Menu
Saúde

Inca aponta maior tabagismo entre LGBTI+ e pede ação integrada

Levantamento apresentado no Rio indica incidência mais alta de consumo de tabaco entre pessoas homossexuais e bissexuais, e especialistas defendem políticas específicas de saúde.

Redação Jornal de Brasília

25/06/2026 21h23

ja 8787

Joédson Alves/Agência Brasil

A incidência de tabagismo entre pessoas homossexuais e bissexuais é 76% maior do que entre heterossexuais, segundo levantamento apresentado pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) nesta quinta-feira (25), em um evento no Rio de Janeiro (RJ). A análise dos microdados da última Pesquisa Nacional de Saúde, lançada em 2019, mostrou que 22,4% das pessoas do primeiro grupo consumiam produtos de tabaco, contra 12,7% do segundo grupo.

Considerando apenas os dispositivos eletrônicos, conhecidos como vapes, a prevalência entre homossexuais e bissexuais foi quase seis vezes maior. A pesquisa também indica que a proporção de consumidores é superior em todos os tipos de produtos.

De acordo com a pesquisadora Aline Mesquita, da Divisão de Controle do Tabagismo e Outros Fatores de Risco da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca, o Brasil já tem uma boa política de controle do tabaco, mas ela precisa ser cruzada com a política de promoção da saúde da população LGBTI+ para a criação de estratégias que contemplem esse público específico. Ela afirmou que o tabagismo é o principal fator de risco para doenças crônicas, como doenças cardiovasculares, cânceres e doenças respiratórias.

A secretária-executiva do Conselho Estadual dos Direitos da População LGBTI+ do Rio de Janeiro, Denise Taynah, defendeu que serviços tradicionalmente voltados a essa população, como as unidades que realizam processo transsexualizador, também sejam incluídos nas políticas antitabagismo. Segundo ela, é necessário um protocolo para que as unidades de saúde colaborem com a redução do fumo e com a melhoria da saúde física e mental dessas pessoas.

Aline Mesquita afirmou ainda que a diferença já havia sido verificada anteriormente e também é apontada pela literatura científica. Segundo ela, a indústria tabagista tem investido em ações para estimular o consumo entre pessoas LGBTI+, por meio do que chamou de responsabilidade social corporativa, com patrocínio de eventos, e também com o lançamento de produtos com aromas e sabores.

A pesquisadora disse que preconceito e violência são fatores-chave para explicar a maior incidência de tabagismo entre pessoas LGBTI+. Ela citou que 90% das pessoas que fumam começam antes dos 19 anos e afirmou que adolescentes já vulneráveis e expostos à LGBTfobia têm mais chance de desenvolver depressão e ansiedade, o que pode favorecer o uso de tabaco, álcool e outras drogas.

A Pesquisa Nacional de Saúde não investigou a identidade de gênero dos brasileiros, mas Gab Van, diretor executivo da Liga Transmasculina João W Nery, afirmou que questões semelhantes favorecem o tabagismo na população transexual. Ele relatou que, em uma atividade da liga, jovens associaram o início do fumo a períodos de ansiedade e violência.

O assessor técnico do Ministério da Saúde Danylo Guimarães explicou que o Sistema Único de Saúde dispõe de uma ferramenta para produzir dados sobre a população brasileira, o SUS APS, com mais de 174 milhões de pessoas cadastradas. Segundo ele, em 2023 apenas 0,15% desses cadastros traziam a informação sobre orientação de gênero. Por isso, em 2024, os campos “orientação sexual” e “identidade de gênero” passaram a ser de preenchimento obrigatório pelos profissionais de saúde, após a pergunta sobre o desejo de declarar essas informações.

Mesmo com dados escassos, Guimarães afirmou que foi possível confirmar maior incidência de tabagismo na população LGBTI+: 19,7% das pessoas que se declararam homossexuais consumiam produtos de tabaco, contra 7,3% das que se declararam heterossexuais. Ele defendeu que a atenção primária à saúde, presente em todos os municípios brasileiros, pode ser um espaço de escuta qualificada e de ações para o controle do tabaco no país.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado