Uma ferida que parece uma espinha, uma bolha isolada ou uma lesão dolorosa na região genital. Os sinais da mpox nem sempre correspondem à imagem de uma pessoa com febre e numerosas marcas pelo corpo. A infecção pode se manifestar com poucas lesões, e reconhecer essas alterações é importante para buscar atendimento, evitar complicações e reduzir a transmissão.
No Distrito Federal, foram confirmados 23 casos da doença em 2026, oito deles em outubro, segundo dados da Secretaria de Saúde (SES-DF). Causada pelo vírus MPXV, a mpox pode atingir a pele e as mucosas, inclusive em regiões em que as feridas não são facilmente percebidas.
“Mesmo uma única lesão suspeita, sem febre, pode justificar avaliação médica, principalmente após contato próximo ou íntimo com uma pessoa infectada”, afirma o dermatologista Wesley Ferreira, CEO da Clínica Singular e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).
As lesões geralmente começam como pequenas elevações na pele, chamadas pápulas, e podem evoluir para bolhas com líquido. Depois, podem apresentar conteúdo esbranquiçado, formando pústulas, até o surgimento de crostas. A quantidade varia: algumas pessoas apresentam poucas manifestações, enquanto outras desenvolvem mais de uma centena.
Elas podem aparecer no rosto, tronco, braços e pernas, nas palmas das mãos e nas plantas dos pés, além das regiões genital, perianal, da boca e da garganta. Ínguas, mal-estar, dor de garganta e dores musculares podem acompanhar o quadro, mas a ausência de febre não exclui a doença.
Lesões semelhantes, causas diferentes
Alterações novas e sem explicação aparente, especialmente quando dolorosas, endurecidas ou com uma pequena depressão no centro, merecem avaliação. O aspecto pode lembrar outras doenças, como herpes, catapora, sífilis e molusco contagioso.
Segundo Wesley, o herpes simples costuma provocar pequenas bolhas agrupadas, frequentemente recorrentes na mesma região. Já o herpes-zóster tende a se concentrar em uma faixa de um lado do corpo, com dor ou queimação. A catapora geralmente apresenta lesões mais superficiais e em diferentes estágios de evolução.
Essas características ajudam na investigação, mas não permitem confirmar ou descartar mpox apenas pela aparência. A avaliação médica considera a distribuição das lesões, os sintomas associados e o histórico de contato, além da necessidade de exames.
Também há sinais menos evidentes. Dor ao evacuar, sangramento e desconforto anal ou retal podem ocorrer mesmo sem feridas externas visíveis e precisam ser investigados.
Quando o atendimento deve ser urgente
A intensidade da dor, a localização das lesões e o estado geral do paciente são determinantes para avaliar a gravidade. Feridas próximas aos olhos, alterações na visão, dificuldade para urinar, engolir ou respirar e sinais de desidratação exigem atendimento urgente.
“A gravidade da mpox não depende do número de lesões ou da presença de febre. Mesmo uma única lesão pode exigir atendimento urgente, dependendo de sua localização e dos sintomas associados”, ressalta o dermatologista.
Vermelhidão que aumenta rapidamente, calor, inchaço e secreção com mau cheiro podem indicar complicações. Lesões profundas ou extensas, sangramento persistente e piora importante do estado geral também são sinais de alerta. Pessoas com imunossupressão, especialmente aquelas com HIV avançado, apresentam maior risco de evolução grave e devem ser avaliadas precocemente.
Cuidados com a pele ajudam a reduzir complicações e marcas
A higiene das lesões deve ser delicada, com água e sabonete suave, sem esfregar. É importante higienizar as mãos antes e depois de tocar nas áreas afetadas ou trocar curativos. Quando houver possibilidade de contato com outras pessoas, as lesões devem ser protegidas com roupas ou curativos adequados.
“Não estourar, furar ou espremer as bolhas e pústulas. Isso aumenta o risco de infecção secundária e disseminação do vírus”, orienta Wesley.
As crostas devem cair espontaneamente. Também é necessário evitar depilação, esfoliação e produtos irritantes nas áreas afetadas, além de não usar antibióticos ou corticoides por conta própria.
A transmissão ocorre principalmente pelo contato direto com lesões e secreções, mas também pode envolver objetos contaminados, como roupas, toalhas e lençóis. Até a avaliação médica, a recomendação é evitar contato íntimo e não compartilhar itens pessoais. O preservativo, isoladamente, não impede a transmissão pelo contato entre áreas da pele.
Mesmo após a recuperação, podem permanecer manchas escuras ou claras e cicatrizes, inclusive pequenas depressões semelhantes às deixadas pela acne ou pela catapora. Evitar manipular as feridas e tratar eventuais infecções secundárias ajuda a reduzir esse risco.
“O tratamento dermatológico das marcas pode começar após a cicatrização completa das lesões, quando todas as crostas tiverem caído espontaneamente e a pele estiver íntegra, sem feridas abertas ou sinais de infecção”, explica o especialista.
A abordagem depende do tipo de alteração. Manchas podem melhorar gradualmente, com proteção solar e, quando indicado, tratamento prescrito pelo dermatologista. Procedimentos para cicatrizes, como laser e microagulhamento, exigem avaliação individual e podem precisar aguardar a estabilização da pele por alguns meses.