Quem Matou Daniel Pearl? tinha tudo para ser um grande livro. É a investigação sobre a morte de um jornalista notável, conduzida por um jornalista ainda mais afamado, que pôde contar com contatos privilegiados e com cobertura financeira. Seria de se esperar uma aula de Jornalismo. E pode até ser, mas no sentido contrário: uma lição de como se desperdiçar trunfos de rara importância.
O autor, Bernard-Henri Lévy, escreve regularmente para jornais franceses, entre eles Le Monde. Atualmente dirige um jornal de língua francesa no Afeganistão – Les Nouvelles de Kaboul, Notícias de Cabul – que criou por encomenda do governo da França. É também filósofo, conhecido como figura brilhante, mas polêmica, e cineasta. O problema aparentemente está aí. Ao fazer sua apuração, trabalhou mais como polemista do que como repórter. E, ao redigir, mais como roteirista de cinema do que como profissional de imprensa.
Daniel Pearl era editor do The Wall Street Journal, o mais conhecido jornal econômico dos Estados Unidos, que há anos vem se alternando nos dois primeiros lugares em circulação no país. Foi enviado ao Paquistão na seqüência dos ataques de 11 de setembro de 2001.
Sua missão era investigar as entidades islâmicas que operavam, e operam, livremente no país, mas canalizou seu trabalho para as crescentes suspeitas de que a Al- Qaeda, autora dos atentados, tinha o respaldo do serviço secreto paquistanês, o ISI. Foi seqüestrado e por fim, no dia 31 de janeiro de 2002, decapitado por um grupo fundamentalista.
Deve-se a Bernard-Henri Lévy uma descrição inspirada tanto dos locais em que esteve Pearl como dos perfis das personagens envolvidas no caso, em particular do executor do seqüestro, um paquistanês educado em Londres, Omar Sheik. O mesmo vale para as madrasas (as escolas islâmicas onde mais se cooptam integrantes de grupos terroristas), para os campos de treinamento de militantes, para as autoridades dos países islâmicos, para os vínculos que surgem entre as diversas entidades envolvidas nesse processo. Seu background afegão e os contatos privilegiados ajudam muito nisso.
Muitas perguntas, vários subentendidos, nenhuma resposta. Vem aí: “Não que esse conluio seja, em si, motivo de surpresa. Uma das teses deste livro, se é que existem teses neste livro, é que essa união é algo corriqueiro na vida e na política do Paquistão” – e por aí vai o texto, sem fatos que comprovem a tese, mas nem por isso menos verborrágico.
Troca-se assim a apuração pela digressão, inclusive em pontos fundamentais do livro. É o caso dos motivos que levaram os seqüestradores a matar Pearl. Lévy utiliza o mesmo método, o levantamento de hipóteses para descartá-las uma a uma, em seqüência, até concluir, por eliminação, que o jornalista foi assassinado porque um dos algozes descobriu que ele sabia demais. Alguma prova de que isso tenha ocorrido? Não, mas como deveriam ter ocorrido diálogos descontraídos entre ele e os seqüestradores, seria a resposta mais lógica possível – e, portanto, deve ser verdadeira.
Está aí o problema fundamental do livro. Lévy traz revelações. Transcreve trechos de um diário escrito por Omar em uma prisão indiana, consegue contatos com figuras relevantes e deles eventualmente retira dados interessantes, transmite informações sobre conexões relevantes. Suas descrições são, freqüentemente, notáveis, como a que faz da grande madrasa de Binori Town, apontada como um centro de recrutamento de terroristas de todo gênero, além de núcleo de desenvolvimento do fundamentalismo.
O autor passa o livro supondo, achando, sentindo, impressionando-se. A objetividade termina por se perder. Quem Matou Daniel Pearl, portanto, pode ser tudo, menos um confiável relato jornalístico, tão prejudicado é por suposições, por deduções, por fatos sem fontes, por fontes sem fatos, pela falta de evidências que confirmem o que lá está