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Pesquisa mostra que parlamentares ‘se preocupam’ com agenda climática, mas não priorizam tema

Entre os congressistas entrevistados, 94% se dizem interessados pelo tema do meio ambiente; pouco mais da metade de congressistas apoiadores do governo entendem que o problema da mudança do clima é muito sério

Por Agência Estado 23/09/2021 8h57
Foto: Alfredo Pedrosa

Pergunte a um parlamentar do Senado ou da Câmara o que ele pensa sobre as mudanças climáticas e a importância de discutir uma agenda ambiental positiva ao País. A resposta geral será de que se trata de um tema relevante, que deve ter o tratamento de outros assuntos prioritários, como a economia. Todas essas afirmações, porém, caem por terra quando se trata da emergência climática e a necessidade de que medidas práticas sejam tomadas no curto prazo.

O descolamento entre o discurso e a prática dos congressistas sobre as questões do clima e sua agenda ambiental acaba de ser medido por uma pesquisa inédita. O estudo “A agenda do clima no Congresso Nacional: uma pesquisa sobre a percepção dos parlamentares brasileiros” é uma iniciativa da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps). As análises feitas pela Fundação Getulio Vargas tiveram o apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS).

Para fazer o levantamento, foram entrevistados 114 deputados e 17 senadores, além de 28 assessores parlamentares de mais 23 deputados e de cinco senadores que representaram a opinião dos congressistas. A pesquisa contatou 487 deputados federais e 69 senadores, mas conseguiu concluir 159 entrevistas, as quais foram realizadas entre 25 de fevereiro e 26 de maio deste ano. Não houve nenhum tipo de preferência por vinculação partidária ou ideológica.

De maneira geral, os resultados mostram que a maioria do Legislativo reconhece a relevância do assunto para o País. Entre os entrevistados, 94% se dizem interessados pelo tema do meio ambiente. Outros 98% acreditam que não deve haver um dilema entre o crescimento econômico e a conservação ambiental, um falso paradoxo que costuma pautar o posicionamento do governo Bolsonaro, que sempre aponta o respeito ambiental como um obstáculo a ser vencido.

A postura do governo em relação a questões climáticas encontra amparo na base aliada do Congresso. Ao serem abordados sobre o interesse na pauta ambiental, apenas 42% dos congressistas da base de apoio do Executivo confirmaram ter muito interesse sobre o assunto, média que sobe para 68% dos parlamentares da oposição.

Em outra frente, 86% dos congressistas da oposição entendem que o problema das mudanças climáticas é muito sério, enquanto esse índice cai para 52% entre aqueles que apoiam o governo.

Mônica Sodré, diretora executiva da RAPS, afirma que, apesar da atenção dada ao assunto pela maioria dos parlamentares, isso não se traduz efetivamente em uma percepção de que o Brasil e o mundo viva uma emergência climática, o que poderia levar a ações efetivas dentro do Legislativo sobre o tema.

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Ao expor os parlamentares a um conjunto de perguntas ranqueadas de zero a um – sendo zero nenhuma emergência e um total emergência – o índice geral ficou em apenas 0,59 ponto. Se for considerado especificamente a opinião dos governistas, esse índice cai para 0,49 ponto.

“De forma geral, os dados mostram que, embora já vivamos em um estado de emergência climática, temos um Congresso em estado de letargia climática”, diz Sodré. “Conhecemos a gravidade do que estamos vivendo, mas o parlamento não está lidando com a gravidade do problema como deveria.”

O Brasil é hoje o quinto maior emissor mundial de gases de efeito estufa. Diferentemente de outros países, boa parte de suas emissões (em torno de 44%,) tem relação direta com mudanças no uso da terra. O desmatamento, sozinho, é responsável por 94% dessas emissões e a maior parte, cerca de 87%, ocorre na Amazônia. Paralelamente, mais da metade do desmatamento na região amazônica tem ocorrido em terras públicas, formadas por unidades de conservação, terras indígenas e florestas não destinadas pela União.

Análise de discurso. O levantamento também tratou de analisar o conteúdo dos discursos feitos pelos parlamentares e as menções feitas sobre as mudanças climáticas e a agenda ambiental. Ao todo, os resultados sintetizam 1.472 discursos (6,3% do total) proferidos por 262 deputados de 28 legendas distintas e das 27 unidades da federação. O período avaliado foi o de 1 de janeiro de 2019 a 31 de julho de 2021. A análise se deu a partir da busca de palavras relacionadas aos assuntos na indexação realizada pelo Departamento de Taquigrafia, Revisão e Redação (Detaq) da Câmara.

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O resultado mostra que houve mais discursos com menções a termos relacionados à agenda do clima e ao meio ambiente no segundo semestre de 2019, quando o Executivo criticou os dados sobre desmatamento e queimadas na Amazônia detectados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Outro momento de mais citações se concentra em junho de 2021, quando ocorre a exoneração do então Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mobilizando pronunciamentos em plenário.

O PT se destaca como o partido com mais discursos (460) sobre o tema, seguido pelo PSOL (86) e pelo PSB (85). O PSL aparece em quarto lugar (62 discursos). Se considerados os discursos com menção ao meio ambiente frente ao total de pronunciamentos feitos por cada partido, a incidência PH, antes de ser incorporado pelo Podemos em 2019, é de 12,5% do total, seguido por Rede (7,5%) e PT (7,3%). No caso do PSL, o índice é de apenas 2,5%.

O clima entre oposição e bolsonaristas
Atenção a questões climáticas e agenda ambiental está mais concentrada entre parlamentares de oposição ao governo

94% dos parlamentares se dizem interessados pelo tema do meio ambiente, sendo 49% muito interessados e 45% interessados

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98% dos parlamentares acreditam que não deve haver um dilema entre o crescimento econômico e a conservação ambiental

68% dos parlamentares da oposição estão muito interessados na pauta ambiental, contra 42% dos congressistas da base de apoio ao governo

60% dos parlamentares dizem que seus eleitores estão interessados no tema, mas só 15% avaliam que esse interesse é grande

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86% dos parlamentares da oposição entendem que o problema das mudanças climáticas é muito sério, enquanto esse índice cai para 52% entre aqueles que apoiam o governo.

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Fonte: Organização Rede de Ação Política pela Sustentabilidade – RAPS, em parceria com Fundação Getulio Vargas (Cepesp/FGV) e apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS). Dados coletados junto a 114 deputados e 17 senadores, além de 23 assessores diretos de deputados federais e cinco de senadores, totalizando 159 entrevistas, entre 25 de fevereiro e 26 de maio de 2021








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