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Rede bolsonarista faz ofensiva digital contra STF e mira ministro Barroso

Considerado um “ponto de inflexão”, o post do STF afirma que “uma mentira contada mil vezes não vira verdade”

O ministro Roberto Barroso, durante sessão de julgamento sobre limite para compartilhamento de dados fiscais

A prática de criticar decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) se intensificou nos últimos dias na rede bolsonarista. Aliados e o próprio presidente Jair Bolsonaro subiram o tom contra a Corte desde 28 de julho, quando a conta oficial do STF desmentiu mais uma vez ter impedido ações do governo federal no combate à pandemia do novo coronavírus. Na última semana, de acordo com análise de dados feita pela consultoria Bites, houve 3,63 milhões de menções no Twitter a questões envolvendo a atuação da gestão Bolsonaro na crise sanitária e alegações de fraudes em urnas eletrônicas.

Considerado um “ponto de inflexão”, o post do STF afirma que “uma mentira contada mil vezes não vira verdade”. Trata-se de uma adaptação da clássica frase de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do nazista Adolf Hitler. Ao fazer a comparação, a Corte destacou a decisão tomada em abril de 2020, que definiu a função do governo federal, dos Estados e municípios no combate à pandemia. “É falso que o Supremo tenha tirado poderes do presidente da República de atuar na pandemia”, afirma a publicação, acompanhada de um vídeo.

A resposta foi imediata. Em uma sequência de tuítes no dia 29, Bolsonaro insiste em dizer que o “STF delegou poderes para que Estados e municípios fechassem o comércio, decretassem lockdown, fechassem igrejas, prendessem homens e mulheres em praças públicas ou praias e realizassem toque de recolher”. Também diz que sua gestão, por diversas vezes, foi ao STF para que decretos de governadores que violavam as liberdades individuais fossem declarados inconstitucionais. “Lamentavelmente estas ações sequer foram analisadas”, ressaltou.

Ainda no dia 29, uma live transmitida pelo presidente em suas redes para tratar sobre voto impresso manteve e até aumentou o interesse pelo tema STF nas redes. A promessa de apresentar provas de fraudes nas eleições realizadas com urnas eletrônicas não se concretizou (apenas fake news antigas foram apresentadas), mas aliados conseguiram novo pico de menções, ampliado no dia 1º de agosto, quando foram realizadas manifestações em várias cidades do País em favor da mudança.

O tema “voto impresso” ampliou na bolha bolsonarista as críticas pessoais ao ministro Luís Roberto Barroso, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e desencadeou uma espécie de duelo nas redes, intensificado após a decisão do órgão de abrir inquérito para investigar o presidente por acusações infundadas contra as urnas eletrônicas, além de condicionar a realização das eleições de 2022 ao voto impresso.

Em um vídeo publicado nesta terça, 3, Bolsonaro voltou a defender a impressão do voto e afirmou que sua “luta não é contra o TSE ou STF, mas contra uma pessoa apenas: ministro Luís Barroso, que, segundo ele, “se arvora como o dono da verdade”. A apoiadores que se reúnem em frente ao Palácio da Alvorada, o presidente disse ainda que “não aceitará intimidações” e que não permitirá que se viole a Constituição e sugeriu que exista um “complô” para eleger o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022.

Diante da ofensiva digital do próprio presidente, perfis de influenciadores bolsonaristas também têm feito ataques aos ministros do STF e à Corte, alcançando apoio e compartilhamento entre seus seguidores. “Ao refinar a busca apenas para termos ligados aos ministros do Supremo, é possível observar que a curva de menções segue o mesmo padrão, com picos nos dias 29 de julho e 1º de agosto, com 1,9 milhão de menções nos últimos sete dias”, diz o diretor-adjunto da Bites, André Eler. Antes desse período, a média de menções aos mesmos termos ficava abaixo de 100 mil menções por dia.

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Família e bancada unidas

As contas dos filhos do presidente têm papel fundamental em movimentar a rede aliada. Do dia 28 pra cá, aumentaram significativamente as menções da família Bolsonaro ao STF, TSE e aos ministros Alexandre de Moraes ou Luís Roberto Barroso – ambos viraram alvos e passaram a ser mencionados de forma pessoal. Segundo levantamento, foram 19 críticas, respostas, cobranças ou ataques publicados pelo presidente, pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) ou pelo vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos) nos últimos sete dias.

Na bancada bolsonarista, considerando 53 deputados e senadores alinhados ao governo, o número de menções também deu um salto. A Bites diz que antes do dia 28 de julho, a média desse grupo era de 90 menções por semana a instituições como o STF e o TSE. Desde o dia 28, foram 201 citações, repercutindo, em sua maioria, os ataques feitos pela família Bolsonaro.

Estadão Conteúdo

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