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Saúde

Roacutan: como a desinformação transforma riscos reais em medo nas redes sociais

Publicações associam isotretinoína a danos permanentes, alterações cognitivas e doenças intestinais, mas estudos científicos não confirmam várias dessas alegações; dermatologista explica os efeitos adversos conhecidos e a importância do acompanhamento médico

Aline Teixeira

19/10/2026 20h02

person dealing with rosacea

Foto: Freepik

Quem já tomou Roacutan pode se deparar nas redes sociais com publicações que levantam dúvidas sobre possíveis consequências do tratamento anos depois. Vídeos e relatos associam a isotretinoína, princípio ativo do medicamento, a problemas de concentração, doenças intestinais e até ao suposto acúmulo de “toxinas” no organismo. Algumas dessas postagens citam pesquisas científicas, mas apresentam resultados isolados como se fossem provas de danos permanentes.

Embora a isotretinoína possa provocar efeitos adversos e exija acompanhamento médico, isso não significa que todas as pessoas desenvolverão complicações ou que problemas de saúde identificados posteriormente tenham sido necessariamente causados pelo medicamento. Para avaliar essas alegações, é preciso distinguir os riscos conhecidos, as hipóteses investigadas e as conclusões efetivamente sustentadas pelas evidências.

Utilizada no tratamento da acne desde a década de 1980, a isotretinoína é recomendada especialmente para casos graves, com risco de cicatrizes, impacto significativo na qualidade de vida ou que não respondem adequadamente a outros tratamentos. As diretrizes da Academia Americana de Dermatologia, atualizadas em 2024, mantêm a indicação do medicamento nessas situações.

Segundo Wesley Ferreira, dermatologista, CEO da Singular Medicina Estética e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a interpretação inadequada de pesquisas está entre os problemas de conteúdos que circulam nas redes.

“Um estudo pode identificar uma alteração ou um possível risco, mas isso não significa que o medicamento vá causar um problema permanente em todas as pessoas. É preciso analisar o que a pesquisa realmente investigou e quais conclusões ela permite tirar. Não podemos transformar um resultado específico em uma afirmação geral sobre todos os pacientes”, explica.

Saúde mental: o que as pesquisas mostram

A possível relação entre isotretinoína e alterações psiquiátricas é uma das principais preocupações associadas ao medicamento. Uma metanálise publicada na revista JAMA Dermatology, em 2024, reuniu 25 estudos, com 1.625.891 participantes, para avaliar a ocorrência de transtornos psiquiátricos e suicídio entre usuários do tratamento.

A análise não encontrou aumento do risco relativo de transtornos psiquiátricos ou suicídio entre os pacientes que utilizaram isotretinoína, considerando os dados populacionais avaliados. Os resultados, no entanto, não excluem a possibilidade de reações individuais e não significam que sintomas psicológicos devam ser ignorados.

Os pesquisadores ressaltam a importância do acompanhamento clínico durante o tratamento, especialmente diante de mudanças de humor ou sinais de sofrimento emocional. Histórico de saúde mental também merece atenção individualizada.

Dessa forma, os dados disponíveis não sustentam a afirmação de que a isotretinoína provoque, de maneira generalizada, danos psiquiátricos permanentes. Ao mesmo tempo, resultados obtidos em grandes grupos não substituem a avaliação das particularidades de cada paciente.

Isotretinoína provoca doenças intestinais?

Outra alegação recorrente nas redes sociais é a de que o medicamento causaria doenças inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa.

Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2023 analisou oito estudos, que reuniram mais de 2,5 milhões de participantes. Os pesquisadores não encontraram associação estatisticamente significativa entre a exposição à isotretinoína e o aumento do risco de doenças inflamatórias intestinais.

O resultado enfraquece a afirmação de que essas doenças sejam uma consequência comprovada e generalizada do tratamento. Isso não significa, contudo, que toda possibilidade de associação esteja definitivamente descartada ou que sintomas intestinais possam ser desconsiderados.

Para Wesley Ferreira, atribuir automaticamente problemas de saúde identificados anos depois ao uso passado do medicamento pode prejudicar a investigação clínica.

“Atribuir automaticamente sintomas que aparecem anos depois ao uso passado de isotretinoína, sem investigar outras causas, pode levar a conclusões equivocadas e atrasar o diagnóstico correto”, alerta o médico.

Efeitos adversos exigem cuidados

Combater a desinformação não significa minimizar os riscos da isotretinoína. Entre os efeitos adversos conhecidos estão o ressecamento intenso dos lábios e da pele, além de possíveis alterações nas enzimas hepáticas e nos níveis de colesterol e triglicerídeos. Por isso, o tratamento exige avaliação médica e acompanhamento conforme as necessidades de cada paciente.

O principal alerta envolve a gravidez. A isotretinoína pode causar malformações fetais graves e é contraindicada durante a gestação. Pessoas com possibilidade de engravidar precisam seguir rigorosamente as medidas de prevenção e as orientações médicas aplicáveis durante o tratamento.

O dermatologista também chama a atenção para informações que atribuem ao medicamento a responsabilidade por qualquer sintoma apresentado anos após o fim do uso.

“A isotretinoína não é um medicamento banal. Sua indicação precisa considerar os benefícios, os riscos e as características de cada paciente. Mas afirmar que o remédio deixa ‘toxinas’ responsáveis por qualquer sintoma anos depois é ir além do que as evidências apresentadas permitem concluir. Quem apresenta uma queixa precisa de investigação clínica, não de um diagnóstico feito por uma postagem”, ressalta.

Desinformação pode comprometer decisões sobre saúde

A acne vai além de uma questão estética. Em quadros graves, pode deixar cicatrizes permanentes e afetar a autoestima e a saúde emocional. Para pacientes com indicação clínica, um tratamento eficaz pode ajudar a reduzir essas consequências.

Quando publicações transformam riscos possíveis em certezas de danos permanentes, podem provocar medo desproporcional e levar pacientes a abandonar ou rejeitar tratamentos que poderiam beneficiá-los. O problema também dificulta a compreensão dos riscos reais e das medidas necessárias para reduzir complicações.

Isso não significa que o medicamento deva ser utilizado sem questionamentos. Compreender os efeitos adversos, esclarecer dúvidas com profissionais habilitados e conhecer os resultados das pesquisas são etapas importantes para uma decisão informada.

“Informar sobre os efeitos adversos é fundamental para proteger o paciente. O problema começa quando os riscos são apresentados fora de contexto e as evidências são distorcidas. A decisão sobre o tratamento deve considerar a gravidade da acne, o histórico de saúde e a relação entre benefícios e riscos para cada pessoa”, conclui Wesley Ferreira, dermatologista, CEO da Singular Medicina Estética e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

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