Negra, maldita e poética. Assim nascia a música de Itamar Assumpção, um dos principais compositores da vanguarda paulistana no final da década de 70.
Morto aos 53 anos em junho do ano passado, vítima de um câncer no intestino, Assumpção ressurge no genuíno disco póstumo Isso Vai Dar Repercussão, em parceria com o percussionista pernambucano Nana Vasconcelos, considerado o melhor do País.
O álbum, concebido há três anos, já deu muita repercussão. Primeiro, o compositor maranhense Zeca Baleiro apareceu com a idéia de unir os dois músicos em um show em São Paulo. Mas, depois, Itamar preferiu que o encontro fosse gravado. O projeto ficara inacabado e, enfim, cancelado após desavenças entre os dois artistas e os idealizadores Baleiro e o músico Paulo Lepetit, produtor do disco lançado pelo selo independente Elo Music. Itamar encrencou e preferiu transformar o material gravado em um álbum assinado só por ele, mas irritou os envolvidos. A missão foi abortada.
No entanto, quase um ano depois da morte de Assumpção, o último projeto em que trabalhou o compositor paulista é daqueles tesouros da MPB que alguma hora haveria de ser descoberto. E assim o fora. Assumpção e Vasconcelos – Isso Vai dar Repercussão inaugura o projeto CD 7, de álbuns com apenas sete músicas e preços mais acessíveis da Elo Music.
A “maldição” lançada sobre a música de Assumpção pela mídia dos anos 70, quando a ditadura militar calava a liberdade de expressão, persegue o compositor até hoje. Isso Vai Dar Repercussão foi concebido maldito. Mas as composições, na voz miúda de Itamar, com os multiinstrumentos de Nana soam como hinos celestiais de um samba peculiar, repletos de trocadilhos, ironia, e que brincam com a métrica das músicas: seja na marcha de abertura Leonor, no xote Cabelo Duro, no rock “mutante” Na Próxima Encarnação, ou no samba a Tom Zé, Justo Você, Berenice.
Embora Itamar guardasse um repertório inédito de 30 músicas para gravar com Nana, apenas oito foram registradas em dupla. A oitava, Ciúme Doentio, não entrou no disco, mas foi apresentada por Zélia Duncan, ao lado de Nana Vasconcelos, no show de lançamento do álbum na semana passada, no Sesc Pompéia (São Paulo).