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Saúde

Diabetes: insulina rápida, sensor, bomba… entenda evolução no tratamento da doença

“A diabetes é uma doença autoimune, mas hoje é controlável”, afirma a endocrinologista Roberta Falleiros

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Evellyn Luchetta
Jornal de Brasília/Agência UniCeub

Picadas nos dedos, no corpo e variações na glicose (índice de açúcar no sangue). Esses são os maiores incômodos que diabéticos tipo 1 enfrentam no seu dia a dia. A doença, hoje mais controlável graças à evolução dos tratamentos, acontece quando anticorpos atacam as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção da insulina, fazendo com que o órgão não produza mais a substância. “Crianças filhos de pais diabéticos podem ter até 10% de chance de ter diabetes tipo 1, a doença acontece independente da exposição ao açúcar, o elemento causador é o fator genético”, pontua a médica endocrinologista Roberta Falleiros, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes no Distrito Federal.

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Diabetes, 12 milhões de pessoas convivem com diabetes no Brasil. Mesmo com o número elevado, os avanços em tratamentos e tecnologias de tratamento deixaram o convívio com a doença menos nocivo. As novidades proporcionaram mais autonomia para que a pessoa lide com a doença. “Existem mitos de que crianças que têm diabetes vão morrer cegas, com problema renal. A diabetes é uma doença autoimune, mas hoje é controlável”, afirma a endocrinologista Roberta Falleiros.

A pesquisa caminhou muito desde o papiro Ebers, descoberto no Egito em 1872 por Gerg Ebers, que citava o diabetes e as consequências. O ano de 1922 foi marcado pela primeira insulina injetada em um humano. Leonard Thompson tinha 13 anos quando recebeu a primeira dose. Hoje os avanços no tratamento dos principais tipos de diabetes correm mais rapidamente.

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Nova insulina 

Muitos tipos de insulina circulam no mercado com o avanço da ciência. A primeira criada era uma insulina regular, que começava a agir com 30 a 60 minutos e dura de seis a oito horas no organismo. As criadas posteriormente são insulinas chamadas basais, que permanecem no sistema por 24 horas. Porém, os primeiros hormônios desse tipo tinham uma instabilidade muito grande de tempo de ação e duração no organismo. “A insulina mais estável é a degludeca. Ela dura quarenta horas no organismo, dá uma maior flexibilidade nas aplicações e tem menor risco de hipoglicemia, por ter uma maior estabilidade”, destaca Roberta Falleiros.

Os avanços também caminham nas insulinas rápidas (Humalog, Apidra e NovoRapid) ou ultra rápidas. Essas, começam a agir no corpo 15 minutos depois da aplicação e devem ser usadas antes das refeições. Segundo a médica, crianças são mais instáveis e podem ter problemas. “O adulto tem um controle maior de tempo e disciplina nas refeições e quantidade de comida. A criança, muitas vezes, não tem um controle tão grande da quantidade que vai comer. Os pais pensam que ela vai comer um prato cheio porque está chorando de fome e ela come menos do esperado, se você já aplicou a insulina a 15 minutos, ela vai ter hipoglicemia”. Por conta disso, insulinas ultra rápidas foram criadas.

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Em agosto, chegou ao Brasil uma insulina variada da NovoRapid que já circulava na Europa desde 2014. A Fiasp tem duas proteínas a mais, isso faz com que ela seja mais rápida ainda, começa a agir a partir de 2 minutos no organismo. “Você pode aplicar antes de comer ou depois de comer. Esse tempo de ação dá mais segurança da quantidade de comida ingerida, pois ela começa a agir com 2 a 5 minutos”, explica Falleiros. Porém, essas insulinas ainda necessitam de picadas para chegar ao organismo, o que pode ser incômodo para muitos pacientes.

Uma insulina inalável 

As picadas já passaram por muitos avanços, seringas se tornaram canetas com agulhas finas que provocam pouca dor. Entretanto, para quem não se adapta a muitas picadas diárias, a ciência chegou a uma insulina inalável.

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“É uma insulina de ação rápida, ela é usada nos períodos das refeições e no período de correção das glicemias altas, dura de 2 a 4 horas no corpo. O paciente vai contar o carboidrato, medir a glicemia e vai calcular o quanto de insulina que ele vai inalar”, diz Roberta Falleiros. Ela destaca que, apesar de diminuir 80% das picadas, as insulinas de longa duração continuam sendo aplicadas com canetas ou seringas.

Foto: Reprodução/Divulgação

Batizada de Afrezza, ela já é distribuída nos Estados Unidos desde 2014. Aqui no Brasil, foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2019 e já pode ser encontrada em farmácias, possui 3 tipos de cartuchos com doses diferentes, estes são ligados a um inalador, muito semelhante aos de asma. Falleiros afirma que nem todos podem aderir à insulina. “Ela só é liberada para pessoas acima de 18 anos e sem doenças pulmonares crônicas, a medicação inalável entra pelos brônquios e vai pro pulmão, então se a pessoa já tiver alguma alteração pulmonar ela não vai conseguir absorver essa insulina”.

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Em tratamentos sem insulina inalável, as doses de insulina rápida são aplicadas em seringas ou canetas a cada refeição, que por recomendação médica, devem ser feitas de 3 em 3 horas. Além da aplicação diária da insulina basal, que tem longa duração, no fim, até 8 picadas podem ser feitas ao dia.

Dispositivos diminuem picadas

O dispositivo I-Port fica ligado ao corpo e permite que o paciente efetue a injeção sem encostar na pele. Acontece que um cateter liga o dispositivo à pele, basta o paciente injetar a insulina nele. O dispositivo tem duração de 75 picadas, é resistente a banhos e suor. “Esse paciente vai ficar dias com esse aparelho sem ter a necessidade de receber agulhadas, é muito bom pra qualidade de vida dos pacientes, para quem tem fobia de agulha, pra quem quer melhorar qualidade de vida porque sente dor nas agulhadas, ele é muito importante”, afirma a endocrinologista.

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Foto: Reprodução/Divulgação

Além da insulina, são necessárias as chamadas pontas de dedo, furinhos feitos pelo menos 5 vezes ao dia para o controle do açúcar no sangue através de um glicosímetro (medidor digital). O controle dos níveis de açúcar no sangue é importante para monitorar a hipoglicemia (quando os níveis estão abaixo de 70md/dL) e a hiperglicemia (quando estão acima de 200 md/dL). Para esse incômodo, o Libre, sensor que fica ligado à parte superior do braço, tenta diminuir os furos. Ele mede continuamente a glicose e armazena esses dados, basta o paciente passar o celular, ou um leitor próprio em cima do Libre para ter acesso às informações da glicose.

Foto: Reprodução/Divulgação

Segundo o artigo publicado em 2019 pela endocrinologista e diretora da Sociedade Portuguesa de Diabetes Joana Queiroz, o sensor indica as glicoses das últimas 8 horas, a glicose no momento e a tendência de subir ou baixar. Dura 15 dias até precisar ser trocado. “Eu consigo monitorar a glicemia sem precisar ficar furando, isso ajuda bastante, principalmente quando a glicemia está descontrolada e eu precisaria fazer muitos furos durante o dia”, assegura a estudante de nutrição Luanna Ortiz, que faz uso do Libre.

Além da diabetes tipo 1, um outro tipo de diabetes também está entre os mais comuns na população, a diabetes tipo 2. Diferente da tipo 1, onde o corpo não produz mais insulina, o que ocorre nesse caso é uma resistência à insulina, ligada a altos níveis de açúcar no sangue. “É uma doença que normalmente se inicia aos 40, 50 anos. O tratamento prioritário é com antibióticos, fármacos injetáveis ou orais”, pontua o endocrinologista Márcio Dytz,  professor de medicina do UniCEUB.

Devido às diferenças entre os tipos, o tratamento também é diferente e consequentemente, os estudos e avanços. “Em 1960 duas classes de antidiabéticos foram descobertas, que é a metformina e sulfonilureias e a partir dos anos 2000 surgiram muitos fármacos, que são fármacos de alta segurança e que melhoraram muito o controle desses pacientes”, conclui Dytz.

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Evolução dos remédios 

Hoje em dia, existem 8 grupos de fármacos para pessoas com diabetes tipo 2. O tratamento, na maioria das vezes, é medicamentoso ou oral e quase sempre dispensa o uso da insulina. “O que acontece hoje na diabetes tipo dois é uma associação de medicações para melhorar o tratamento, a monoterapia não é mais tão usada” observa Falleiros.

Beatriz Libonati, jornalista e portadora da diabetes tipo 2, conta que os comprimidos trazem praticidade. “É mais prático tomar comprimido, principalmente no tipo 2, a gente tem acesso a vários medicamentos novos, o que eu tomo por exemplo, não só controla a glicemia como previne complicações cardiovasculares.

Nas novas classes de fármacos, se destacam os inibidores de DPP4, remédios que  fazem com que a glicose seja removida ao urinar, ajudando na perda de peso e na pressão arterial. “São medicações que vão aumentar a excreção urinária de glicose mesmo no consumo normal de glicose, eles mexem na bomba que regula a excreção de glicose na urina, excretando em maior quantidade”, afirma Falleiros.

Apesar dos diversos avanços nos tratamentos e dispositivos para diabéticos, nem todos são tão aplicáveis quanto outros, fatores como custo, acessibilidade e informação dificultam o acesso dos diabéticos aos tratamentos, porém, alguns deles são difundidos entre boa parte dos pacientes, o aparelho mais comum é a bomba de insulina.

Bombas de insulina

Criada em 1963 pelo médico Arnold Kadish, o apelidado pâncreas artificial passou por muitos estudos e reformulações para chegar no que conhecemos hoje. O aparelho é uma bomba de insulina que fica ligada ao corpo do paciente através de uma cânula, o dispositivo entrega pequenas doses de insulina durante 24h, simulando exatamente o que um pâncreas em funcionamento faz.

Além de livrar os pacientes da caneta, a bomba de insulina também mantém a glicemia mais estável devido às pequenas doses aplicadas, enquanto a caneta entrega a dose inteira em uma picada. “A bomba foi a maior mudança no meu tratamento, me ajuda muito, o modelo da minha bomba também tem um medidor, ele me avisa quando eu to com hiper ou hipo, isso é muito bom porque nem sempre a gente sente”, conta Júlia Fonseca, estudante e portadora de diabetes tipo 1.

Júlia tem 18 anos e convive com a diabetes tipo 1 desde os 11, quando descobriu que tinha a doença em uma ida ao médico para fazer exames devido a sintomas incomuns que vinha sentindo. “Eu tinha muita sede, era incontrolável, acordava de madrugada umas dez vezes para beber água. Ai minha mãe resolveu me levar no médico e veio o diagnóstico. Quando cheguei ao hospital eles fizeram diversos procedimentos, inclusive medir a minha glicose, quando mediram, estava entre 430”. O valor normal da glicose gira em torno de 80 md/dL à 100 md/dL.

Após a chegada ao hospital, Júlia foi internada para dar os primeiros passos no tratamento, o controle da glicemia e a chamada educação em diabetes. “A educação em diabetes traz um apanhado de informações sobre a doença, é feita pela equipe que acompanha o paciente, endocrinologista, nutricionista, educador físico e enfermeira. O paciente vai aprender sobre alimentação, exercício físico e como lidar com a doença”, afirma Falleiros.

A alta foi dada 12 dias depois da internação. O tratamento adotado e cumprido por ela em casa foi a caneta de insulina, com doses de insulina ultrarrápida aplicadas antes das refeições e uma dose de insulina basal, que tem uma duração maior. Apesar da agulha fina, as aplicações incomodavam. “Eu era criança e não entendia direito. Odiava as picadas. Quando minha glicose estava alta eu chorava, não queria comer, porque não queria tomar as picadas”.

Após 4 anos, o tratamento mudou. A endocrinologista responsável emitiu um laudo médico afirmando a necessidade de Júlia usar a bomba, depois, um processo judicial contra o Estado, informando a necessidade do novo tratamento, foi feito. A bomba de insulina se tornou uma realidade. “Mudou completamente, é como se fosse meu pâncreas mesmo, hoje em dia eu tenho mais liberdade, não preciso pensar tanto na aplicação, a bomba faz isso por mim”.

Pâncreas artificial

Além de Júlia, o aparelho transforma a vida de muitos outros diabéticos, o caso também se repetiu com Leonardo Ortiz, que tem apenas 10 anos.

Tudo aconteceu em agosto de 2012, quando Leonardo tinha só 3 anos e sua mãe, Eliziane Ortiz, começou a sentir mudanças no comportamento do filho. “Ele começou a beber muita água e fazer muito xixi.

Eu procurei no Google e deu que eram sintomas de diabetes. Fiquei nervosa e pensei ‘nossa meu filho tem 3 anos, não existe diabetes para criança’”. Com o espanto, ela levou o filho até a pediatra e o diagnóstico veio logo após. “Quando você descobre abre um buraco sobre seus pés, a gente acha que nunca vai acontecer com a gente”.

A preocupação era o tratamento e o número de picadas. A vida na agulha era uma montanha russa, muitas oscilações de glicose, muitas hipo e hiperglicemias. Devido a esse quadro, Eliziane também moveu um processo contra o Estado onde mora, para conseguir a bomba. Emocionada, Eliz faz grandes elogios ao aparelho. “A bomba mudou nossa vida, Ele já está com ela há 4 anos. Melhora completamente a vida, foi o maior avanço no nosso tratamento”, hoje Leo enfrenta a diabetes com mais liberdade.

Eliz conta que apesar da “montanha russa” vivida pelo filho no tratamento antigo, felizmente ele não enfrentou complicações na sua trajetória com a diabetes. Porém, as complicações e infecções fazem parte da rotina de muitos pacientes, nesses casos, a bomba é ainda mais urgente. Foi o que aconteceu com a estudante de nutrição Thayná Guimarães.

7 infecções em um ano 

Há 4 anos e meio, Thayná, hoje com 24 anos, procurava médicos para tentar entender os sintomas que vinha tendo. Cansaço excessivo e perda de peso foram os maiores. De 66 kilos, ela passou a pesar 56. “Naquela época eu estava prestando vestibular. De início os médicos acharam que era psicológico por conta do que eu estava vivendo. Só tive a comprovação porque fiz exames de rotina e eles acusaram, a partir daí eu comecei a tratar”.

O tratamento inicial foi na caneta, mas Thayná tinha muitas oscilações de glicose, o que gerou, em um ano, 7 pielonefrites, uma infecção no rim. Por isso, ela entrou com um processo contra seu plano de saúde e conseguiu a bomba.

Os maiores incômodos com o tratamento antigo eram as picadas da caneta de insulina durante o dia e no dedo para medir a glicose. Para utilizar o glicosímetro é necessária uma gota de sangue. A má adaptação à caneta de insulina gerava alterações constantes na glicose. Thayná chegava a fazer 10 furos em um dia.  “Com a bomba a minha vida mudou Foi algo extraordinário. Minha mãe diz que nem parece que sou diabética. Eu fazia pontas de dedo demais, fora as aplicações de insulina a cada refeição. Hoje isso tudo mudou, eu tenho uma qualidade de vida muito maior”. Ela comenta que, após iniciar o uso da bomba de insulina, não voltou a ter infecções.

Os estudos com bombas de insulina continuam avançando. A tendência é um aparelho cada vez menor e sem fios. É o que a bomba Solo propõe. Falleiros explica que um dos avanços é diminuir o incômodo, “o diferencial dela é que não tem mais cateter, eles eram sim um empecilho para alguns pacientes que não queriam ficar com algo pendurado, é como se você ficasse todo dia com um fio 24h pendurado em você”.

A nova bomba é descartável e em formato de Patch (adesivos), deve ser trocada de 4 em 4 meses. Dentro dela existe um compartimento onde vai a insulina, comporta até 200 doses e deve ser trocado a cada 2 ou 3 dias. Ela comporta aplicações de insulina basal e insulinas rápidas, o controle é feito por botões dos lados ou externo, com um controle remoto. Porém, Falleiros explica que a automatização deve melhorar no futuro. “Existe um aplicativo que está em via de liberação e se chama MySugar, ele vai se comunicar com a bomba e fazer toda a liberação de insulina. Vai contar carboidrato, medir a glicemia e calcular a quantidade a ser aplicada. Depois do ok, por comunicação de bluetooth ele libera insulina programada na bomba, dispensando as formas de controle atuais.




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