Flávio Bolsonaro (PL) usou um dado desatualizado durante o debate presidencial desta sexta-feira (23) ao afirmar que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem mais de 11,5 mil obras paralisadas. O número citado pelo candidato realmente consta em levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU), mas corresponde à situação registrada em abril de 2025, quando 11.469 dos 22.621 empreendimentos analisados estavam classificados como parados. O painel mais recente apresenta um cenário diferente.
“O TCU, o Tribunal de Contas da União, acaba de soltar um relatório que existem mais de 11.500 obras paralisadas do atual governo”, declarou Flávio durante o confronto com Lula. Na sequência, o senador afirmou que o Brasil havia voltado a ser um “grande cemitério de obras” e questionou como o presidente conseguiria concluir os projetos de infraestrutura. O problema da afirmação está justamente na apresentação do dado antigo como se tivesse acabado de ser divulgado e representasse a situação atual.
Em 2026, o Painel de Obras Paralisadas do TCU contabiliza 4.215 empreendimentos interrompidos dentro de uma carteira de 22.414 obras financiadas com recursos federais. Desse total, 2.102 estão na área de educação e outras 1.226 na saúde, setores que juntos concentram mais de 78% das paralisações registradas atualmente. Portanto, o número usado por Flávio existe, mas não corresponde à atualização mais recente disponível.
A diferença entre 11.469 e 4.215, contudo, também não significa que mais de sete mil obras tenham simplesmente voltado a funcionar no intervalo. Houve mudança nos critérios utilizados para classificar um empreendimento como paralisado, incluindo o fim da classificação automática baseada apenas na ausência de boletins de medição por determinado período. Por isso, a comparação direta entre os dois anos exige cautela e não permite concluir que toda a redução registrada pelo painel representa obras efetivamente retomadas.
A fala de Flávio, portanto, parte de um número verdadeiro, mas retirado de um levantamento anterior e apresentado durante o debate como se fosse uma atualização recente do TCU. A distorção está no contexto: enquanto o candidato afirmou que o tribunal “acaba de soltar” um relatório com mais de 11,5 mil obras paradas, os dados de 2026 registram 4.215 empreendimentos nessa condição. O problema das obras interrompidas continua relevante, mas o retrato utilizado pelo presidenciável pertence a 2025.