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HIV no trabalho: preconceito torna pauta invisível para gestores

O último boletim epidemiológico de HIV e aids, do Ministério da Saúde, indica que 920 mil pessoas vivem com HIV no Brasil

Pensar em diversidade e inclusão também é pensar em pessoas com HIV e aids que estão no mercado de trabalho, ainda que muitas vezes esse grupo seja invisibilizado dentro das pautas. O último boletim epidemiológico de HIV e aids, do Ministério da Saúde, indica que 920 mil pessoas vivem com HIV no Brasil – um número relevante, mas que por conta do preconceito não é tão abordado no mundo corporativo.

“É uma doença que precisa dessa atenção da não discriminação e por isso vem um pouco para o mundo da diversidade e inclusão – ou deveria vir. É muito raro ter programas de diversidade e ações nas empresas que lidam com isso”, diz Reinaldo Bulgarelli, secretário-executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+.

O Fórum é um dos responsáveis, ao lado de Unaids, AHF Brasil e Tauil & Chequer Advogados, pela elaboração da cartilha “Direito de Profissionais que vivem com HIV/AIDS”, lançada neste ano para orientar pessoas que vivem com HIV sobre direitos garantidos pela Constituição (leia mais abaixo).

Reinaldo explica que, se nos anos 1990 e 2000 existia uma articulação maior das empresas com relação a HIV e aids, isso se perdeu com o tempo – e por isso hoje é preciso voltar a focar no tema. “A gente ainda tem muitas situações de discriminação, além de um abandono de olhar. Você tem empresas que estão lidando com isso, mas dá para dizer que a grande maioria deixou ou abandonou.”

Para Lua Mansano, mulher travesti que vive com HIV, graduada em Comércio Exterior e atualmente trabalhando no segmento de produção cultural, ser soropositiva desperta menos compaixão do que outras doenças. “Todo mundo tem dó de quem tem câncer. Com o HIV, as pessoas têm nojo. Nojo mesmo.”

Reinaldo explica que, ao trabalhar a temática no meio corporativo por meio do Fórum, sente que é preciso envolver a área da medicina do trabalho, pois, para pessoas que vivem com o HIV, o exame médico admissional pode ser um momento doloroso.

“Eu sempre me senti coagida quando me perguntam (na admissão) se eu tenho alguma doença. Eu tenho medo de falar que sou positiva e o recrutador falar que eu não sou capaz de completar a vaga. Isso tudo é por causa do estigma. É uma dor imensa”, relata Lua.

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Perda de fonte de renda ou emprego
Segundo o Índice de Estigma 2019 Brasil, 64,1% dos entrevistados disseram já ter sofrido alguma discriminac¸a~o pelo fato de viverem com HIV ou aids. Outras formas de discriminação também foram mapeadas pela pesquisa, como asse´dio verbal (25,3%), perda de fonte de renda ou emprego (19,6%) e agresso~es fi´sicas (6%).

“Outro dado preocupante indica que 13,3% tiveram a natureza de seu trabalho alterada ou uma promoção negada. Em função do estigma, o índice mostrou que 19% das pessoas nem se candidatavam a uma vaga; 7% foram forçadas a fazer um teste de HIV ou revelar seu estado para candidatar-se a um emprego ou se aposentar. Existe realmente um impacto social e uma barreira para conseguir e manter esse emprego. São situações inaceitáveis e ilegais”, pontua Claudia Velasquez, diretora e representante do Unaids no Brasil.

Lua conta que, até seu último emprego, não tinha coragem de falar sobre o HIV. “As violências ficavam nas outras esferas da minha vida (pelo fato de ser travesti). Agora, entendo que, se eu falar sobre HIV, é uma escolha minha. E se alguém expuser minha sorologia, eu posso denunciar essa pessoa, posso rever meus direitos.”

Direito garantido por lei

Esses direitos são explicitados na cartilha “Direito de Profissionais que vivem com HIV/AIDS” ( para acessar), que traz a apresentação de conceitos básicos, além de leis que dão suporte com relação ao mercado de trabalho, com explicações e exemplos didáticos. Por exemplo, ao tratar a obrigatoriedade de informar o diagnóstico de HIV positivo para a empresa e para o plano de saúde: segundo o documento, a pessoa que conheça a sua sorologia ao contratar o plano deve informar à operadora no momento da contratação para viabilizar o acesso a exames e a tratamento médico de forma geral, pois o sigilo deve ser garantido. Ao mesmo tempo, essa obrigação não existe com a empresa contratante.

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“Essa cartilha também serve como referência para as empresas que querem estar atentas e cumprem seu papel como empregadoras, sendo responsáveis por um ambiente de trabalho inclusivo e livre de discriminação”, completa Claudia.

Para além do básico previsto na Constituição, como não deixar de contratar uma pessoa por viver com HIV ou não demiti-la por isso, Reinaldo Bulgarelli aponta a importância do cuidado. “O inimigo é a discriminação das pessoas. Trate com dignidade, respeite as pessoas. Isso é ação afirmativa, equidade, porque eu estou considerando diferença e desigualdade. Uma empresa que não sabe lidar com seus colaboradores está errada.”

Lua defende a discussão do tema como questão mais ampla, não de nicho. “O HIV tem que ser desestigmatizado, ser pauta na diversidade. Eu tenho uma frustração porque não existe representatividade nesse meio (de grupos de diversidade nas empresas) e essa foi uma das coisas que me levaram a fazer um curso sobre diversidade e inclusão nas organizações. O HIV é uma questão de saúde pública, não de nicho. Saber que tem uma pessoa com HIV falando nesses ambientes vai desencadear outras falas”, conta ela, que faz o Programa Avançado em Diversidade nas Organizações 2021, da Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial).

Reinaldo completa que outro ponto a ser observado é a saúde mental das pessoas soropositivas. “É preciso compreender tudo o que ela passou na vida. Isso não quer dizer aceitar violências, agressões ou desaforos. Mas estar em um ambiente protegido, onde a pessoa pode falar e ser orientada também.”

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Para Lua, a saúde mental também é um dos pontos de destaque e marcou sua trajetória no mercado de trabalho. “Eu descobri o HIV em março de 2019. Não falei para a empresa, mas eu estava muito abalada emocionalmente. Não estava conseguindo focar no trabalho. Então me demitiram por performance.”

A diferença entre HIV e aids

Para orientar a população sobre termos e conceitos, a Unaids produziu um Guia de Terminologia sobre HIV/aids, que pode ser acessado neste link.

“A linguagem é importante porque frequentemente muda as crenças e influencia comportamentos. Ao falar sobre HIV e aids, certas palavras e expressões podem ter um impacto extremamente negativo e até mesmo fomentar comportamentos individuais e sociais que põem em risco a integridade física e psicológica das pessoas vivendo com HIV e aids”, explica Claudia Velasquez.

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No guia, há explicações como a diferença entre HIV e AIDs. O HIV é o diagnóstico da doença, que pode ser positivo ou não. Já o termo aids é usado para descrever uma síndrome de infecções e doenças que podem se desenvolver à medida que a imunossupressão aumenta durante a evolução da infecção pelo HIV (da infecção aguda até a morte).

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O termo aidético, por exemplo, não deve ser usado em nenhuma circunstância. A palavra não só é ofensiva como também reforça estigmas. A recomendação dos especialistas é que utilizem expressões como “pessoa vivendo com HIV”, HIV positiva ou positiva.

“Colocar a gente no lugar de aidético dói. Falar de aids dói, porque é uma condição de imunossupressão total, não é o HIV. É como se você tivesse, entre aspas, um tumor benigno e falassem que é maligno. Bem entre aspas, porque até o maligno você pode recuperar. Com aids, têm histórias de muitas pessoas que ficaram mal, mas conseguiram se recuperar”, confidencia Lua.

Reinaldo reforça que isso não é um aspecto de superficialidade e que a linguagem pode nos ajudar a construir realidades diferentes. “É isso o que significa o cuidado com as palavras, com os conceitos. Isso muda com o tempo, um dia esses termos foram usados até mesmo pela comunidade LGBTI+. Depois, a própria comunidade foi ajudando a formular termos melhores.”

Estadão Conteúdo








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