VINICIUS SASSINE
MATUPÁ, MT (FOLHAPRESS)
Matupá é uma cidade com pouco mais de 20 mil moradores, no norte de Mato Grosso, onde praticamente tudo gira em torno da soja, do milho e do mercado agropecuário. A região é um corredor de grãos, por onde passam no período da safra, todos os dias, entre 2.000 e 3.000 caminhões.
É um lugar com predominância do bolsonarismo, como todas as cidades que estão na linha da BR-163, a rodovia que permitiu a explosão da soja e a degradação da floresta amazônica que remanesce no Centro-Oeste brasileiro. Para o mesmo traçado da rodovia existe um projeto de ferrovia, a Ferrogrão, com 933 km.
Foi para essa cidade que a família de Lourisvan Gondin Viana, 23, mudou-se definitivamente há 12 anos, saída do interior do Maranhão.
A imersão no mundo da soja sempre como empregados de empresas de médio porte que revendem produtos agrícolas a uma grande firma de commodities e sementes levou a uma mudança na hora do voto.
Lourisvan diz que a mãe e o padrasto já não votam mais no presidente Lula (PT). O jovem afirma que escolheu Flávio Bolsonaro (PL) na primeira votação e vai repetir o voto no segundo turno da disputa presidencial deste ano.
“Votei em Bolsonaro em 2022. Sei que Flávio não é o pai dele, que tem o nome forte por causa do pai. Mas vou dar um voto de confiança, pois ele pode dar continuidade [ao que foi o governo de Jair Bolsonaro]”, diz.
Em 2022, Bolsonaro teve 69,59% dos votos válidos no primeiro turno em Matupá. No segundo turno, ampliou essa proporção para 74,17% dos votos.
O filho avançou ainda mais na cidade, no primeiro turno no último dia 4. Teve 77,58% dos votos válidos, ante 18,58% de Lula. Essa mesma dinâmica de predominância e crescimento do bolsonarismo foi verificada em todas as cidades que estão na linha da BR-163.
Lourisvan nasceu em Arame (MA), outra cidade pequena, com 25 mil habitantes. Os pais se mudaram primeiro para Peixoto de Azevedo (MT), município bem próximo de Matupá e que segue a mesma lógica da soja e da rodovia. A irmã mais nova de Lourisvan, de 21 anos, nasceu em Matupá.
A mãe se separou do pai. Com um novo companheiro e os filhos pequenos, mudou-se de vez para Matupá.
Antes, ainda no Maranhão, ela trabalhou como cozinheira numa frente de exploração de madeira e morou em um assentamento.
“O trabalho no Maranhão é muito difícil. Lá eles exploram muito a mão de obra e ganha-se muito pouco”, diz Lourisvan. “Eu passava a tarde toda vendendo pastel com a minha tia para ganhar R$ 2 por dia.”
A mudança definitiva para Matupá se deu quando Lourisvan tinha 11 anos. A família passou a morar em uma casa de uma grande empresa de commodities na zona rural, a 18 km da cidade. O padrasto atuava no plantio de soja, na aplicação de agrotóxicos e na manutenção de máquina. A mãe, como cozinheira.
Aos 14 anos, Lourisvan se tornou jovem aprendiz na mesma empresa. Aos 18, foi empregado na área de serviços gerais.
“Eu catava pedra, recolhia o mato no meio da soja e desmanchava cerca”, diz. “Depois de uns meses, passei a ajudar na entrega de produtos, no tratamento de sementes e no barracão de veneno, além de ser monitor de lavoura.”
O contato com o universo da soja levou o jovem a cursar agronomia em uma universidade particular, onde se forma no fim deste ano. Paga R$ 1.600 de mensalidade.
O estudante quer ser produtor rural na região. Até lá, trabalha como vendedor em uma empresa de revenda de insumos agrícolas, como adubo, agrotóxico e sementes.
Lourisvan acredita que é possível ganhar dinheiro como vendedor para então tentar adquirir a terra que permita a ele ingressar no universo de produtores de soja da região de Matupá.
“Precisa ter um pé de meia para entrar”, diz. “Aqui já são terras prontas, o que faz com que as culturas se desenvolvam melhor.”
A compreensão do voto em Bolsonaro em áreas de expansão da soja e de desmatamento e exploração de vastos nacos da amazônia passa pela aversão à maior fiscalização contra crimes ambientais, pela associação da família a valores ditos tradicionais e pela alegação de que Jair e Flávio Bolsonaro apoiam mais o agronegócio do que seus oponentes políticos o PT, em essência.
Lourisvan diz que seu voto se baseia no que vive no cotidiano. Por isso, ignora casos de corrupção atribuídos ao campo da direita, como a destinação de dinheiro de Daniel Vorcaro, o ex-dono do banco Master, à família Bolsonaro a partir de um pedido de Flávio para a produção de uma cinebiografia sobre o ex-presidente.
Já a punição por tentativa de golpe de Estado Bolsonaro recebeu a pena mais alta, 27 anos e três meses de prisão, em julgamento há um ano no STF (Supremo Tribunal Federal) incomoda Lourisvan. “A gente não vê acontecer isso com o lado da esquerda, com os movimentos deles.”
Ele afirma que Lula fez um bom primeiro mandato. Depois, segundo o estudante de agronomia, houve aumento de impostos e casos de corrupção.
“Antes era possível fazer uma boa compra com menos dinheiro. Hoje, o custo de vida está muito alto”, afirma. “Além disso, a direita ajuda o agro. A soja e o milho valiam mais no governo Bolsonaro.”
A referência de Lourisvan passou a ser produtores rurais que ganham dinheiro na região do corredor da soja, em quantias suficientes para a aquisição à vista das safras seguintes.
Em 2027, Lourisvan planeja se casar com a noiva, que trabalha no ramo de maquiagem. “Ela quer trabalhar com estética, e vou ajudá-la com os cursos de capacitação.”
Ele diz que seguirá na revenda de insumos agrícolas e que enxerga futuro em Matupá. “Meu sonho é ser produtor rural. Ninguém mais volta ao Maranhão.”