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Política & Poder

Deputados de oposição na CLDF não cobram favores do GDF

Francisco Dutra
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Mostrando coerência entre discurso e prática, a nova geração de deputados distritais de oposição e independentes não flerta com o governo de Ibaneis Rocha (MDB) por trás das cortinas. Pelo menos até agora, não buscam cargos nem mesmo alianças. Por mais incrível que pareça, é algo novo na Câmara Legislativa.

Na gestão passada, de Rodrigo Rollemberg (PSB), muitos personagens vestiam a camisa da independência, mas jogavam junto com o Executivo nas votações e debates no plenário. Afinal, cultivavam nos bastidores apadrinhados e acordos com o Palácio do Buriti. Era a política do toma-lá-dá-cá. O próprio Rollemberg, após perder a campanha pela reeleição, lamentou a forma como conduziu as negociações com a Câmara.

A nova oposição é formada pelos deputados distritais Fábio Félix (PSOL), Chico Vigilante (PT) e Arlete Sampaio (PT). Por outro lado, Júlia Lucy (Novo), Reginaldo Veras (PDT) e Leandro Grass (Rede) assumem os papéis de protagonistas independentes. Existem outros parlamentares que não se declaram como base do governo. Contudo, votam e aprovam a maioria das propostas do governo dentro e fora da Câmara, inclusive as polêmicas. Além disso, parte tem cargos no Executivo ou os respectivos partidos tem espaços na máquina pública. Por isso, estes são avaliados como neutros ou indefinidos.

Ou seja, são apenas seis parlamentares integralmente independentes entre os 24 distritais. Mas já fizeram muito barulho. Na votação do projeto de ampliação do modelo do Instituto Hospital de Base para a rede pública de saúde foram votos vencidos, mas conseguiram conquistar dois votos de parlamentares governistas. E no atual debate sobre o futuro do Passe Livre Estudantil demonstram capacidade de mobilização social contra a limitação do benefício, proposta pelo governo.

“Nossa proposta é fazer uma oposição qualificada. Temos duas diferenças em relação a este governo. A central é que o governo se conduz de forma muito autoritária. E há a diferença programática, de conteúdo. Ele dá sinais de ser um governo de privatizações, que não vai fortalecer políticas públicas e os direitos humanos”, comentou Fábio Félix.

Mesmo assim, Arlete Sampaio não descarta votar junto com o Buriti nos temas de consenso, de coincidência de propostas e necessários para o bem do DF. Ou seja, a oposição será firme, mas não será raivosa. Entre os independentes, Júlia Lucy destacou outro ponto: a tendência de votos e posições técnicas, livres de grilhões corporativistas ou compromissos regionais.

“Na eleição não tive uma votação forte de uma região administrativa, de uma base sindical ou de um grupo estabelecido. Meu voto é das ruas, das pessoas que querem mudanças na política e que estão conectadas de forma racional”, afirmou a parlamentar.

Reginaldo Veras é um nome independente com viés de oposição. “Vou dar o prazo de mais um mês. Se esse governo continuar dessa maneira, vou assumir um papel de oposição sistemática. E vou te dizer: se eu virar oposição, o Chico Vigilante vai ser jardim de infância. E este governo tem nos empurrado para a oposição”, disparou.


Poder de sedução será na base do diálogo

Como o governo vai lidar com esta nova oposição? Segundo o secretário de Relações Parlamentares, Bispo Renato, a estratégia será muito diálogo. A princípio, o Palácio do Buriti não pretende seduzir opositores e independentes com nomeações e acordos. Segundo o principal representante do Executivo na Câmara, a política do toma-lá-dá-cá não está nos planos de Ibaneis, nem mesmo com a base.

“Nem os deputados da base querem a volta do toma-lá-dá-cá. Todos querem o debate no campo das ideias, construindo para melhorar o DF. E com certeza o governador não quer essa parceria do toma lá da cá. E volto a insistir que na votação para a ampliação do modelo do Instituto do Hospital de Base não foi negociado um cargo sequer”, afirmou o secretário.

Na avaliação de Bispo Renato, os primeiros passos da oposição dos independentes foram coerentes. Eles apoiaram integralmente a criação da nova gratificação para a Polícia Civil, por exemplo. “O que a gente espera é que eles não façam oposição contra a pessoa do governador. Que seja uma oposição de ideias e que elas possam ser debatidas”, ponderou.

E, mesmo nos embates diretos, o secretário acredita que o contraditório foi e será fundamental para a melhoria dos projetos, como no caso da própria ampliação do modelo do Instituto Hospital de Base. Apesar do evidente poder de fogo dos parlamentares distantes do Buriti, Bispo Renato calcula que o governo tem uma base confiável.

“Depende de cada tema. Na minha opinião, o governo tem entre 13 e 18 parlamentares”, declarou. Mesmo assim, nesta era da democracia digital, um bom discurso gera repercussões no plenário da Câmara. Vide exemplo da votação para a presidência do Senado.


Saiba Mais

  • Reeleito para o segundo mandato, Reginaldo Veras está surpreso com a nova postura da oposição e dos colegas independentes. “É algo meio novo”, resumiu. Para o veterano, os estreantes Fábio Félix, Leandro Grass e Júlia Lucy têm mostrado uma postura combativa e inteligente.
  • A oposição está concentrada no bloco Democracia e Resistência, composto por Fábio Félix, Arlete Sampaio e Chico Vigilante. Reginaldo Veras e Leandro Grass estão em bloco com o líder do governo na Câmara, deputado Cláudio Abrantes (PDT). Apesar da proximidade com o parlamentar “ponta de lança” do Executivo, os dois estão firmes na frente independente. Júlia Lucy não pretende integrar nenhum bloco até agora.

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