A falsidade e a ingenuidade da sociedade do século 17 não é só daquela época. A peça Tartufo, do autor francês Molière, apesar de escrita há 400 anos, mostra que pouca coisa mudou desde então. O texto, bastante atual, poderá ser conferido hoje e amanhã, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional.
A peça conta a história de um falso moralista que é capaz de mentir, roubar e fraudar em nome de Deus, com a intenção de se dar bem na vida. Tartufo, interpretado por Eduardo Moscovis, é um impostor que se utiliza da sua habilidade de manipulação, trabalha com a fé, com a boa vontade alheia, e aos poucos vai dominando a casa do ingênuo Orgon, vivido por Ernani Moraes.
Orgon vai passando para Tartufo, o suposto enviado de Deus, seus bens materiais e depois a filha, interpretada por Leandra Leal. Também o aproxima a esposa, vivida por Vanessa Gerbelli.
De acordo com o ator Eduardo Moscovis, o texto do francês
Molière é difícil, já que tem uma estrutura diferente, é com versos e rimado. “Nós estamos conseguindo contar muito bem a história, o público ri bastante”, diz.
Para Moscovis, o espetáculo dá uma lição de moral no público. “O diretor usa a gente que está no palco como espelho do público. É um clássico, não se perde no tempo”. A montagem adverte como se pode ser manipulado por uma figura que se diz líder. “E a gente facilita isso, abre espaço para que essas pessoas apareçam”, afirma o ator. O elenco conta ainda com Ana Lucia Torre, Leonardo Miggiorin, Oberdan Junior, Risa Landau, Renato Farias e Fred Benedini.
Quando Molière escreveu o texto, idealizou Tartufo como uma pessoa asquerosa. Mas a proposta do diretor Tonio Carvalho é diferente. “Todo o elenco usa perucas, maquiagem. Sou o único de cara limpa para mostrar que uma pessoa de boa aparência
pode ser perigosa”, explica Moscovis.
A peça já esteve por dois meses em cartaz no Rio de Janeiro e seguiu para Campinas, Vitoria, Londrina. Depois de Brasília continua a turnê pelo Brasil. “A cada fim de semana numa cidade com uma platéia diferente, sentimos que a relação com o público acaba se torando cada vez mais estreita”, conclui o ator.
Molière era um dramaturgo ousado. Com fina ironia e muita inteligência, não deixava passar nada e é considerado o pai da comédia francesa de costumes. A peça, que foi representada para o rei em 1664, só voltou aos palcos franceses três anos depois, com mudanças no texto. A raiva foi tanta, que após sua morte, a igreja católica lhe negou o direito a
uma sepultura sagrada. O autor foi enterrado clandestinamente, em 1673, no Cemitério de
São José, na Rua Montmartre, centro de Paris.
Serviço
Tartufo – Peça de Molière, com Eduardo Moscovis, Vanessa Gerbelli, Ana Lúcia Torre e Leandra Leal. Hoje às 21h e amanhã às 20h, na Sala Villa- Lobos do Teatro Nacional. Ingressos a R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia). Classificação 12 anos.