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Política & Poder

Pastores evangélicos destoam de parlamentares e apoiam Messias em STF de maioria católica

Messias passará por sabatina no Senado na quarta-feira (29). Se aprovado, vai ser o segundo evangélico atualmente na corte, ao lado de André Mendonça

Redação Jornal de Brasília

28/04/2026 7h10

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

ANA GABRIELA OLIVEIRA LIMA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Lideranças evangélicas dizem apoiar a nomeação de Jorge Messias ao STF (Supremo Tribunal Federal) e afirmam que a resistência no segmento em relação ao nome vem mais de religiosos com mandato.

Divididos entre os mais ou menos entusiastas, eles afirmam ser positivo que mais um evangélico chegue ao tribunal, que é majoritariamente católico, defendem a prerrogativa do presidente Lula (PT) de fazer a nomeação e citam qualidades de Messias, fazendo referência à trajetória dele na religião.

Messias passará por sabatina no Senado na quarta-feira (29). Se aprovado, vai ser o segundo evangélico atualmente na corte, ao lado de André Mendonça. A indicação ainda enfrenta resistência na bancada evangélica e já foi alvo de críticas de religiosos com mandato no Congresso, como os deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Marco Feliciano (PL-SP).

Os dez atuais ministros do STF foram questionados pela Folha em novembro sobre suas religiões, e apenas Mendonça se identificou como evangélico. Luiz Fux disse que é judeu. Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Flávio Dino se declararam católicos, e Kassio Nunes Marques afirmou ser cristão com formação católica. Cristiano Zanin e Cármen Lúcia não responderam à reportagem na época, mas já haviam afirmado anteriormente serem católicos.

Aliado de Jair Bolsonaro (PL) e sem mandato, o pastor Silas Malafaia, presidente da ADVEC (Assembleia de Deus Vitória em Cristo), é um dos que mais criticam Messias, embora também não se contraponha à indicação.

Ele chama o advogado-geral da União de “esquerdopata gospel” e afirma ser “diametralmente oposto” a ele, mas diz que seria uma incoerência ser contrário à nomeação.

“Se é prerrogativa de Bolsonaro indicar Kassio [Nunes Marques] e André Mendonça, é prerrogativa de Lula [indicar Messias]. Isso é um direito, é uma prerrogativa do presidente indicar”, afirmou Malafaia à Folha.

O apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Igreja Renascer em Cristo e presidente internacional da Marcha para Jesus no Brasil, diz achar excelente a indicação.

“Dentro do quadro atual, eu creio que ele é a pessoa que tem nossos valores. Creio que ele realmente é uma pessoa cristã e temente a Deus. Existem controvérsias, mas pessoalmente acho o melhor”, afirma Hernandes.

O apóstolo César Augusto, fundador da Igreja Fonte da Vida, que, segundo ele, tem mais de 700 templos no Brasil, diz que Messias tem duas posições fundamentais que o credenciam como representante dos evangélicos.

A primeira, afirma, é ter “Jesus Cristo como único salvador e como senhor da vida dele”. A segunda é crer na “Bíblia como a palavra de Deus”, diz. “Isso eu ouvi da boca dele, conversando com ele. Para mim, com relação a ser evangélico, essas duas coisas são fundamentais”. César Augusto também argumenta que o nome escolhido por Lula deve ser respeitado.

Ele diz desconhecer grandes lideranças do meio evangélico, sem mandato, que estejam se manifestando publicamente contra a indicação. “Todos que eu conheço basicamente apoiam essa indicação”, afirma.

“Para mim, é uma alegria tê-lo como ministro do Supremo. É mais um que vai nos ajudar nas nossas pautas.”

O bispo Robson Rodovalho elogia Messias, que diz conhecer pessoalmente. “Ele é um excelente advogado, competente. Tem uma história de muito estudo, dedicação e trabalho. É uma pessoa de caráter e, acima de tudo, um cristão muito comprometido”, afirma o fundador da Igreja Sara Nossa Terra, que, segundo ele, tem mais de 1.200 igrejas e núcleos no Brasil e no exterior.

Ressalvas, na interpretação de Rodovalho, seriam o fato de Messias ter optado “por uma ideologia à esquerda, diferente de praticamente todo o nosso segmento”, e ter dado, na AGU, parecer contra uma norma do CFM (Conselho Federal de Medicina) que vetava o aborto em alguns casos.

Para o bispo, porém, o posicionamento se deu em razão de demandas inerentes ao cargo, não de postura pessoal de Messias. “O que ele pensa pessoalmente destoa bastante da posição que adotou [como AGU].”

Rodovalho diz achar “bom e justo” que Messias seja escolhido, haja vista a falta de representatividade de evangélicos na corte. Afirma que, fora parlamentares, lideranças evangélicas têm no geral se manifestado a favor da indicação.

“Como estão no exercício do mandato, é natural que a posição deles seja diferente”, diz Rodovalho, que também é presidente do Concepab (Conselho Nacional dos Conselhos de Pastores do Brasil).

Segundo Teófilo Hayashi, pastor da Zion e fundador do movimento cristão Dunamis, “não faz sentido esperar que Lula, um ícone da esquerda, indique alguém alinhado à direita”. “Diante disso, resta novamente o exercício de identificar o ‘menos ruim’ entre as opções possíveis. Infelizmente, esse é o Brasil em que vivemos hoje.” Ele diz que poderia haver cenários piores, embora o ideal fosse ter um ministro alinhado à direita.

Para Luis Gustavo Teixeira, professor de ciência política da Unipampa (Universidade Federal do Pampa) e pesquisador associado ao Núcleo de Estudos da Religião do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), há setores do segmento evangélico entusiasmados com o fato de haver mais um representante no Supremo.

“Por outro lado, há um setor que vê Messias como fiel, antes de tudo, às agendas de segmentos mais à esquerda. Isso vai de algum modo atrair a oposição plena de algumas lideranças mais conservadoras e alinhadas ao bolsonarismo, que veem em qualquer indicação do Lula algo nefasto e nocivo”, diz Teixeira.

O especialista questiona se essa oposição não vem mais da política, a partir de parlamentares, do que de interesses fora do Congresso. “A grande crítica à nomeação de Jorge Messias ao STF advém de lideranças religiosas portadoras de mandato e bastante vinculadas ao bolsonarismo”, afirma.

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