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Saúde

Entrar cedo na menopausa pode afetar envelhecimento do cérebro, indica estudo

A pesquisa acompanhou 2.603 mulheres por até 18 anos e encontrou associação entre a idade da menopausa e as mudanças

Redação Jornal de Brasília

12/09/2026 9h28

A ginecologista e coordenadora do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro, Maria Cândida Bacarat, dá mais detalhes sobre o assunto

Foto/Reprodução

LUÍS EDUARDO DE SOUSA
CAMPINAS, SP (FOLHAPRESS)

Mulheres que entram na menopausa mais cedo podem apresentar uma trajetória menos favorável de envelhecimento cerebral décadas depois. É o que sugere um estudo publicado na Jama Network Open em agosto. A pesquisa acompanhou 2.603 mulheres por até 18 anos e encontrou associação entre a idade da menopausa e mudanças na estrutura e na função do cérebro.

O principal achado apareceu nas chamadas hiperintensidades da substância branca, pequenas áreas que ficam mais claras em exames de ressonância magnética. Entre as mulheres que passaram pela menopausa espontânea -quando ocorre naturalmente, e não é provocada por tratamentos ou procedimentos cirúrgicos-, uma diferença de cinco anos na idade em que ela ocorreu é associada a cerca de 15% mais volume dessas alterações ao longo de uma década.

A substância branca é formada principalmente por fibras nervosas que conectam diferentes regiões do cérebro. Essas conexões permitem que as áreas cerebrais troquem informações e participam de funções como memória, atenção e movimento.

Com o envelhecimento, é comum que apareçam hiperintensidades da substância branca. Elas podem estar relacionadas a alterações nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro e a danos nas fibras nervosas.

Não significam, isoladamente, que uma pessoa tenha demência ou que desenvolverá Alzheimer.

A importância está na quantidade e na evolução dessas alterações. Um volume maior de hiperintensidades e seu acúmulo ao longo dos anos estão associados a uma pior saúde cerebral e podem acompanhar problemas cognitivos e de memória, além de outras manifestações neurológicas.

No estudo, quanto mais cedo ocorreu a menopausa espontânea, maior foi a velocidade de acúmulo dessas alterações. A associação se manteve mesmo depois que os pesquisadores consideraram fatores como idade, escolaridade, pressão arterial, índice de massa corporal e outros aspectos de saúde.

Além das imagens cerebrais, os pesquisadores avaliaram o desempenho cognitivo das participantes. Mulheres que haviam passado pela menopausa mais cedo apresentaram declínio mais acelerado da cognição global e, especialmente, da memória episódica, usada para recordar acontecimentos e experiências pessoais.

Também houve associação com a idade do diagnóstico da doença de Alzheimer. Segundo o modelo utilizado, uma diferença de dez anos na idade da menopausa esteve associada a cerca de 1,8 ano a menos até o diagnóstico da doença. A idade média de diagnóstico de Alzheimer entre as participantes foi de 88,4 anos.

O resultado, porém, não significa que a menopausa precoce provoque Alzheimer. O trabalho é observacional e identifica associações entre características que ocorreram ao longo do tempo. Os autores ressaltam que não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito.

Uma possibilidade levantada é a influência do estrogênio. Durante a menopausa, os ovários reduzem progressivamente a produção do hormônio, que participa de processos relacionados ao funcionamento cerebral, ao metabolismo energético e à regulação da inflamação. A queda hormonal poderia, em tese, contribuir para alterações na trajetória de envelhecimento do cérebro.

Mas essa não é a única explicação possível. Também considera-se a hipótese de que um processo de envelhecimento biológico mais acelerado possa estar por trás tanto da menopausa em idade mais precoce quanto de alterações cerebrais posteriores.

Para chegar aos resultados, os autores combinaram dados do Religious Orders Study e do Rush Memory and Aging Project, duas pesquisas de longo prazo sobre envelhecimento e cognição. Das 2.603 mulheres incluídas na análise, 774 fizeram exames de ressonância magnética repetidos, permitindo observar como a estrutura cerebral mudou ao longo do acompanhamento.

As participantes foram divididas entre aquelas que tiveram menopausa espontânea e as que passaram por menopausa cirúrgica. O estudo encontrou algumas diferenças entre os grupos. A relação entre idade mais precoce da menopausa e acúmulo de hiperintensidades da substância branca foi particularmente evidente entre as mulheres com menopausa espontânea.

Já as associações com declínio cognitivo e com o tempo até o diagnóstico de Alzheimer foram mais pronunciadas entre as mulheres que haviam passado por menopausa cirúrgica.

Os autores afirmam que os resultados reforçam a necessidade de compreender melhor a relação entre a transição hormonal da menopausa e o envelhecimento cerebral. O estudo, contudo, não permite concluir se retardar a menopausa ou modificar os níveis de estrogênio poderia evitar as alterações observadas.

Além disso, a pesquisa tem limitações. A idade da menopausa foi informada pelas próprias participantes, e a população analisada tinha características demográficas que podem limitar a aplicação dos resultados a mulheres de outros grupos. Como se trata de uma coorte observacional, também não é possível descartar completamente outros fatores que possam explicar parte das associações encontradas.

O achado, portanto, não aponta para uma relação direta entre menopausa precoce e demência, mas acrescenta uma peça à compreensão de como a idade em que ocorre a transição reprodutiva pode estar relacionada à trajetória de envelhecimento do cérebro.

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