaram.

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Um uso maior dos serviços de delivery, da opção por comida fast-food é outro fator de risco. Muitos, se alimentando de forma pior e mais ociosos, ganharam peso. Há ainda os que tentam afogar a angústia e a tensão dos dias de pandemia no álcool.

“Os cuidados necessários com a covid-19 não impedem que se tomem os demais cuidados”, resume Núbia. Como conciliar tais cuidados com a necessidade de prevenção da pandemia. Esse é o tema do JBrSaúde. O programa vai ao ar todas as quintas-feiras no site do Jornal de Brasília.

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JBr Saúde #007 – Isolamento e estresse aumentam os riscos de cardiopatias
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JBr News #152 – O Brasil na berlinda do clima
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JBr News #151 – Por que o Brasil errou no combate à covid?