Numa rara hora vaga em sua agenda, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, se coloca alvo de sabatina na edição de hoje do projeto Sempre um Papo, do Conjunto Cultural da Caixa, que já trouxe a Brasília em duas ocasiões distintas os escritores Fernando Morais (Chatô, O Rei do Brasil e Olga), Zuenir Ventura (68 – O Ano Que Não Terminou) e Luis Fernando Verissimo.
Após figuras emblemáticas da literatura militante dos anos 60 e 70, a escolha de Gil para participar do projeto está absolutamente dentro do contexto. Hoje ministro da Cultura, o compositor foi, no fim da década de 60, um dos baianos que revolucionaram a música brasileira com a criação da Tropicália.
O motivo maior para o encontro de Gil com sua platéia em uma conversa informal – qualquer pessoa pode participar gratuitamente, desde que retire ingresso na bilheteria do Teatro da Caixa com uma hora de antecedência – é o simultâneo lançamento de dois livros sobre o compositor: Gil – Todas as Letras, do escritor Carlos Reno, e Gil 60 Anos – Todas as Contas, do músico polivalente Bené Fonteles, paraense hoje radicado em Brasília.
Porém Gil não se limitará em debater assuntos relacionados estritamente às publicações. “Os livros são pano de fundo para o bate-papo”, sublinha. “Mas devo considerar que me sinto privilegiado pelo tempo em que Bené e Reno se dedicaram a escrever sobre minha obra”, disse Gilberto Gil em um bate-papo com o Jornal de Brasília durante o coquetel de abertura de exposição sobre a arte iraniana no Ministério da Cultura, na última quarta-feira.
Bom de conversa, o Gil artista parecia desencarnar do papel de ministro ao tecer inúmeros elogios à figura de Bené Fonteles e ao novo álbum do amigo e conterrâneo Caetano Veloso, Foreign Sound. “Além de um artista multimídia, Bené tem um esmero, um zelo, uma dedicação ao discorrer sobre um tema qualquer que tenha abraçado”, define.
“É um homem repleto de virtudes”, complementa. Quanto ao trabalho de Reno – um documento literário que reúne grande fatia dos escritos musicais de Gil -, o ministro reconhece a importância da obra, sem falsa modéstia. “É a história das minhas composições ali. Na verdade, essa é minha história”, diz.
A partir do mês de maio, Gilberto Gil deixa as formalidades de ministro e cai na gandaia no Rock in Rio Lisboa, onde completa a lista de brasileiros que se apresentarão no festival importado por Portugal de 30 de maio a 6 de junho. De lá, Gil aproveita para fazer turnê européia e passa ainda pelo Japão.
Ao reassumir o personagem de ministro da Cultura, Gilberto Gil, disse ainda que a idéia de consagrar o ritmo maior da música brasileira, o samba, como patrimônio oral e imaterial da humanidade ainda não conseguiu respaldo suficiente para ser aprovada pela Unesco. “Nos resta aguardar”, disse em poucas palavras. Mas, esperançoso, atribuiu a “uma questão de tempo” a concretização desse ato. “O mundo todo busca tal reconhecimento para a arte. O teatro japonês de Nôgaku, o teatro sânscrito da Índia, por exemplo, também querem ser patrimônio”, conclui.
Além dos citados pelo ministro, o rol da Unesco se estende ao ministério de Elche (Espanha), o teatro siciliano de marionetes Opera dei Pupi (Itália), a ópera Kungu (China), o espaço cultural do distrito Boysun (Uzbekistão) e o patrimônio oral das manifestações culturais do povo Zápara (Equador e Peru).