De desenho animado à novela, passando por filmes e seriados, está difícil assistir à programação das tevês – principalmente as abertas – sem lamentar. Televisão é diversão, entretenimento, tudo bem. Mas, poderia ser muito mais do que isso, já que invade milhares de lares, todos os dias, o dia inteiro, de forma tão avassaladora que chega a viciar.
Se a garotada, por exemplo, tivesse algo mais interessante pra ver, ao acordar, do que os desenhos japoneses que passam no decorrer do Programa da Xuxa e também no SBT – cada um mais violento do que o outro, cheios de personagens que não fazem outra coisa na vida além de brigar, lutar, xingar e elucubrar maldades –, quem sabe essas mesmas crianças não seriam mais doces, meigas, menos agressivas, mais generosas com amiguinhos e familiares…
É claro que não se pode culpar a tevê por tudo, até porque, num país onde as crianças, muitas vezes, vêem brigas, caras feias, mau humor, intolerância, tapas e socos dentro de suas próprias casas – em alguns casos, não poucos, são elas as próprias vítimas –, fica difícil cobrar programação mais adequada a determinadas faixas etárias.
Mas, ainda assim, cada coisa colocada no seu devido lugar, a tevê poderia ajudar as crianças, principalmente aquelas que não são bem tratadas, a ver que existe uma vida melhor por aí e que há espaço e tempo para imaginar, fantasiar, brincar, se divertir, respeitar, questionar, obedecer, ser feliz, ser criança.
Há que se destacar exceções na programação infantil da tevê aberta – do passado, como Vila Sésamo, e do presente, como o Sítio do Picapau Amarelo e o Castelo Rá-Tim-Bum – que realmente têm uma proposta lúdica e educativa. Mas, infelizmente, a maioria do que se apresenta hoje, para a garotada, vamos combinar, é lixo.
As crianças mudaram de uns tempos pra cá. Muitas são lindas, precoces, modernas, informadíssimas e também voluntariosas, malcriadas, materialistas, mal-educadas e até rudes. E não foi só a tevê que contribuiu pra isso, claro que não. Há a internet – fantástica e vilã –, há a falta de atenção dos pais que, ocupados o tempo todo, não conseguem mais acompanhar a educação dos filhos de perto, deixando a tarefa a cargo de babás, empregadas, escolas…, há uma infinidade de causas e culpados, mas a verdade é que a tevê também tem sua parcela de culpa. Ou alguém imagina que, ao assistir a lixo, todos os dias, a toda a hora, adulto ou criança está livre de repetir comportamentos?
A tevê fechada mostra – interesses comerciais à parte – que é possível produzir e veicular material aproveitável por crianças – e até por adultos menos sisudos. A Discovery Kids, por exemplo, é nota dez. Com desenhos como o canadense Caillou– que vai ao ar também pela TV Nacional, canal 2 em Brasília – e Boo, além de toda a programação voltada para a educação e a fantasia –, poderia ser imitada, um dia, quem sabe, por emissoras brasileiras. Pena que só uma parcela ínfima da população brasileira tem acesso à tevê paga.