Decepção, mas acima de tudo, esperança. Quem trabalhou para que a Rede Sustentabilidade fosse viabilizada recebeu a negativa do Tribunal Superior Eleitoral com tristeza, mas ao mesmo tempo, com a certeza de que a mudança virá, seja nas eleições de 2014 ou não. Na militância do partido idealizado por Marina Silva, muitos jovens e a vontade de tentar mudar o País.
A decisão de ingressar no PSB, após um debate que só terminou quase ao raiar do dia de ontem, não foi unânime. Tanto para parte da militância quanto para aliados de fora, caso do deputado federal brasiliense José Antônio Reguffe, não era a melhor saída. Havia quem pretendesse a fusão com o PSOL como defensores da tese de que melhor valia esperar até 2018. Até entre os que apoiaram o ingresso no PSB havia quem dissesse que só aceitava a opção por ser um mal menor.
Esperança
O apoio dos militantes, porém, permanece. Mesmo com a opção por outro partido para ser candidata à presidência – ou à vice – o discurso é praticamente uniforme: o apoio a Marina continua. Apesar de tudo, os militantes têm a convicção de que o partido já está criado, pelo menos no espírito de mobilização e debate político.
Aos 30 anos, a coordenadora de mobilização da Rede Sustentabilidade no Distrito Federal, Joyce Matias, conserva o o rosto pintado em apoio aos protestos do movimento indígena nos últimos dias. Seu trabalho, como gestora comercial, foi inclusive deixado de lado, para o trabalho de coleta de assinaturas e para exercer liderança dentro do diretório do Distrito Federal. “Foi triste o que aconteceu no TSE. Não que a gente só esperasse o sim, mas vimos os ministros com discursos muito vagos”, lamentou.
A inspiração vinda de Marina existe desde o tempo em que era ministra e Joyce não pretende abrir mão dessa opção, nem mesmo com a inviabilização da legenda. “Onde a Marina for, estarei junto”, garantiu. “Ninguém mata a liderança que ela exerce. Continuamos com esperança de que o partido trará mudanças”, disse.
Quem ganha e quem perde
Eduardo Brito
edubrito@jornaldebrasilia.com.br
1 O desafio principal, após a filiação de Marina Silva, é saber se, como vice, ela levará seus votos à chapa de Eduardo Campos. Se levar, trará um impacto duplamente significativo. Primeiro, haverá o segundo turno. Segundo, Eduardo Campos estará nele. As pesquisas indicam que Marina, como candidata a presidente, teria ao menos 25 milhões de votos. Nada de incrível: em 2010, ela recebeu 19,6 milhões e foi quem impediu a vitória de Dilma no primeiro turno.
2 Já se sabe qual a tese que a dupla Eduardo—Marina levará à campanha eleitoral do ano que vem. O próprio Eduardo Campos deu ontem as pistas. Apostarão na tese de que surgiu uma terceira via política. Nem um retorno ao passado com o tucanato, nem a manutenção da incompetência e da corrupção de hoje. Foi ele quem disse. O desempenho de Marina, caso se repita, fortalecerá Eduardo onde ele não tem maior respaldo: entre as periferias urbanas do Sul e do Sudeste, entre os evangélicos, entre os que são “contra tudo isso que está aí”, ou seja, a turma das manifestações.
3 Caso isso aconteça, o PT e Dilma Rousseff serão os grandes derrotados com a manobra feita ontem por Marina. Mas o PT não acredita nisso. Prefere crer, com diz o distrital Chico Vigilante, que não se vota em vice. Ou, como soprou o Planalto ontem mesmo, que a união entre Marina e Eduardo tirará votos apenas de Aécio Neves, do PSB, não se caracterizando como terceira via. Na campanha, fará tudo para mostrar isso.
4 Na oposição também existe quem mostre certo ceticismo. É o caso de Roberto Freire, do PPS, frustrado por ter sido preterido pela ex-ministra. Acha que, candidata, Marina cumpriria melhor o papel de ser terceira via e de esvaziar o PT.
Opiniões diferentes no DF
A filiação de Marina Silva ao PSB foi motivo de surpresa e dividiu a opinião de parlamentares. Para o senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), a realidade é inversa e pode representar o surgimento de um novo cenário político no DF. “A filiação trará uma grande repercussão e, sem dúvida, fortalece de forma significativa a Rede. Além disso, abre um espaço para que os candidatos possam participar”, assegura. O senador arrisca ainda em dizer que a postura de Marina possa ser exemplo: “A gente tem que reproduzir no DF o modelo que deu certo no Brasil. É preciso construir novas alternativas e acabar com essa política velha”.
O contrário
Já para o deputado federal e presidente do PT no DF, Roberto Policarpo, a decisão da ex-senadora não trará grandes impactos na política local. “Eu acredito que não muda em nada. Se Rodrigo Rollemberg for candidato, já era o esperado que houvesse um apoio da Rede junto a ele”, afirma. Para ele, com a rejeição do registro do partido, a expressividade do apoio de Marina é menor.
O ponto de vista é compartilhado pelo deputado distrital Chico Vigilante (PT). “No caso do Distrito Federal, a filiação não terá um peso grande. Um dos motivos é que muitos dos apoiadores de Marina nem eleitores são. Até menores de 16 anos estavam na lista. Inclusive, esse foi um dos motivos que impulsionaram a rejeição do partido”, comenta.
O parlamentar destacou ainda, que o partido escolhido por Marina conta com baixa representatividade na política local.