JOÃO GABRIL, LUÍSA MARTINS, ANA POMPEU, RAQUEL LOPES, NATHALIA GARCIA, RAPHAEL DI CUNTO, ISADORA ALBERNAZ, ANNA JÚLIA LOPES E LAURA INTRIERI
BRASÍLIA, DF E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A retirada do sigilo de parte das investigações do caso do Banco Master abriu uma nova frente de embates entre ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) em meio à tentativa do presidente da corte, Edson Fachin, de estancar a crise sem precedentes na cúpula do Judiciário.
O ministro André Mendonça começou a tornar públicos 15 dos inquéritos na noite de quinta-feira (10), após pedido de Fachin, mas ainda manteve outros sob segredo, com a justificativa de ser imprescindível para não atrapalhar as próximas etapas das investigações.
O conteúdo divulgado confirmou a condição de investigado de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, apontado pela Polícia Federal como interlocutor direto do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, na negociação de dinheiro para o filme “Dark Horse”, que conta a história de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O material serviu de munição para a campanha do presidente Lula (PT).
A retirada apenas parcial dos sigilos, no entanto, levou outros ministros do STF a cobrar Mendonça e a acusá-lo de seletividade.
Instado pela PGR (Procuradoria-Geral da República), Fachin estipulou nesta sexta (11) um prazo de 24 horas para o colega divulgar todo o material. No início da noite, Mendonça tornou públicos 38 procedimentos que tratam da apuração sobre fraudes cometidas por Vorcaro e desdobramentos, mas a totalidade existente de inquéritos relacionados ao caso ainda é desconhecida.
Entre os processos com retirada de sigilo estão os que se referem ao “Dark Horse”, que envolve Flávio, e outros que atingem políticos como o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL) e os senadores Jaques Wagner (PT-BA) e Ciro Nogueira (PP-PI).
Um dos que fez coro contra Mendonça foi Alexandre de Moraes, em um momento no qual os dois são pivôs da maior crise da história recente do Supremo.
No início de setembro, mensagens do celular de Vorcaro mostraram que Moraes manteve contato com Vorcaro até o dia da prisão do ex-banqueiro, que questionou o magistrado sobre o andamento da investigação contra o Master e se devia fugir do país. O relatório com essas informações foi produzido pela Polícia Federal a pedido de Mendonça, que o tornou público na ocasião.
Moraes reagiu, pedindo uma investigação contra seu colega. A tensão escalou, Fachin interveio e determinou a derrubada do sigilo dos processos, com exceção do material que pudesse comprometer o andamento das apurações policiais. Foi obedecendo a essa ordem que Mendonça publicou na quinta a íntegra de 14 procedimentos, além do principal, que deu origem aos demais.
Grande parte dessas informações, porém, já havia sido revelada anteriormente por vazamentos à imprensa ou por relatórios tornados públicos nas investigações.
Moraes criticou a decisão. Afirmou que Mendonça, “diretamente interessado no julgamento”, escolheu “subjetivamente o levantamento do sigilo, tornando público somente o que entendeu conveniente”, mantendo a confidencialidade de ao menos 180 documentos.
Dentre os documentos tornados públicos pelo relator estava a íntegra do contrato firmado entre Vorcaro e Viviane Barci de Moraes, esposa de Moraes.
A Procuradoria-Geral da República também pediu que a quebra de sigilo fosse ampliada. Já Cristiano Zanin solicitou acesso ao bruto do celular do ex-banqueiro, foi rebatido por Mendonça e, depois, reiterou sua demanda -tudo durante esta sexta.
Há uma sessão do plenário do Supremo marcada para a próxima terça (15) para julgar o caso das conversas entre Moraes e Vorcaro, mas há pressão para que a pauta seja ampliada.
O decano Gilmar Mendes, por exemplo, solicitou que Fachin assuma também a investigação contra Mendonça e sugeriu adiar o julgamento.
O fim do sigilo sobre toda a investigação havia sido defendido por Lula e também foi defendido nesta sexta por Flávio.
Os documentos liberados inicialmente por Mendonça mostram que o relator aceitou, em julho, um pedido da PF e tornou o candidato do PL à Presidência investigado por pedir que Vorcaro financiasse o “Dark Horse”. A polícia apura a “possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos”.
“Para mim, a melhor coisa que pode acontecer é a transparência total sobre esse assunto. Porque vão só confirmar o que eu sempre falei, que não tem nada de errado em relação ao filme”, disse Flávio, após os documentos virem a público.
A suspeita é de que parte dos recursos tenha sido destinada para bancar a estadia de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio e ex-deputado federal, nos Estados Unidos.
Além de um possível encontro presencial entre os dois, a PF aponta ainda que o senador era “interlocutor direto” de Vorcaro e fez “reiteradas cobranças” para que o ex-banqueiro investisse no filme.
Como revelou o site The Intercept, Flávio negociou diretamente com Vorcaro o financiamento de pelo menos US$ 24 milhões (hoje, aproximadamente R$ 122,7 milhões) para a produção do filme. Desse montante, foram pagos efetivamente pelo menos US$ 12,3 milhões (hoje, cerca de R$ 62,9 milhões), segundo documentos da investigação noticiados pela revista piauí.
A PF também diz que as mensagens indicam que Eduardo Bolsonaro dava “orientações sobre a forma pela qual os recursos poderiam ser geridos nos Estados Unidos”.
A administração dos recursos seria feita por meio do fundo Havengate, que é ligado a Paulo Calixto, advogado de Eduardo.
A avaliação da PF é de que as informações “constituem, em juízo de cognição sumária, um conjunto coerente de elementos que evidencia justa causa para a instauração da investigação, a fim de esclarecer a origem, o trânsito, a destinação e os beneficiários finais dos valores movimentados”.
Os documentos, cujo teor foi tornado público por Mendonça, também mostram detalhes da atuação de Vorcaro.
Por exemplo, que ele bancou viagens e jantares internacionais para dois servidores do Banco Central acusados de atuar para favorecer o Master: custeou, por exemplo, parte da ida do ex-chefe de Supervisão Bancária Belline Santana, junto com a esposa, para Paris.
Procurada, a defesa de Belline não respondeu. Em ocasiões anteriores, negou influência do ex-banqueiro em sua atuação.
A PF aponta ainda que Vorcaro classificava o ex-diretor de fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, como “um anjo da vida” e pagou para ele uma viagem à Disney, nos Estados Unidos.
Em outro momento, pediu que Paulo Sérgio tentasse impedir mudanças nas regras envolvendo investimentos feitos por fundos de previdência e que afetariam o Master.
Procurada, a defesa de Paulo Sérgio afirmou que ele custeou integralmente passagens, hospedagem, ingressos e despesas durante a viagem com a família. Sobre a alteração que poderia afetar o banco, disse que a PF interpretou errado o processo de supervisão que ele exercia como se fosse um “serviço de consultoria informal”.
A Polícia Federal também indica que o ex-banqueiro tinha conhecimento antecipado de que seria alvo da operação que resultou em sua prisão. Ele foi preso na noite de 17 de novembro de 2025, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta.
Para os investigadores, uma sequência de mensagens, anotações e movimentações encontradas no celular do ex-banqueiro revela que informações sigilosas sobre a investigação chegaram até ele nas semanas anteriores à ação policial.