O compositor e poeta paulistano Arnaldo Antunes não se define num grande grupo. Não vai na onda do rock, nem da MPB. No exterior, sua música é classificada como world music (aquele rótulo que afunila todos os bons artistas dos países de 3º mundo para um mesmo gênero). Porém, Arnaldo está acima de estilos. E pela sexta vez prova sua versatilidade em prosa, verso e canção, no álbum Saiba, que inaugura seu selo próprio, Rosa Celeste (com distribuição pela BMG).
Arnaldo colocou mais leveza no teor das composições, e fala mais do que nunca em amor. Nada, porém, piegas. O músico é ainda o mesmo poeta de ironias, melancolias e vocabulário amplo. “Realmente existe uma predominância de músicas que falam de amor. Quis fazer um disco que privilegia a linguagem da canção”, diz o cantor em entrevista ao Jornal de Brasília. Segundo ele, o álbum é leve, mas se trata de uma continuação do trabalho anterior. “Saiba é mais sereno e amadurece alguns caminhos de Paradeiro”, completa.
Saiba é ainda um grito de independência do cantor, que se liberta das amarras da gravadora e trabalha com mais liberdade em seu próprio selo. No entanto, mais do que driblar a crise da indústria fonográfica, Arnaldo realizou um sonho: “Tinha o desejo antigo de ser dono da minha própria obra”
Saiba, em sua dimensão mais pop, chega às prateleiras para saciar a sede de espera do público por um remoto, mas possível, segundo álbum do projeto Tribalistas (com os parceiros Marisa Monte e Carlinhos Brown). No disco é possível ouvir uma inédita dobradinha de Antunes com Marisa em Grão de Amor (dela com o terceiro tribalista, Brown). A cantora assina ainda com o ex-titã Areia. Os não-seqüenciais encontros do trio no álbum solo do compositor prosseguem com Elizabeth no Chuí (dele com Brown) e o hit instantâneo Consumado, primeiro single do disco, que reúne simultaneamente, por breves três minutos, a formação completa dos Tribalistas.
Apesar de boa parte do novo repertório de Arnaldo ter a mão de Marisa e Carlinhos, as reuniões dos Tribalistas são inconstantes. “Moramos todos em cidades diferentes e isso dificulta nos encontrarmos com freqüência, mas quando estamos juntos compomos quase que compulsivamente”, conta o compositor, que assina a maioria das faixas de Saiba.
Além das composições particulares de Arnaldo (entre elas Cabimento, Itapuana, Cachimbo e Se Assim Quiseres), o músico, versátil, dá lugar a uma releitura do clássico, mas quadrado, samba-canção A Razão Dá-se a Quem Tem, uma das poucas parcerias entre os grandes bambas Noel Rosa, Ismael Silva e Francisco Alves, o Rei da Voz.
No entanto, a música de trabalho, aquela que chegará às rádios, será mesmo Consumado, que já virou videoclipe, gravado no Moinho Santo Antonio, em São Paulo. Com clara inspiração do cinema de Federico Fellini, o vídeo foi dirigido por Monique Gardemberg, responsável pelo clipe anterior, Alegria. Numa troca de favores, Arnaldo cedeu Consumado para a trilha sonora do filme mais recente da cineasta, Benjamim, em cartaz nos cinemas da cidade. “Compus também alguns temas instrumentais para o filme”, acrescenta Antunes, que fez trilha sonora para três filmes da nova safra da cinematografia nacional: Bicho de Sete Cabeças (Laís Bodansky), As Gêmeas (Andrucha Waddington) e Dois Perdidos Numa Noite Suja (José Joffily).