Jornal de Brasília

Informação e Opinião

Política & Poder

Delegado da PF no caso Milton Ribeiro diz que houve interferência na investigação

Segundo Calandrini, a investigação foi “prejudicada” em razão de tratamento diferenciado dado pela polícia ao ex-ministro

Por FolhaPress 23/06/2022 4h18
Foto: Evaristo Sá/ AFP

Fabio Serapião e Camila Mattoso
Brasília, DF

O delegado federal responsável pelo pedido de prisão do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro afirmou em mensagem enviada a colegas que houve “interferência na condução da investigação”.

Bruno Calandrini diz no texto que a investigação foi “prejudicada” em razão de tratamento diferenciado dado pela polícia ao ex-ministro do governo Jair Bolsonaro.

No texto encaminhado a outras pessoas que participaram da operação deflagrada nesta quarta (22), o delegado agradece o empenho, mas diz não ter “autonomia investigativa para conduzir o inquérito deste caso com independência e segurança institucional”.

Calandrini conduz a apuração que culminou na Acesso Pago, ação que mirou os desvios no Ministério da Educação.

Na cúpula da PF, a reação foi de surpresa em relação à postura do delegado. A decisão da direção foi de abrir um inquérito para o caso dizendo que vai apurar as denúncias. Na prática, a apuração servirá para ver se Calandrini tem como provar o que está dizendo.

Como mostrou a Folha, a PF alegou risco de segurança e restrições orçamentárias para manter o ex-ministro em São Paulo em vez de transportá-lo para Brasília.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Segundo ele, a ação da direção do órgão para supostamente evitar o translado demonstra a interferência e acarreta em falta de autonomia para que ele conduza a apuração com independência e segurança institucional.

“O deslocamento de Milton para a carceragem da PF em SP é demonstração de interferência na condução da investigação, por isso, afirmo não ter autonomia investigativa e administrativa para conduzir o inquérito policial deste caso com independência e segurança institucional”, diz trecho da mensagem.

No entendimento do investigador, a operação foi prejudicada por causa do suposto “tratamento diferenciado” concedido ao ex-ministro.

“A investigação envolvendo corrupção no MEC foi prejudicada no dia de ontem em razão do tratamento diferenciado concedido pela PF ao investigado Milton Ribeiro.”

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ainda de acordo com o texto do delegado, Ribeiro, apontado por ele como o “principal alvo” da operação, “foi tratado com honrarias não existentes na lei”.

Nos bastidores, integrantes da cúpula da PF afirmam que ficaram sabendo na noite anterior à operação de toda a logística que seria necessária para cumprimento dos mandados de prisão e busca e apreensão e que, por isso, não foi possível fazer o planejamento adequado.

“Apesar do empenho operacional da equipe de Santos que realizou a captura de Milton Ribeiro, e estava orientada, por este subscritor, a escoltar o preso até o aeroporto em São Paulo para viagem à Brasília”, completa Calandrini em sua mensagem.

Calandrini diz ainda que comunicou ao seu superior a situação e que irá manter a postura “de que a investigação foi obstaculizada ao se escolher pela não transferência de Milton a Brasília à revelia da decisão judicial”.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A transferência de Ribeiro de São Paulo para Brasília foi ordenada pelo juiz Renato Borelli, da 15ª Vara Federal do Distrito Federal.

No mandado de prisão do ex-ministro constava que o translado deveria ser realizado assim que a prisão fosse efetuada.

Ribeiro foi preso em Santos na manhã da quarta e levado para superintendência da PF em São Paulo.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

No início da tarde, o advogado Daniel Bialski, que representa Ribeiro, acionou a Justiça para reverter a transferência, mas teve o pedido negado em um primeiro momento pelo magistrado de Brasília.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Em seguida, a PF interveio e conseguiu uma mudança na decisão de Borelli.

A Folha apurou que a PF apontou questões financeiras que dificultam a transferência com aeronaves próprias e também risco de segurança para colocar o ex-ministro em um voo comercial.

Foi essa atuação da direção da PF que desagradou o delegado e resultou na postagem no texto no grupo de policiais.

A investigação comandada por Calandrini foi iniciada após as reportagens sobre o esquema de liberação de verbas no MEC.

O ex-ministro pediu demissão do cargo dias após a Folha revelar áudio em que ele afirmava priorizar a liberação de verba para indicações dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura.

Ribeiro e os pastores,​ ambos ligados ao presidente Jair Bolsonaro, foram presos. Também foram detidos Luciano de Freitas Musse, advogado e ex-assessor do MEC, e Helder Bartolomeu, ex-assessor da Prefeitura de Goiânia.

Agentes federais estiveram na sede do MEC, em Brasília, em uma operação que trouxe novo desgaste a Bolsonaro a pouco mais de três meses das eleições.

A ação desta quarta-feira foi batizada de Acesso Pago e investiga a prática de “tráfico de influência e corrupção para a liberação de recursos públicos” do FNDE.

Com base em documentos, depoimentos e um relatório da CGU (Controladoria-Geral da União) foram mapeados indícios de crimes na liberação de verbas do fundo. Ao todo, foram cumpridos 13 mandados de busca e apreensão em Goiás, São Paulo, Pará e Distrito Federal.

No mandado de prisão de Ribeiro, o juiz Renato Borelli listou os crimes investigados e que podem ter sido cometidos pelo ex-ministro. São eles: corrupção passiva, prevaricação, advocacia administrativa e tráfico de influência.

A decisão de prisão de Ribeiro e dos pastores foi revertida nesta quinta (23) por decisão do juiz federal Ney Bello, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. O ex-ministro já foi solto.








Você pode gostar