Fátima Guedes está longe de ser classificada uma voz de veludo da MPB. Mas foi essa qualidade, unida à sua veia de compositora, que a fez reconhecida por uma das mais marcantes e arrebatadoras cantoras da música popular, Elis Regina (que há 22 anos, completos no dia 9 deste mês, parou de brilhar devido a uma overdose). Fátima, a voz rasgada e vibrante por trás da composição Onze Fitas será a estrela da noite de hoje no palco da Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional.
Depois de tantos concertos eruditos (foram realizados 20 até então), chegou a vez do canto popular ganhar seu devido espaço. A partir das 21h, a cantora carioca Fátima Guedes participa do mega-show com os professores de música popular do Curso de Verão. Fátima solta a voz acompanhada do violonista Nelson Faria e do baixista Adriano Giffoni.
Fátima Guedes é uma veterana da música brasileira. Como tal, tem grande respeito pelos mártires do samba – Noel Rosa e Cartola, para citar alguns – e pelos grandes da bossa nova Tom Jobim, João Gilberto, Elis Regina… no entanto, a cantora carioca – responsável pela disciplina de canto popular no Curso de Verão – não limita seus horizontes à tradicional MPB. Gosta da linguagem rápida e eletrônica de Lenine e Paulinho Moska e é “apaixonada” por Jorge Vercilo.
“Não podemos nos prender. A música evolui”, diz Fátima, um exemplo da leva de cantoras reveladas no fim da década de 70, como Leila Pinheiro. Por sua visão eclética da MPB, o workshop de canto lhe cai bem. Seus alunos, como diz, têm uma imensa amplitude de interesses, de Chico Buarque a Ed Motta. “Os músicos de hoje bebem na fonte do passado. Por isso essa é uma grande característica da música popular: envelhecer e revigorar-se a cada geração”, analisa. Para ela, os músicos da geração pós anos 90 incrementam a MPB com uma linguagem mais “rápida e objetiva” e completa: “Essas novas formas são cada vez mais bem-vindas. Elas enriquecem a nossa MPB”.
A própria Fátima é um dos nomes que engrossa a lista de mulheres compositoras da MPB. Em seu repertório essencial não podem faltar suas principais composições: Onze Fitas (sua primeira canção, gravada por Elis em 1978), Faca, Passional, Absinto, Lápis de Cor, Dois Amores (fruto de uma parceria com Djavan) e a Mais uma Boca (canção que concorreu no Festival MPB/Shell em 1980 e foi responsável por conduzi-la aos átrios da música brasileira, quando perpetuou composições nas vozes de Maria Bethânia, Nana Caymmi e Ney Matogrosso.
Na Villa-Lobos, portanto, Fátima investe na sua verve de intérprete. “Escolho as músicas pela ocasião. Vou cantar Saída de Emergência do João Bosco porque gravei a música no songbook dele em setembro”, justifica. E em songbooks de mestres da MPB sua participação é constante. Também gravou nas coleções de Chico Buarque (A Noiva da Cidade, com o guitarrista Lula Galvão), Dorival Caymmi (Você Já Foi à Bahia?), Edu Lobo (Cidade Nova), Tom Jobim (Foi a Noite) e Djavan (Álibi).
Outro projeto que está nos planos de Fátima é uma homenagem a Cartola. Ela adianta que irá apresentar algumas canções do sambista de óculos escuros numa coletânea em tributo aos maiores sambistas. O disco fica pronto ainda neste ano, como prevê a cantora. Outra novidade do cancioneiro de Fátima Guedes será a música Superbacana, de Caetano Veloso, título de seu próximo show, que deve percorrer o País a partir de março (e um indício de um próximo álbum, depois do jejum de cinco anos de seu álbum solo Muito Intensa, de 1999. Depois desse disco, portanto, ela participou do trabalho do compositor e arranjador Eduardo Gudin Luzes da Mesma Luz, em 2001.
A noite de apresentação de Fátima Guedes, o principal nome da música popular a participar do Curso de Verão, não termina no show particular da cantora. A Villa-Lobos recebe ainda uma série de outras dez apresentações consecutivas ecléticas. O violeiro Roberto Corrêa abre a programação, seguido por Fátima Guedes e Nelson Faria, dos grupos de jazz formados por Cliff Korman (piano), Sérgio Galvão (sax) e Kiko Freitas (bateria) e pelos baixistas Jeff Andrews e Toni Botelho; além do chorinho do trombonista Vittor Santos e dos pianistas Maria Teresa Madeira e Leandro Braga e da banda do guitarrista Lula Galvão com Paulo André Tavares (violão) e Cleber Almeida (bateria).