Embora faça parte da base do governo na Câmara Legislativa, o deputado Wellington Luiz (PMDB) não poupa críticas à relação entre os dois poderes. Para ele, as denúncias contra o Buriti podem respingar no PMDB e a aliança com o PT precisa sofrer mudanças para que se torne viável nas próximas eleições. “Hoje, do jeito que está para mim é muito ruim a parceria. Ela realmente só existe daqui para lá e de cá para aqui não tem”, avisou. Esses são os ajustes que, em sua opinião, precisam ser feitos para que a aliança entre os dois partidos se mantenha. Seria uma via de mão única. “È muito difícil conseguir falar com um secretário. É impossível. Quando presidente do sindicato, tinha muito mais facilidade para falar com secretário de Estado ou com governador do que agora, que eu sou parlamentar”, diz.
Quais as dificuldades na tramitação da da Lei de Uso e Ocupação do Solo, a Luos, da qual é relator e tem participado de audiências públicas para debate?
A falta de entendimento da população. A gente percebe que as pessoas ainda não sabem o que está sendo proposto. Eles sabem muito bem o que querem, mas não sabem o que o governo está propondo. Isso, de fato, tem sido um problema grave, mas a gente tem conseguido nas audiências esclarecer dúvidas para que as pessoas posso participar efetivamente com as suas sugestões.
Circula a informação de que o governo pressionou deputados para que não fizessem emendas no projeto, o que poderia agilizar essa aprovação. Essa pressão atrapalha o debate? É possível aprovar ainda esse ano?
Eu não sou movido por pressão, até porque, como presidente do sindicato de policiais por 12 anos, precisa-se de muita pressão para me abalar. Sobre mim, é irrelevante. Eu vou fazer meu papel de parlamentar. É óbvio que a proposta do governo vai ser levada em conta. Agora, o mais importante é que a comunidade diga o que está precisando. Há determinadas áreas que estão sendo destinadas a um fim que, de repente, não interessa à população. Você pode destinar para um posto de saúde, mas lá se precisa de uma escola. A Câmara existe justamente para melhorar o projeto que vem do Executivo. Se não for para isso, fechem-se as portas da Câmara. Agora, o deputado tem que ouvir a população e, não fazer sua vontade, mas, sim, a vontade da população.
O senhor falou que não é movido à pressão, mas a base do governo, da qual o senhor faz parte, é muito numerosa. Existe uma pressão muito grande sobre os deputados. Quais são os prejuízos de ter uma base tão grande?
Ter uma base grande não é um problema. O problema é essa falta de comunicação com o governo. Então, se estiverem em sintonia, não há mal nenhum. Na maioria das vezes, não está.
E a pressão por representar os policiais civis e fazer parte da base de apoio? Como é essa situação?
É uma pressão muito forte. A polícia tem uma enorme dificuldade de relaçionamento com o governo, até por tudo que aconteceu no passado e se repetiu agora, no presente. Tenho, sim, esse problema. Inclusive, escolhi meu lado. Eu era secretário de Estado e em cima de um carro de som pediram para que eu decidisse de que lado eu ficaria. Minha saída da Secretaria de Condomínios foi um pedido da categoria e eu jamais me voltaria contra aqueles que me elegeram. Fui quem ficou mais tempo na história do Sinpol, quatro vezes, e foram eles que me elegeram deputado. Tinha obrigação de ficar do lado da categoria. E claro que isso me custou caro junto ao governo, mas fiz o que tinha que ser feito e não me arrependo.
O senhor acompanhou o debate sobre possível rompimento de PT e PMDB, ideia abandonada no final do mês passado, quando se acertou a continuidade da aliança, embora dependendo de ajustes pontuais. Quais são os ajustes a serem feitos?
Exatamente essa sintonia que eu acabei de mencionar. Eu acho que os parlamentares e os membros do PMDB precisam ser mais ouvidos. Não é só a questão de cargos, porque às vezes, quando se fala de ajustes, as pessoas imaginam que é sobre cargos. Não. É ser ouvido, haver mais participação. É a categoria que você representa ser ouvida. Por exemplo, hoje nós temos um grave problema: é muito difícil você conseguir falar com um secretário. É impossível. Quando eu era presidente do sindicato, tinha muito mais facilidade para falar com secretário de Estado ou com o governador do que é agora que eu sou parlamentar. Essa falta de sintonia é que atrapalha o governo. Não adianta eu ter cargo e não ter espaço político nem poder participar do governo. Acabo obrigado a votar naquilo que eu não concordo. Tem de ser uma construção. E se eu não participar da construção, eu não quero participar da inauguração.
Em 2010, o senhor foi eleito por um partido que fazia oposição ao candidato ao governo, o PSC, depois mudou para o PPL, da base e, mais adiante, passou a integrar o PMDB, do vice-governador. Uma grande parte dos distritais fez esse percurso, tanto que hoje só existem três parlamentares de oposição. Como o senhor avalia esse cenário?
Quando você é eleito, o que você quer é espaço para trabalhar. No meu caso, primeira eleição partidária, você está aprendendo muita coisa. É natural que se converse e eu sou adepto do diálogo. Foi-me proposta uma oportunidade de trabalhar com o governo. Conseguimos fazer um excelente trabalho no Varjão, zeramos o número de homicídios, tornamos o Varjão uma das cidades mais tranquilas do DF, mas por uma decisão política do governo, por eu ter ficado do lado da categoria, jogaram tudo isso fora. Avalio isso, no primeiro momento, como uma possibilidade interessante de ajudar o governo e, no segundo momento, acho uma falta de maturidade do governo em retirar um grupo de pessoas que simplesmente mudou a história da cidade, um local que, apesar de separado apenas por uma rua do Lago Norte, tinha dez vezes menos valor. Hoje, os imóveis estão quase do mesmo preço, levaram faculdade para lá. Hoje as pessoas andam à noite lá.
De que forma o senhor classifica o diálogo com o governo?
Classifico como algo frustrante, justamente por conta da falta de espaço no momento das construções. Acho que a gente teria que ser mais ouvido. Se eu faço parte do governo, quero fazer parte contribuindo, quero que minhas ideias, depois de serem ouvidas pela população, virem alguma coisa. E hoje não viram nada, muito difícil. Eu, como secretário de Estado, só consegui falar com Agnelo uma única vez. Então, é muito difícil, muito mais do que você imagina.
Qual sua avaliação do governo Agnelo?
Razoável, mas pode melhorar muito. A máquina não anda, não acontece e precisa acontecer. Tem bons projetos, coisas interessantes que precisam ser encaminhadas. E elas, simplesmente, não acontecem. O diálogo é muito distante. Uma coisa que é muito latente é a falta de diálogo com as representações. São pessoas muito mal-orientadas, coisas absurdas que se fazem. Hoje a classe trabalhadora está muito massacrada. E como eu tenho uma relação muito próxima com esse pessoal, principalmente na área da segurança pública, constato um grau de insatisfação muito grande. Tem coisa que não é possível dar, como o aumento da Polícia Civil. Não adianta querer, mesmo que o Agnelo quisesse, porque nós temos um problema chamado Polícia Federal. Faltou dizer que não tem como porque não damos conta, a Dilma não deixa. Faltou transparência e isso é muito ruim. Me diga não, mas me diga porque está dizendo não. A falta de transparência atrapalha o funcionamento da máquina estatal.
O GDF teve que lidar com alguns escândalos como a licitação dos ônibus e a denúncia dos fakes supostamente financiados pelo Buriti. Já que o senhor é da base e do partido do vice-governador, o senhor acha que essas denúncias podem acabar arranhando a imagem do governo?
Arranham, sim. Tenho certeza absoluta. Tanto é que nessa questão dos ônibus, nós já convocamos o diretor do DFTrans, Marco Antônio Campanella, para que ele nos explique essa montanha de denúncias. Fui um dos que se manifestaram sobre essa convocação. Até para se inocentar, se for o caso. Agora, é muita denúncia. Esse tanto de denúncia tem que ter um motivo. Então, esse tipo de coisa arranha muito a imagem do governo.
Há boatos de que Arruda e Roriz poderiam estar se aproximando do PMDB neste ano. Qual sua opinião sobre isso?
Faço parte do grupo do vice-governador Filippelli. É alguém muito acessível e que a gente discute tudo. À primeira vista não acredito que essa aproximação aconteça, mas é um momento extremamente indefinido. Acho que qualquer um que queira fazer uma previsão sobre o que vai acontecer nas próximas eleições tem 99% de chances de errar. Não dá para você imaginar qualquer coisa, porque está tudo muito embaralhado. Quem imaginou que Marina Silva iria para o partido do Rodrigo Rollemberg (PSB)? Ele ia botar seu carro na pista, sem ter chances de eleição para governador, mas acabaram de turbinar o carro dele.
Qual seria sua aposta para hoje sobre PT e PMDB disputarem as eleições? Seria possível continuar juntos?
Possível é. Claro que existe um trabalho construído ao longo dos anos, existe uma relação. Então, é possível, mas tem que haver ajustes. Hoje, do jeito que está, para mim, é muito ruim a parceria. Essa parceria realmente só existe daqui para lá e de cá para aqui não tem.
O senhor passou pelo PPL, por sua vez ligado ao MR-8, grupo armado sobre o qual, hoje em dia, existe a suspeita de que esteja vinculado a atos violentos e a black blocs. Com a sua experiência como policial, como o senhor avalia essa situação?
É difícil a gente saber. Eu não participei de uma investigação sobre isso, então sou cuidadoso a respeito. Agora, tem ações do PPL, como por exemplo, aquele Marcelo Tigre, do PPL, que foi visto em uma manifestação. E outros servidores do GDF em posição ambígua. Então, há indícios de um movimento deles que contraria os interesses do governo.
O PPL também está envolvido nas denúncias do DFTrans, onde se afirma que o partido possui grande influência política e só quem é filiado à legenda consegue um cargo. Isso influenciou sua troca de partido?
Influenciou diretamente. Acho que você precisa ter, na política, além de se pautar pela legalidade, também a ética e a moralidade. Quando você perde isso, perde sua essência. Digo que eu estou parlamentar, político, mas eu sou um cidadão e espero ser um cidadão de bem. Ser um cidadão de bem agindo com determinadas ações é impossível. Eu me sentia extremamente mal, não estava bem, me foram feitas propostas indecorosas e que eu jamais poderia aceitar. Então, fui motivado por esse conjunto de gestos para que eu saísse, mas não só eu, boa parte da executiva do partido.
Quais suas perspectivas políticas para 2014?
São boas. Eu não posso reclamar, tenho trabalhado bastante. Apesar de ser um cenário indefinido e ser muito complicado fazer qualquer tipo de leitura, de fato as expectativas são ótimas. A gente tem aparecido nas pesquisas, bem, apesar de que isso não quer dizer muito. Obviamente, estou trabalhando para manter meu eleitorado na polícia, com gestos e trabalho de confiança. Não quero perder credibilidade com policiais, mas estou tentando aumentar minha base, principalmente depois que eu fui secretário de Condomínios, entrei muito nessa questão fundiária. Tanto é que hoje sou relator da Luos, que vai nos ajudar bastante.