Considerado um dos mestres das tramas de suspense e espionagem, Ken Follett escolheu para seu mais novo livro, O Vôo da Vespa, o período das lendárias batalhas aéreas entre britânicos e alemães na Segunda Guerra Mundial – um terreno fértil em intrigas, estratégias e aventuras arriscadas, como a que dá título ao livro. No caso, é preciso levar fotos ultra-secretas de uma instalação nazista da Dinamarca para a Inglaterra num verdadeiro teco-teco, o Hornet Moth; caso contrário, a guerra pode estar perdida para os aliados.
Follett mistura ficção e realidade, como já fez em outros livros, e a trama acaba sendo uma homenagem ao movimento de resistência que operou na Dinamarca ocupada pelos alemães e que acabou sendo um eficiente canal de espionagem e de fuga de judeus da Europa ocupada para a Inglaterra, além de realizar diversas sabotagens contra os nazistas. Autores britânicos costumam priorizar o suspense em vez da violência neste tipo de história e é o que Follett faz, transformando o tal “vôo da vespa” no clímax de uma aventura cheia de reviravoltas.
Além da trama principal, o autor recheia seu livro de situações paralelas que vão recriando o ambiente de um país ocupado e todas as implicações negativas que isso traz. É o que acontece quando o jovem piloto Harald Olufsen, que tem a missão de tirar e levar as fotos do misterioso equipamento alemão, se indigna após o fechamento de um clube por causa das pessoas de “raça inferior” que ali tocavam: “Jazz sem negros? Mesma coisa que banir os cozinheiros franceses dos restaurantes.”
Uma das características de Follett bem presente neste livro é a presença de mulheres de personalidade forte e de iniciativa, além de sedutoras, como Karen Duchwitz, a bela bailarina que terá a coragem de conduzir o avião junto com Olufsen. Atrás deles está a inflexível detetive Tilde Jespersen, acompanhada do “durão” Peter Flemming (que tinha uma rixa com a família Olufsen), e a espiã aliada Hermia Mount, uma mulher forte e de língua afiada, criadora do grupo de espiões dinamarqueses intitulados Vigilantes Noturnos.
Olufsen sente vergonha por seu país ter se rendido em apenas 24 horas aos alemães, enquanto a vizinha Noruega lutou durante dois meses. Esse ressentimento dos habitantes de um país ocupado, maior ainda em relação aos simpatizantes dos nazistas, é abordado com bastante sutileza por Follett, principalmente a questão religiosa. Judeus dinamarqueses ainda não eram perseguidos nessa etapa da guerra e uma certa ilusão de tolerância pairava no ar.
Um bombardeio britânico era imprescindível para desviar a atenção da aviação alemã da frente russa, mas para isso era preciso que as fotos chegassem à Inglaterra antes da lua cheia. Enquanto o prazo aperta e a tensão do livro aumenta, Follett permite que Olufsen, especialista em consertar motores e desajeitado com mulheres, ponha os problemas da guerra em segundo plano: “Por que as garotas não podiam ser mais parecidas com motores?”