Na mesma semana em que a Câmara Legislativa cassou Raad Massouh, o deputado Wellington Luiz (PMDB) decidiu recorrer à Polícia Civil para denunciar o uso supostamente inadequado de uma emenda de sua autoria. Foram destinados R$ 100 mil pelo parlamentar a um projeto cultural para a Administração do Varjão, mas a execução acabou desvirtuada, reclama Wellington. Também a emenda de Raad foi desvirtuada, mas a Câmara culpou o ex-distrital por isso.
O projeto O PAS no Teatro consistia em eventos com encenações de obras literárias que seriam abordadas pelo Programa de Avaliação Seriada, processo seletivo semelhante ao vestibular e realizado pela Universidade de Brasília.
Para que as apresentações chegassem aos alunos de escolas públicas do Varjão, a verba foi liberada e estava pronta para ser executada pela administração regional.
Fora do projeto original
Entretanto, quando o evento foi executado, no dia 5 de outubro de 2012, na Escola Classe do Varjão, as apresentações teatrais ficaram de lado e deram lugar a show musicais, contrariando o projeto original, que também previa programação de três dias.
Administrador do Varjão, Hélio Chagas foi exonerado no começo de outubro, quando o deputado Wellington perdeu os cargos dentro do GDF, por conta da crise causada pela greve dos policiais civis. Chagas afirma que o evento foi executado sem passar por ele. “Não fomos consultados e a gerente de finanças da Administração, Áurea Rodrigues de Moraes, autorizou os pagamentos para a empresa, antes até da execução do evento”, afirmou.
Depois da realização dos eventos fora das especificações, o deputado Wellington se reuniu com o administrador José Ricardo do Nascimento, sucessor de Chagas, e a gerente de finanças. Segundo o distrital, a denúncia foi feita para evitar que a situação o comprometesse. “Se eu tivesse participado, jamais teria denunciado”, garantiu.
Com isso, foi aberta a ocorrência 2.729/2012, na Polícia Civil. A investigação ainda não foi finalizada. No inquérito, Nascimento afirma ter tomado conhecimento do evento na véspera, pois foi empossado no dia 1º.
Confiança
Wellington Luiz não tem certeza sobre a causa das irregularidades, principalmente por se tratar de uma pessoa que era de sua confiança. “Indiquei para o cargo alguém que tinha experiência prévia em gestão pública, ex-advogada e policial civil. Pode ser que tenha sido levada por influências”, opinou.
A reportagem do Jornal de Brasília tentou contato com Áurea Moraes em seu endereço, mas recebeu a informação de que a ex-gerente de finanças do Varjão estava viajando havia vários dias.
Saiba Mais
O deputado Wellington Luiz foi o responsável por indicar nomes para a Administração de Varjão, além de ter sido Secretário de Condomínios.
No entanto, o parlamentar perdeu os cargos no governo quando apoiou o movimento dos policiais civis, categoria da qual fez parte.
Hélio Chagas deixou de ser administrador do Varjão quando ocorreu o rompimento.
O ex-administrador afirma que não foi consultado durante o processo de contratação.
Como foi o caso Raad
O ex-distrital Raad Massouh (PPL) foi cassado no último dia 30 de outubro, por ser acusado de desvio de verbas uma emenda de própria autoria. Raad destinou R$ 100 mil a um evento rural ecológico, em Sobradinho, seu reduto eleitoral. A festa, em outubro de 2010, teria sido realizada de forma diferente da previsto no projeto, com apenas um dia de evento e público de menos de 200 pessoas – quando eram esperados dois dias de apresentações e 10 mil pessoas.
A investigação foi realizada pela Delegacia de Combate a Crimes contra a Administração Pública (Decap), que fez busca e apreensão na casa de Raad e na Secretaria de Micro e Pequena Empresa, onde o ex-distrital era secretário. Também foram realizadas escutas telefônicas, nas quais o ex-distrital foi flagrado comemorando a saída do delegado Flamarion Vidal do caso.
O processo na Câmara Legislativa foi instaurado em abril deste ano e passou pela Comissão de Ética, onde foi elaborado relatório que culpava Raad. O passo seguinte foi a aprovação pela Comissão de Constituição e Justiça.
Quando estava prestes a ser votada em plenário, a cassação foi suspensa pelo Tribunal de Justiça, que um mês depois negou a anulação do processo, mas autorizou o voto secreto.
Em plenário, foram 18 votos favoráveis, três contra a cassação e duas abstenções. Raad Massouh foi o terceiro deputado distrital a ser cassado na história do Câmara Legislativa.