Filho mais novo de John Rockefeller Jr. e Abby Aldrich Rockefeller, David Rockefeller, de 87 anos, ao narrar suas Memórias, conta também um pouco da história do século 20 a partir da perspectiva do capital norte-americano. Em capítulos que vão de sua infância a um epílogo discutindo o ataque terrorista a Nova York, em setembro de 2001, é possível percorrer o relato de Rockefeller com um olho nas relações entre os membros de uma das mais poderosas famílias dos Estados Unidos e com outro na impressionante seqüência de fatos históricos apresentados por um narrador objetivo, que parece buscar um distanciamento quase jornalístico dos fatos apresentados.
Esta objetividade se desfaz parcialmente quando o leitor aceita o fato de que a vida do memorialista foi, desde cedo, fadada ao extraordinário. E de que ele foi, ao mesmo tempo, o primeiro e o último de sua espécie. Foi o último dos Rockefeller criado com o orgulho do puritanismo protestante da Costa Leste americana e o primeiro a enxergar o novo tabuleiro de forças do mundo contemporâneo. Suas Memórias mostram que, se uma categoria de Rockefeller ficou para trás com os turbulentos anos 60, outra emergiu com as novas regras do mundo neoliberal. E o inusitado é que os dois personagens podem ser representados pelo mesmo David Rockefeller.
Quando narra sua experiência universitária – em centros de excelência como Harvard, London School of Economics e Universidade de Chicago –, Rockefeller fala de seus encontros com economistas como Keynes e Schumpeter. Além das longas tertúlias com seus pares na academia, Rockefeller logo mergulha no lado prático da matéria. E fala de sua experiência na Alemanha nazista antes de a guerra começar e de sua atuação como agente da inteligência americana na Segunda Guerra Mundial.
Na seara econômica, D. Rockefeller também mergulha nos conflitos entre os membros da família e entre executivos de um mundo que passa pelo primeiro escalão da Standard Oil, do Chase Bank e do Rockefeller Center. E também da política externa na América Latina e no Oriente Médio, incluindo conversas que decidiram vidas de povos inteiros, nem sempre, a bem dizer, levando em conta suas demandas mais urgentes. Entre seus mais constantes interlocutores estavam Henry Kissinger, o xá Reza Pahlevi (por quem ele intercedeu diretamente depois da revolução islâmica no Irã) e Anuar al-Sadat. Nestas Memórias, os atores são, quase sempre, do quilate de um Pablo Picasso, de um Sigmund Freud – além de todos os presidentes americanos das últimas sete décadas.