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Varíola dos macacos infecta mais os homens que fazem sexo com outros homens? Entenda

A varíola dos macacos, causada pelo vírus monkeypox, é endêmica em países nas regiões central e oeste do continente africano

Por FolhaPress 01/07/2022 8h59
Foto: AFP

Samuel Fernandes
São Paulo, SP

O atual surto de varíola dos macacos apresenta uma característica intrigante: os casos são mais recorrentes em homens que fazem sexo com outros homens (HSH). Há dúvidas de por que isso acontece, e uma grande preocupação é não estigmatizar a comunidade.

A varíola dos macacos, causada pelo vírus monkeypox, é endêmica em países nas regiões central e oeste do continente africano. Surtos em outros países já ocorreram, como em 2003 nos Estados Unidos, com 70 diagnósticos. Nenhum deles, porém, é tão grande como o visto agora, com mais de 5.000.

O fato de a doença ser mais comum em homens e garotos era conhecido, afirma um relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) publicado em 24 de junho. Segundo o documento, o maior número de casos nessas populações já era observado nos países afetados pela doença anteriormente.

No entanto, a organização diz que os casos eram associados ao contato com caça de animais que são hospedeiros do vírus –roedores, por exemplo. A peculiaridade agora é que os diagnósticos estão concentrados na comunidade de HSH, e a transmissão se concentra no contato com pessoas já infectadas.

Um exemplo foi a Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido (UKHSA, na sigla em inglês) que levantou dados de pacientes com varíola dos macacos no país. Desde 26 de maio, 152 responderam a um questionário com informações sobre suas práticas sexuais. Destes, 151 informaram fazer parte da comunidade de HSH ou terem tido relações sexuais com parceiros do mesmo sexo.

Outros dados do Reino Unido também foram utilizados em um estudo publicado em 13 de junho como pré-print –ou seja, sem revisão de pares. Os pesquisadores analisaram a disseminação da doença na população do país. Com base em modelos estatísticos, os autores sugerem que uma pequena quantidade de casos entre HSH são suficientes para causar um aumento substancial de diagnósticos nesta comunidade.

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As razões da alta prevalência entre homens que mantêm relações com parceiros do mesmo sexo ainda permanecem em aberto. Uma das hipóteses se vale do fato de que o vírus é transmitido ao se tocar as feridas causadas pela infecção ou por contato próximo e prolongado com secreções respiratórias de pessoas infectadas.

Isso poderia justificar a maior transmissão numa relação sexual. No entanto, isso não explica por que o vírus tem uma maior taxa em especial na comunidade de HSH.

“Todas as situações que possamos imaginar de uma pessoa com lesão possa encontrar outra é potencialmente transmissível. Então, não se restringe a nenhuma população”, afirma Maria Amélia Veras, professora do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Veras também é coordenadora do grupo de pesquisa Nudhes (Saúde, Sexualidade e Direitos Humanos da População LGBT+). Ela indica que outra explicação para a situação pode estar ligada a um viés de detecção.

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Neste caso, o maior número de casos entre HSH se relaciona com uma preocupação maior dessa população com doenças relacionadas a atividades sexuais. “É um grupo muito mais atento a questões de infecções que são transmitidas sexualmente e, portanto, podem ter procurado mais [os serviços de saúde]”, diz.

A transmissão do monkeypox por meio de fluídos vaginais e sêmen é outra possibilidade. O CDC (Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos) diz que essa hipótese está em aberto e é necessário “ser melhor entendida”.

Um estudo realizado no hospital e centro de pesquisa Spallanzani, na Itália, relatou evidências da presença do monkeypox no sêmen de homens em um relatório de 2 de junho. Para a AFP, o diretor da instituição disse que o resultado não era aleatório porque o DNA do vírus era encontrado no sêmen de 3 a cada 4 homens com diagnósticos para a doença.

Mas isso não indica que ocorra transmissão pelo ato sexual e nem que a varíola dos macacos é uma ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis). A evidência também é precoce e precisa de mais investigações, algo comum em situações iniciais de novos surtos de doenças, afirma Veras. “É necessário realizar estudos bem conduzidos com desenhos rigorosos.”

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Estigmatização Um receio apontado por organizações é que a maior notificação da varíola dos macacos entre HSH possa causar estigmatização da comunidade. A Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids) afirmou em uma nota, de 25 de maio, estar preocupada por causa de linguagens para tratar da varíola dos macacos que reforçam estereótipos racistas e homofóbicos.

“As lições da resposta à pandemia de Aids mostram que o estigma e a culpabilização dirigidos a certos grupos de pessoas podem rapidamente minar a resposta a surtos”, informou a agência.

De forma parecida, Veras relata a preocupação. “Você vai aumentar um estigma que já existe contra minorias sexuais e de gênero.”

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Ela também aponta que isso pode gerar um problema em que pessoas que não compõem o grupo com maior transmissão podem entender que não têm risco –algo que não é verdade.

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“O fato de estar sendo detectado no grupo de HSH ativos sexualmente e com múltiplos parceiros explica porque se tem mais casos nesses grupos. Não explica e nem diz que são só essas pessoas”, conclui.








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